terça-feira, 6 de julho de 2010

Emerson Barros de Aguiar - Perceber os sinais...



Um conto - uma crônica

Heródoto, o célebre historiador grego, fala, em seus escritos, sobre alguns oráculos que os antigos helenos costumavam consultar. Dois destes oráculos eram o de Dodona e o de Delfos.

Neles, os consulentes vinham buscar respostas para os mais diversos assuntos. Porém, o mais interessante era a maneira pela qual esses oráculos falavam. Conta-se que em Delfos havia uma pitonisa que, adormecida por vapores, punha-se a atender as perguntas. Mas na maior parte das vezes, tanto em Dodona quanto em Delfos, as respostas vinham através de sinais muito simples. Estes podiam ser as brisas nas folhas do carvalho sagrado, o som do vento num vaso de bronze, o murmúrio da fonte,
a brisa no loureiro ou o som do tripé de bronze quando o vento soprava.

A vida prefere nos responder com sinais muito simples. Para percebê-los, no entanto, é preciso que estejamos tranquilos. Precisamos nos comportar durante a pergunta como se já tivéssemos a resposta. Pois, na verdade, todas as respostas estão em nós, o que não é motivo para nos envaidecermos, pois, se assim fizermos, nunca as descobriremos. Isso porque a humildade e o reconhecimento da nossa própria ignorância é a chave para toda as questões que nos inquietam.

Mutas pessoas elegem um só canal para a verdade, algumas destas pessoas escolhem o intelecto, e através dele esperam descobrir tudo o que desejam. Passam a vida toda tentando perceber a existência somente pela razão e ignorando todas as outras manifestações da verdade.

A vida muitas vezes deseja falar conosco através dos sinais mais corriqueiros, mas não percebemos porque estamos gastando nossa energia em raciocínios complicados para atingirmos o objetivo desejado. Só que não é assim que funciona. Se não dermos oportunidade para que a mensagem da vida chegue até nós do modo que ela desejar, então simplesmente não a escutaremos.

Para que estes sinais nos alcancem é necessário cultivarmos uma nova maneira de encarar a vida. Muitas pessoas gostam de nós, mas demonstram isso de uma maneira muito sutil, e se não estivermos atentos para estas sutilezas, nunca saberemos da consideração que alguns indivíduos nos dedicam.

Todos sabemos como é difícil, quando amamos muito alguém, dizermos isso, ou até mesmo mostrarmos isso através de gestos ou até de presentes. O que fazemos então é diluir este amor no cotidiano, demonstrando, através de pequenas atitudes e de palavras gentis e carinhosas, todo amor que sentirmos. Para sermos compreendidos, entretanto, é preciso que o outro esteja atento, ou, do contrário, não perceberá que cada respiração que damos ao seu lado é o sinal de uma grande afeição que sentimos por ele.

Deus, que nos ama infinitamente, quer fazer com que saibamos o quanto somos importantes para ele e também o quanto somos amados por ele. Porém, ele é muito sutil e paciente no seu amor, e espera que compreendamos o quanto ele nos deseja agradar, o quanto ele quer que sejamos felizes. Para isso, ele nos fala, nos atende e nos responde, procurando fazer com que ouçamos as suas mensagens.

O canto de um passarinho, que ecoa pela janela do nosso quarto, pode ser a voz de Deus incentivando para que sigamos adiante, perdoando as nossas faltas, dizendo que não estamos sós, falando aos nossos corações...

Além de escutarmos, precisamos sentir,além de enxergarmos, precisamos contemplar, e, além de buscarmos a resposta, precisamos aprender a receber a resposta, assim, cada murmúrio do vento, cada fresta de luz atravessando a sala, e cada trinado de ave será uma palavra de Deus...

Emerson Barros de Aguiar.
Jornalista e filósofo.

Publicada no Jornal O Norte.

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