sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Luiz Augusto Crispim - Boas Novas


um conto-uma crônica
Houve temo em que as cidades sorriam. E o Ponto de Cem Réis era o lugar mais sorridente desta cidade.

Lembro-me de um gazeteiro que desfilava pela calçada do Paraíba Hotel, anunciando as manchetes que não estavam nos jornais que ele tinha para vender. Mas serviam para intitular as alegrias que se espalhavam melhor do que muita notícia cunhada pelas linotipos.

Motivos para sorrir não faltava. Tudo era novidade. E o progresso estava sempre a promover mais do que cumpria. A alegria era apenas uma questão de espera.

Durante anos, a Paraíba esperou pelos Caravelles que desbancaram os Constelations. Mas os jatos prometidos passavam por cima das nossas cabeças, lotados de sonhos que embarcavam no Recife e em Natal, deixando os paraibanos a ver navios...

O avião perdido, mas, nem por isso, as pessoas perdiam o sorriso. Todo mundo sorrindo de graça, ainda que a ver navios...

Nem isso. Porque, vez por outra, os navios também nos evitavam da mesma maneira que os aviões. Naquele tempo, diziam que Cabedelo vivia de mal com as nações amigas porque havia uma pedra no meio da barra, assim como havia uma pedra no caminho do poeta. E a Paraíba continuava sem grandes navegações.

Vivíamos assim, de grandes esperanças, a ver uns poucos navios e a sobreviver de suspeitas de que no ar há sempre algo mais do que simples aviões de carreira...

Suponho que foi isso que fez a Paraíba mais triste.

Duvido que alguém encontre motivos para encontrar a cidade sorrindo entre dois goles de café, no Ponto de Cem Réis. Hoje em dia, a gente só vive de notícia ruim.

- Vão acabar com a aposentadoria!
- O Governo quer demitir 500 mil!
- O agente financeiro vai tomar a casa da gente!
- Os salários vão atrasar...

Antigamente, a Paraíba vivia de esperar boas notícias. Os anos 60 foram todos de espera pelos Caravelles que nunca pousaram. Os anos 70 foram gastos na espera de um hotel que veio, afinal, mas que por pouco não se acabou e findou nele mesmo...

Os anos 80 frustraram a espera dos governantes e dos governados, que não esperavam a Constituição que hoje remendam com tanta pressa.

Seja como for, o sorriso empalideceu no rosto da cidade que um dia se chamou Parahyba. O dinheirinho curto, pago ligeiramente em dia, já não dá sequer para o cafezinho bem humorado, o que dirá da cervejinha bem acompanhada...

Sorrir de quê?

Repare você mesmo, quando cruzar a calçada do Paraíba Hotel, que tenta esboçar no branco novo do granito sofisticado uma espécie de sorriso, qual velha senhora a viver das lembranças dos bons tempos. Repare no carmim da casa antiga. Repare só. O toque da pintura não disfarça apenas as suas rugas. É a maneira de esconder as tristezas de todos nós.


Luiz Augusto Crispim.
Escritor, jornalista e advogado.


A Dama da Tarde.
Página 69 e 70.

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