Um conto - uma crônica
Este poema de Mário de Andrade encerra uma significação profunda:
"Escuta as árvores fazendo a tempestade berrar.
Valoriza contigo estes instantes
Em que a dor, o sofrimento,
feito vento, são consequências perfeitas
Das nossas razões verdes,
Da exatidão misteriosíssima do ser."
Não se pode dominar a dor escondendo-a, ou se escondendo dela. Ela faz parte da vida.
Se olharmos a nossa volta, podemos perceber que ela está presente de várias formas.
Mesmo que desejemos que o sofrimento não se apresente, ainda com mais força ele se apresenta.
Isso porque não podemos ir contra a natureza das coisas.
É uma tolice imaginar a perfeição como a faculdade de não exergar o sofrimento. A perfeição não tem nada a ver com isso.Ver perfeitamente é compreender as coisas como elas são.
Muitas vezes tendemos a ver à felicidade como uma conjugação de circuntâncias favoráveis, na qual haja a menor parcela de sofrimento possível.
Baseamos-nos nisso, então olhamos para nós mesmos, e para os outros e julgamos se temos ou não motivos para nos acreditarmos felizes.
Porém, considerando-se que somos resposáveis, em maior ou menor grau, por todo o sofrimento que nos ocorre, podemos constatar que essa crença, se não é totalmente falsa, omite boa parte da verdade.
A dor tem uma razão de ser:
O alcance de uma compreensão maior sobre as implicações de se estar vivo.
Enquanto esta consciência não floresce, a dor persiste.
Contudo, existem dois tipos de sofrimento:
aquele causado pela nossa própria ignorância e
aquele por causa da ignorância dos outros.
Esse segundo tipo é mais um lamento por aqueles que "não sabem o que fazem", ou seja, que desconhecem que o mal que praticam provoca sofrimento futuro para si mesmos.
Esta é a dor das almas puras e dos santos.
O sofrimento não existe simplesmente para que nós desejemos que ele não exista. Isso não terá sentido.
A tradição budista sintetiza bem isso através das "Quatro Nobres Verdades".
A primeira delas fala sobre a existência do sofrimento,
a segunda, afirma que todo sofrimento nasce do desejo inclusive do de não sofrer;
a terceira, diz que o sofrimento se extingue do desejo;
e a quarta, aponta o caminho de oito passos para a cessação do desejo.
Quem desperdiça o seu tempo tentando se esconder do próprio sofrimento e fugindo da dor dos outros, sem meditar sobre as razões das suas dores e sem procurar minimizar os sofrimentos alheios, naquilo que for ossível, não está sabendo aproveitar o sofrimento.
Porque, quando ajudamos as pessoas que estão sofrendo, a nossa própria dor diminui.
Gilbran, falando da dor, disse que ela é "a amarga porção com a qual o médico que está em vós cura o vosso Eu doente.
Confiai, portanto, no médico, e bebei seu remédio em silêncio e com tranquilidade.
Porque sua mão, embora pesada e dura, é guiada pela suave mão Invisível.
Se, por um lado, a dor martiriza e lascina, por outro ela humaniza e santifica.
No sofrimento, o homem se solidariza com o seu próximo, compadecendo-se das chagas e trazendo-o para mais perto de si.
Não vai aqui nenhuma apologia ao sofrimento, mas apenas a lembrança de que se ele corretamente assimilado, irá se constituir numa lição que não precisa ser repetida.
Nas palavras sensatas do Mestre Eckhart:
"Nada é mais amargo do que o sofrer, e
nada é mais doce do que o ter sofrido.
Aos olhos dos homens, o que mais desfigura o corpo é o sofrer;
Aos olhos de Deus, o que mais embeleza a alma é o ter sofrido."
Emerson Barros de Aguiar.
Jornalista e filósofo.
Publicada no Jornal O Norte.
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