segunda-feira, 5 de julho de 2010

Onaldo Queiroga - Calçadas da vida



Um conto - uma crônica
São muitas as suas funções. Inúmeras são as vidas que passam por seus mosaicos. Infinitas as histórias escritas e vividas sobre o seu piso, como também as amizades construídas e destuídas decorrentes das conversas que reinam nesse palco a céu aberto.

Neste mundo existem tiposs de calçadas de incontestável diversidade. Em algumas, predominam o sentimento do medo, da tristeza, do abandono, em outras encontramos a presença da alegria, da felicidade, da força do amor e da fé.

Calçadas.

As da cracolândia mostram um mundo de corpos doentes, cambaleantes, escravizados pelo vício a uma pedra mortal. Ali habitam seres monitorados pelo poder do tráfico, desprezados pelos governadores e pela própria sociedade, constituindo uma verdadeira legião de zumbis.

Já nas calçadas da noite dormem os abandonados. Sem colchões, lençõis e travesseiros, ao relento, passam a noite esperando o calor do sol para espantar o frio e a insegurança da madrugada. Nas grandes metrópoles grupos e grupos de sem teto, sem família, sem amigos, sem trabalho, se aglomeram deitados sobre a pedra fria das calçadas, numa imagem que choca e mostra a miséria que ainda reside no seio da nossa sociedade e firmemente tripudia o evoluído homem do Século XXI.

É, mas existem também as calçadas do consumo. Aquela paulistana, lá da avenida 25 de Março, onde pirataria e sonegação fiscal desafiam as autoridades e ao mesmo tempo deixam os consumidores em êxtase.

Existem também aquelas da fama, onde Pelé, Romário, Zico, Roberto Dinamite, Ronaldinho e tantos outros atletas deixaram eternizadas as formas dos seus mágicos pés. Já para as bandas de Los Angeles existe também uma outra calçada da fama, onde as grandes estrelas são imortalizadas.

Nas calçadas palacianas respiramos o ar do poder dos homens, que em muitos casos se pretende ser maior do que o divino. Por ali os humildes enxergam o luxo e o requinte das salas, salões e gabinetes, bem como o glamour das recepções regadas a champanhe e caviar.


Nas calçadas dos templos religiosos sentimos de perto a força da fé, que nos induz a pensar grande, como Chico Xavier, apesar de tantas coisas ruins que transitam nas calçadas da vida:
" Que eu não perca a vontade de ajudar as pessoas, mesmo sabendo que muitas delas são incapazes de reconhecer e retribuir esta ajuda . Que eu não perca o equilíbrio, mesmo sabendo que inúmeras forças querem que eu caia. Que eu não perca a vontade de ser grande, mesmo sabendo que o mundo é pequeno e acima de tudo que eu jamais esqueça que Deus me ama infinitamente. Que um pequeno grão de alegria e esperança dentro de cada um é capaz de mudar e transformar qualquer coisa, pois a vida é construída nos sonhos e concretizada no amor."

Onaldo Queiroga.
Escritor e Juiz de Direito.
Publicada no Jornal Correio da Paraíba.
Coluna: Opinião
Edição de sábado.

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