Onaldo Queiroga - Vivência De Um Juiz II
um conto - uma crônica
O dia-a-dia de um Juiz é algo desgastante. Por isso, ser juiz é um sacerdócio. A grande maioria da população acredita que juiz ganha muito dinheiro, é milionário. Ledo engano. Não se ganha pouco, recebe-se bem e dá para se viver dignamente. Aliás, quando vocacionado, o juiz carrega consigo a certeza de que não fez concurso para enricar, mas sim para viver uma missão, árdua, é claro, pois , quando decide, agrada um lado e contraria o outro. É sempre assim.
O juiz deve ter vocação, compreensão, paciência, equidade e, acima de tudo, senso de justiça. Deve buscar sempre o justo. Por isso, é necessário ouvir muito, falar quase nada, decidir.
E os juízes das Comarcas interioranas? Esses exercem a magistratura como se fossem clínicos gerais, enfrentam questões das mais diversas, difíceis e, muitas vezes, seus gabinetes são transformados em verdadeiros confessionários.
Quando juiz em Sousa, certa vez, ao chegar ao Fórum para o expediente da tarde, verifiquei a existência de muitas audiências na pauta. Comecei, então, a realizá-las. Após a terceira, isto já por volta das 16:30hs, fui informado pelo oficial de justiça Nonato de que havia um casal, mais precisamente dois irmãos, querendo falar um assunto particular. Nesse momento, disse ao Nonato que avisasse a eles que esperassem, pois ainda havia duas audiências para serem realizadas.
Os irmãos, então, resolveram esperar. Quando as audiências terminaram, já era por volta das dezoito horas. Chamei o oficial Nonato e comuniquei que os irmãos poderiam adentrar ao meu gabinete.
Pos bem. Adentraram. Tinham mais de cinquenta anos de idade. Sentados, indaguei o que eles desejam. O senhor, que agora vou chamar de Pedro, falou: "-Doutor, não temos mais pai. Só está viva nossa mãe, a qual encontra-se muito enferma no hospital Santa Terezinha. Ela só tem nós dois de filhos. Sei que talvez ela não chegue viva até amanhã, pois o seu estado de saúde é muito grave." Nesse instante, retruquei:"- Bom, eu não sou médico, mas me digam em que posso ajudar para resolver algum problema que esteja ao alcance do Judiciário.
Ato contínuo, foi a senhora, que agora chamo de Maria, que falou:"- Doutor Onaldo, o fato é que eu desejo que o velório de minha mãe ocorra na minha residência, acontece, porém, que o meu irmão Pedro também quer que o velório seja na sua casa. Viemos aqui para que o senhor resolva esse impasse."
Não havia processo em andamento, mas um problema ali diante dos meus olhos, esperando uma decisão. Fiquei perplexo. Mas, olhando para os dois irmãos, disse:"A mãe de vocês ainda vive. Esse detalhe não pode ser deixado para se resolver depois?" Os dois responderam:-" Não doutor, tem que ser agora." Bom, diante da situação, então, disse que só havia um caminho: fazer um sorteio. Aceitaram. Então, promovi o sorteio e, no dia seguinte, com o falecimento, Maria realizou o velório de sua mãe na sua residência.Onaldo Queiroga.
Escritor e Juiz de Direito.
Publicada no Jornal Correio da Paraíba.
Coluna: Opinião
Edição de sábado.
30/07/2011.
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