Onélia Queiroga - Mudanças

um conto - uma crônica
Há um bom tempo, estava a meditar. Passava em revista suas ações, seus dias, seu pensar. Perguntava-se a que lado servira: ao bem ou ao do mal? Por outra vertente, imaginava se usara ou não de forma útil do tempo até então vivido; se pusera em prática as suas idéias e maneira de pensar tão divulgados nas suas preleções.
O dia começava a esmaecer. Ele não tinha, contudo, intenção alguma de fugir daquelas indagações. Era lógico que procurava encontrar respostas para as suas preocupações. Somente assim poderia compreender, nítidamente, como mudar as atitudes que o dissociavam das virtudes que acreditava ter. A sua transformação começaria por ai.
À noitinha, passou a examinar, página por página, os seus escritos. Deles se orgulhou. O mesmo não podia dizer da falta de responsabilidade e lisura dos seus últimos comportamentos. Chegara ao topo da carreira e da fama, mas, para conquistá-las, fora por demais desleal, e, por que não dizer, audaz dissimulador dos bons intentos nas promessas feitas aos que concorriam, sem o saber, com ele, aos píncaros da carreira.
Vangloriara-se dos seus feitos. Jactara-se de suas façanhas como se fosse um verdadeiro herói. E acreditava, por todo esse papel assumido, que era um grande homem, um ser superior.
Quantas vezes, em momentos solenes, despira a natural personalidade, engalanando-a com a capa da arrogância e da empáfia, armadura que achava ideal, para levar os que compunham a imensa platéia a crer que era ele o personagem mais brilhante e culto dentre todos.
Envergonhava-se, agora, ao relembrar essas facetas vulgares e teatrais. Sabia-as negativas, próprias de sua mediocridade. Tremia-se todo, ao reconhecer-se de alma entranhada de orgulho vão, falso e vazio; ao descobrir ter mente servil, submissa aos poderosos, razão, em parte, de seus êxitos.
Restava-lhe, ainda, tempo para mudar? Tinha esperança nesse pensar: era um bom início. Primeiro, deveria desatar-se das amarras da vulgaridade. Admirar o talento dos outros; esforçar-se, doravante, para atingir o verdadeiro mérito que pode ser encontrado no parecer do poeta Horácio, quando pôs ênfase na "transquilidade e na independência como maior bem estar do homem", quando enalteceu "o prazer de um viver simples".Onélia Queiroga.
Escritora e Professora de Ciências Jurídicas
da Faculdade de Direito da UFPB.
Publicada no Jornal Correio da Paraíba.
Coluna Aos Domingos.
Caderno Cultura/Lazer.
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