Emerson Barros de Aguiar - A leveza da vida.

Um conto - uma crônica
Era uma linda manhã do verão europeu.
Eu caminhava tranquilo, observava as flores coloridas e árvores. Estava despreocupado de tudo. Mente vazia, coração pleno. Um leve sorriso no meu rosto.
Uma brisa leve me acariciava.
Meu tênis tocava suavemente o chão. Em vez de dar socos na terra, os meus pés pareciam afagá-la a cada passo. Eu podia sentir o planeta respirar abaixo no asfalto e do concreto.
Olhava o céu e apreciava os rasgos de horizonte que apareciam entre os prédios e as casas, sabendo que a sua linha continuava para muito além de qualquer limitação arquitetônica.
Sentia-me tranquilo e feliz.
Quando passei em frente a um "locutório", um centro telefônico, um garoto de uns 6 anos me disse, sorrindo:" olá!". Eu percebi que ele dizia aquilo como se fosse para alguém de sua própria idade. Não sentia barreiras entre mim e ele. Eu lhe respondi também com um sorriso: "olá!".
De fato me dei conta de que quando nos permitimos, podemos nos tornar puros como uma criança. É um sentimento maravilhoso!
A pergunta que me fiz imediatamente foi: "Por que nos privamos tanto tempo disso?"
Na escola não aprendemos nada sobre felicidade.Crescemos totalmente incompetentes para a felicidade e passamos a experimentar um pouco de tudo, em toda parte, buscando alguma alegria e satisfação. "A felicidade não se ensina!". É mesmo? Certamente quem é infeliz não pode dar o que não tem.
Certamente a vida nos oferece inúmeras razões para vivermos, a maior parte do tempo, muitos felizes. Estou convencido de que 98%, ou mais, das situações de infelicidade são geradas diretamente por nós mesmos. Os outros 2% , indiretamente.
Sem fé na vida e sem a convicção de que tudo concorre para algo melhor, ainda que não sejamos capazes de ver, de fato a felicidade não é possível. Sem fé tudo é muito mais complicado. A vida não anda, e tudo falha.
A vida é uma sucessão contínua de bênçãos e de oportunidades! O sentido das "adversidades" não é gerar infelicidade, mas sim convidar à reflexão e à paciência. Tampouco o modo como os outros nos tratam é uma causa real de infelicidade. Os outros são como são. Cabe-nos, portanto, respeitá-los e amá-los como eles são, sem tentar modificá-los.
Não há porque agredir ninguém. Expor com tranquilidade as próprias idéias e ser capaz de ouvir, torna a vida mais agradável e amena. Olhar com otimismo todas as circunstâncias da vida, ajuda a ter uma atitude receptiva a tudo o que é bom. O melhor investimento para sermos felizes, com juros e correção, é servir os outros e ser útil à paz do mundo. Esta, inclusive, é uma oportunidade que devemos agradecer sempre que a encontramos.
Há pessoas tão infelizes que pensam que a felicidade é uma enfermidade! Muitos sintomas de felicidade estão dicionarizados como patologias.
Imagine alguém caminhando descalço pela rua, sobre a grama, ou indo a uma reunião descalço. "É doido!"
Imagine alguém deixando um emprego cretino, cheio de colegas robotizados e chefes sádicos, para receber menos dinheiro e muito mais satisfação?" É um irresponsável!"
Imagine alguém fugindo de um hospital, para viver com dignidade os momentos que ainda possui, com alegria e prazer, na companhia daqueles a quem ama? "Detenham-no!"
Imagine uma escola rasgando o véu da hipocrisia e não atribuindo nenhuma nota a alunos e dizendo que se eles não quiserem assistir aulas, tudo bem. "Onde é isso? Vamos fechar! Cadê a fiscalização?"
Imagine dizermos para todos aqueles a quem amamos que os amamos e, para todos aqueles que não conhecemos, que desejamos que sejam felizes de verdade? "O que pretende com isso?"
Não há cruz nenhuma a levar, quando descobrimos que ajudar os outros é um privilégio que nos foi dado!
Não há castigo algum, quando enxergamos os desafios como oportunidades.
Não há decepção nenhuma, quando percebemos que a visita da verdade é uma libertação de antigas e inúteis ilusões.
Não há sofrimento, quando percebemos que dor acaba sempre por nos melhorar.
Não há solidão, quando a vida nos convida para o trabalho abundante e útil em toda parte, todos os dias. E, também, se aproveitamos o silêncio para refletir e melhorar.
Não há incompreensão, quando percebemos que aquilo que nos cabe não é o esforço para nos fazer entender, mas sim o simples gesto de compreender os outros.
Não há fracasso, quando a diretiva maior do universo é colhida e compreendida por nós: recomeçar sempre!
Não há ofensa, quando temos um estoque abundante de perdão.
Não há obstáculos, se estamos sempre dispostos a trabalhar e a nunca desistir.
Não há conflitos insuperáveis, se estamos dispostos a tolerar e a compreender.
Não há menosprezo nem abandono, se estamos dispostos a amar desinteressadamente a todos, acima de qualquer egoísmo.
Não há peso, porque a vida é leve!...
Emerson Barros de Aguiar.
Jornalista e filósofo.
Publicada no Jornal O Norte.
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