segunda-feira, 18 de julho de 2011

Carlos Pereira - A Última Crônica Da Velha Olivetti



um conto - uma crônica
No dia 23 de janeiro deste ano, minha neta Maria Alice conheceu uma máquina de escrever. Apresentei a ela uma Olivetti Lettera 82, com cujas teclas escrevi as primeiras crônicas dessa minha despretensiosa carreira de escritor. E, naquela noite, no terraço da casa da praia de Areia Dourada, escrevi o texto que agora torno público:

"Era uma vez uma menina que amava os Beatles e não tanto os Rolling Stone e que, neste verão de 2011 nunca tinha visto uma máquina de escrever. A sua sensibilidade desde cedo era demonstrada nos cartões que ela escrevia para o seu avô que, embora distante mais de dois mil quilômetros, conseguia entender o seu penhor - talvez um tanto precoce para as letras, para as artes e, em especial para a poesia e para a música.

Um detalhe que o velho avô recebeu nos primeiros escritos de sua netinha, era o valor que ela dava as palavras mais doces, quase sempre emolduradas por corações que, devidamente pintados no papel, até pareciam pulsar dentro do envelope.

Assim ela foi crescendo e desenvolvendo suas tendências e, ainda pré-adolescente, descobriu que o interesse pelos Beatles era mais do que uma coisa de momento - assim como uma nuvem passageira.

E tanto estudou e tanto pesquisou e tanto pôde saber que aos 12 anos recebeu um prêmio, dado pelos seus pais, diga-se de passagem, com inteira justiça, a oportunidade de assistir, ao vivo e em cores, a apresentação de Paul McCartney, quando de turnê pelo Brasil. E, no estádio Beira-Rio, numa tarde de novembro lá estava ela junto com seu pai para ver, aplaudir, cantar e até chorar de emoção bem de pertinho um de seus ídolos.

Nestas linhas, eu - o seu velho avô, Carlos - usando as velhíssimas teclas de uma máquina Olivetti LETTERA 82, presto a minha homenagem a esta querida neta.

Seu nome é Maria Alice a quem neste momento diante de poucas testemunhas, numa noite de verão de janeiro de 2011, beijo terna e carinhosamente. E a quem dedico a última crônica escrita nesta antiga máquina de escrever.

Do avô Carlos Pereira, para a neta Lilica, com muito amor.
x.x.x.x.x..x

Para concluir, devo dizer que em janeiro, a velha máquina seguiu na sua bagagem para Brasília. E ela, que hoje completa 13 anos, me assegurou que, de vez em quando, a utiliza - alternando as coisa que escreve com o teclado do seu computador.

Carlos Pereira
Jornalista, escritor, engenheiro e
professor universitário

Publicada no jornal A União.
Edição de 10/07/2011.

Imagem: Máquina Escrever Portátil Olivetti Lettera 82
Fabricada Hermes Precisa
http://lista.mercadolivre.com.br/maquinas-escrever

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