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Um conto - uma crônica
Sob a escuridão da madrugada os bóias-frias deixam suas casas, numa das mãos o facão, na outra, a inseparável marmita com a denominada bóia-fria. São mulheres e homens das mais distintas idades que em caminhões e ônibus saem para o trabalho. No horizonte o céu estrelado, algumas vezes com lua, outras nebuloso. Pelo caminho o verde infinito da esperança de vencer mais um dia da labuta cruel dos canaviais.
O sol aponta no infinito. Descem dos veículos e divididos em turmas seguem em direção ao eito do canavial para o corte da cana. No comando, os melhores no manejo do facão, que vão abrindo caminhos para os demais. O tempo é outro, ganham por produtividade e sob a rapidez do facão deitam a cana transformando o eito num imenso tapete verde.
De calças, camisas de mangas compridas e um surrado chapéu de palha na cabeça seguem cortando a cana e sentem o calor molhar de suor a testa e banhar o inteiro. As mulheres, por cima das calças, mantendo o toque feminino, vestem uma saia que eleva ainda mais a temperatura, porém, cortam cana tanto quanto os homens.
Ao meio dia param e se alimentam da fria bóia. Alguns procuram uma sombra para um cochilo, outros afiam os facões enquanto conversam. Recomeçam o serviço. Às quinze horas mais um intervalo para a ingestão de um isotônico para evitar a desidratação, mas logo voltam ao corte, e, sob o ápice do calor, olham para o horizonte na esperança do verde da cana se transformar no vermelho crepuscular, para que o sol anuncie sua partida, pois só assim ouvirão a buzina dos ônibus e dos caminhões avisando o fim de mais um penoso dia de trabalho.
No cair da noite deixam o eito e seguem pelos corredores do imenso canavial, olham para trás e a escuridão vai cobrindo de sombras o nefasto verde de mais um dia, quebrada, porém, lentamente pela mesma lua que na madrugada iluminou o caminho do amanhecer.
Em poema intitulado "Bóias-frias", Lucelena Maia descreveu esse ser heróico: "Mãos calejadas repousam na enxada. Suor de bóia-fria é desolação. Olhos humildes, perdidos na estrada, amanhecidos nas ruas da plantação. Alimentam-se de solidão, dificuldade; e da marmita que viu o dia nascer; banham seus corpos no sol da tarde. Laboram searas, sem esmorecer. Adubam, plantam, colhem poeira. Comandam a vida ensacando grão. Da boléia do caminhão, recebem areia, que lhes cobre a já cansada visão. Onde houver terra e trabalho, haverá música instrumental de peão. A esse trabalhador humilde e dedicado, so o solo poderá garantir-lhe o pão".
Bóias-frias são guerreiros de um arcáico mundo rural. Constituem retrato da escravidão que conduz no olhar um cansado tempo de vidas e almas vilipendiadas. Mas também são seres admiráveis, desafiam as eras, renascendo a cada colheita. como se fossem sacrificados soldados de batalhas de uma guerra sem fim.
Assim é a vida-morte do bóia-fria.
Onaldo Queiroga.
Escritor e Juiz de Direito.Publicada no Jornal Correio da Paraíba.
Coluna: Opinião
Edição de sábado.
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