Um conto - uma crônica
Os vultos passam por mim e me dão adeus. De passos lentos, vão caminhando à frente até sumirem na distância que não mais os alcanço. Penso, então, para onde foram? Voltarão algum dia para, pelo menos, despedirem-se de vez de todos?
Ao ficar sozinha, sem eles, sinto um vazio profundo e um peso no coração, como se algo o estivesse pressionando. Em momentos mais pesarosos, vem uma dor angustiante que me leva a andar em azáfama, como se desta forma me libertasse da saudade dos viajantes esfíngicos. Nada se compara a essa perda irreversível dos entes queridos.
O espaço deixado pelos que partiram nunca é preenchido totalmente pelos que chegam com o primeiro grito. Se há parecença de individualidade, de fisionomia, de temperamento, de trejeitos diversos, mas, nada é integralmente idêntico. Sempre há distinção à mostra. E é isto que faz de cada pessoa um ser único, diferente dos que se lhe assemelham, por não o repetirem por inteiro.
Essa identidade de cada um é que permite a construção da história de muitos, pois ninguém ocupa o lugar do outro. E é desta verdade que nasce a herança imaterial e o exemplo deixado por tantos homens sábios e dignos que marcaram época e que, por isso mesmo, tornaram-se bússolas orientadoras para os que virão em tempos depois dos seus.
Os vultos que sumiram na distância foram morar num lugar em que, por enquanto, não recebem os que ainda estão do lado de cá. No entanto, apesar de, agora, habitarem outras paragens, foram transformados em personagens de grande vulto, reconhecidos por seus feitos, por sua dedicação às coisas nobres, pelo amor e desvelo com a família: por contribuírem, enfim, para a evolução do homem e do mundo
Os vultos também podem ser concebidos como volatins, a visitarem moradas diferentes, distantes umas das outras, com o objetivo de sempre levarem a mensagem de aperfeiçoamento ao irmão que, em muitos casos, está apenas adormecido, aguardando essa comunicação precisa para acreditar na palavra Dele, para segui-LO no momento traçado pelas linhas da vida.Onélia Queiroga.
Escritora e Professora de Ciências Jurídicas
da Faculdade de Direito da UFPB.
Publicada no Jornal Correio da Paraiba.
Coluna Aos Domingos.
Caderno Cultura/Lazer.
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