Chico - Cartas de Paz e Consolação
E, por um segundo, quase caí na armadilha de achar que estava “velha demais”.
Pés de galinha.
Marcas ao redor da boca.
Linhas na testa.
A primeira reação foi dura:
“Eu não era assim antes.”
Mas, de repente, algo mudou.
Em vez de contar rugas…
comecei a lembrar histórias.
Tenho rugas porque tive amigos com quem ri alto, até perder o fôlego.
Porque vivi noites em que a conversa foi tão boa que o sono esqueceu de chegar.
Tenho rugas porque conheci o amor.
E ele apertou meus olhos de tanta alegria, tantas vezes, que o rosto guardou tudo como prova.
Tenho rugas porque tive filhos.
E me preocupei com eles desde o primeiro teste positivo.
Sorri a cada conquista.
Esperei noites inteiras que chegassem em casa.
Tenho rugas porque chorei.
Chorei por quem foi embora por um tempo.
Por quem foi embora pra sempre.
Por quem se afastou sem explicar o motivo.
Tenho rugas porque fiquei acordada além do cansaço.
Por projetos que talvez nem tenham dado certo.
Por febre de criança às 3 da manhã.
Por um livro tão bom que eu não conseguia largar.
Tenho rugas porque vi lugares lindos.
Cidades novas que me encheram de encantamento.
Lugares antigos que me arrancaram lágrimas de saudade.
Cada linha no meu rosto é um parágrafo da minha história.
Cada marca guarda uma emoção que já me atravessou.
Se eu apagasse tudo isso…apagaria a mim mesma.
Minhas rugas são meu álbum de fotografias sem filtro.
São batimentos de coração desenhados na pele.
São provas de que eu vivi — de verdade, não em modo rascunho.
Então, hoje, em vez de perguntar:
“Como faço pra tirar essas marcas?”
Eu pergunto:
“Que memória nova eu quero que a próxima ruga carregue?”
Se essa mensagem chegou até você, faça um favor a si mesma:
Da próxima vez que se olhar no espelho, não procure o que o tempo levou.
Procure tudo o que a vida te deu.
Cada ruga é um “eu estive lá”.
Um “eu senti”.
Um “eu amei”.
E isso é muito mais bonito do que qualquer pele lisa e vazia de história.
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