quarta-feira, 12 de maio de 2010

Emerson Barros de Aguiar - Ter Sofrido



Um conto - uma crônica

Este poema de Mário de Andrade encerra uma significação profunda:

"Escuta as árvores fazendo a tempestade berrar.
Valoriza contigo estes instantes
Em que a dor, o sofrimento,
feito vento, são consequências perfeitas
Das nossas razões verdes,
Da exatidão misteriosíssima do ser."


Não se pode dominar a dor escondendo-a, ou se escondendo dela. Ela faz parte da vida.
Se olharmos a nossa volta, podemos perceber que ela está presente de várias formas.
Mesmo que desejemos que o sofrimento não se apresente, ainda com mais força ele se apresenta.

Isso porque não podemos ir contra a natureza das coisas.

É uma tolice imaginar a perfeição como a faculdade de não exergar o sofrimento. A perfeição não tem nada a ver com isso.Ver perfeitamente é compreender as coisas como elas são.

Muitas vezes tendemos a ver à felicidade como uma conjugação de circuntâncias favoráveis, na qual haja a menor parcela de sofrimento possível.
Baseamos-nos nisso, então olhamos para nós mesmos, e para os outros e julgamos se temos ou não motivos para nos acreditarmos felizes.

Porém, considerando-se que somos resposáveis, em maior ou menor grau, por todo o sofrimento que nos ocorre, podemos constatar que essa crença, se não é totalmente falsa, omite boa parte da verdade.

A dor tem uma razão de ser:
O alcance de uma compreensão maior sobre as implicações de se estar vivo.
Enquanto esta consciência não floresce, a dor persiste.

Contudo, existem dois tipos de sofrimento:

aquele causado pela nossa própria ignorância e
aquele por causa da ignorância dos outros.

Esse segundo tipo é mais um lamento por aqueles que "não sabem o que fazem", ou seja, que desconhecem que o mal que praticam provoca sofrimento futuro para si mesmos.

Esta é a dor das almas puras e dos santos.

O sofrimento não existe simplesmente para que nós desejemos que ele não exista. Isso não terá sentido.

A tradição budista sintetiza bem isso através das "Quatro Nobres Verdades".

A primeira delas fala sobre a existência do sofrimento,
a segunda, afirma que todo sofrimento nasce do desejo inclusive do de não sofrer;
a terceira, diz que o sofrimento se extingue do desejo;
e a quarta, aponta o caminho de oito passos para a cessação do desejo.

Quem desperdiça o seu tempo tentando se esconder do próprio sofrimento e fugindo da dor dos outros, sem meditar sobre as razões das suas dores e sem procurar minimizar os sofrimentos alheios, naquilo que for ossível, não está sabendo aproveitar o sofrimento.

Porque, quando ajudamos as pessoas que estão sofrendo, a nossa própria dor diminui.

Gilbran, falando da dor, disse que ela é "a amarga porção com a qual o médico que está em vós cura o vosso Eu doente.

Confiai, portanto, no médico, e bebei seu remédio em silêncio e com tranquilidade.

Porque sua mão, embora pesada e dura, é guiada pela suave mão Invisível.

Se, por um lado, a dor martiriza e lascina, por outro ela humaniza e santifica.

No sofrimento, o homem se solidariza com o seu próximo, compadecendo-se das chagas e trazendo-o para mais perto de si.

Não vai aqui nenhuma apologia ao sofrimento, mas apenas a lembrança de que se ele corretamente assimilado, irá se constituir numa lição que não precisa ser repetida.

Nas palavras sensatas do Mestre Eckhart:

"Nada é mais amargo do que o sofrer, e
nada é mais doce do que o ter sofrido.
Aos olhos dos homens, o que mais desfigura o corpo é o sofrer;
Aos olhos de Deus, o que mais embeleza a alma é o ter sofrido."

Emerson Barros de Aguiar.
Jornalista e filósofo.

Publicada no Jornal O Norte.

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