terça-feira, 11 de maio de 2010

Onaldo Queiroga - Mundo dos seiscentos diabos


Um conto - uma crônica

São muitas as expressões populares.
No sertão encontramos um leque delas.
Dentre tantas, tem uma que o matuto realmente, de vez em quando, gosta de falar, qual seja: "Eita, mundo dos seiscentos diabos."

Matuto para muitos é um bicho do mato, é um bocó, uma pessoa de pouca escolaridade e fácil de ser enganado.
Esse conceito é equivocado, é a visão de quem não o conhece de perto.

Recentemente presenciei uma situação que possibilitou uma visualização sobre isto.

Estava lá pras bandas do sertão, no meio de uma feira livre, ouvindo os homens de mãos calejadas conversar,
escutando a voz rural dos homens simples, verdadeiros, que com coragem constroem este Brasil.

Falaram da seca e do inverno.
Disseram sobre a insegurança que há tempo chegou ao campo, afastando a tranquilidade da vida rural.
Da violência que matou e ainda mata novos Joões, Pedros e Margaridas.
Das quadrinhas motorizadas que estão a praticar furtos de motor-bombas, ovelhas, cabras, bodes, galinhas, porcos, vacas e touros.
Da violência que impede o sertanejo de armar sua rede na varanda e dormir sossegado no frio da madrugada.

Falaram das dificuldades financeiras, resultado da investida impiedosa dos bancos, que através dos empréstimos consignados conseguiram comprometer uma grande parte da renda dos aposentados.

Relataram que as suas casas tinham energia elétrica e antena parabólica,ue permitiam comentários sobre as tragédias decorrentes das chuvas nos Estados do Rio de Janeiro e o crime organizado.

Conversa vai, conversa vem, um matuto mais exaltado exclamou:

"Que mundo é este dos seiscentos diabos?"

Neste momento pairou um silêncio, mas logo em seguida um deles, com a experiência dos seus cabelos brancos, disse:

"É realmente um mundo cão.
Ontem, os meios de comunicação e de transporte eram precários.
Hoje, conseguimos evoluir, mas parece que esta evolução trouxe consigo toda essa insegurança e maldade."

Veio, então, à minha mente uma reflexão:

As coisas evoluíram no mundo rural.
Hoje, o homem do campo tem a energia elétrica e com ela a geladeira,o ventilador, o ar condicionado, e engenho movido a motor, a televisão e até a internet, passando assim a ter conhecimento de tudo o que acontece no planeta.
Inclusive, as coisas ruins.

Ressalte-se, ainda, que com a melhoria das estradas e veículos modernos vieram a facilidade para a ação dos bandidos que roubam bens materiais e o sossego espiritual anteriormente existentes no campo.

E, só resta exclamar: Xô, seiscentos diabos.

O mundo é de Deus e apesar de alguns homens preferirem caminhos outros, devemos lembrar do ensinamento de Emmanuel:
"Para servir a Deus, ninguém necessita sair do seu próprio lugar ou reivindicar condições diferentes daquelas que possui."

Onaldo Queiroga.
Escritor e Juiz de Direito.
Publicada no Jornal Correio da Paraíba.
Coluna: Opinião
Edição de sábado.

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