Um conto - uma crônica
O bom rapaz passara mais de cinco anos com o seu carrinho. Foi o amigo de viagem, de estradas conhecidas ou não de uma vida nova. Era um carro forte e nunca causara-lhe transtorno durante esse tempo de serventia.
Com ele conhecera cidades do seu Estado, e de outros circunvizinhos. Ajudara-o a vencer distâncias, a chegar na hora precisa de horários predeterminados. Era o seu carrinho metálico, de imponente cor que emprestava ao dono ares de magnata, sem o ser de verdade. O carrinho, porém, sentia-se feliz em dar esse status ao seu proprietário.
Proprietário é força de expressão, porque o carrinho era livre, de hora para descansar e lustrar-se . Como companheiro de viagem, gostava de andar polido. Aliás, polido o era em outra vertente: a da educação, já que costumava estacionar em lugar certo, a fim de não causar embaraço ao amigo.
O carrinho era o condutor do amigo, sendo o amigo o seu condutor constante ao volante, cantando músicas alegres e românticas. O carrinho e o dono nunca pensaram, contudo, no dia da separação. Quanto tempo de amizade! Por esta razão, o dono, por muitos meses, relutara em amadurecer a idéia de substituí-lo por um carro zero.
Essa expressão "carro zero" soava-lhe com tom de repúdio à mudança de veículo. Estranho parecia-lhe ter chamado o seu amigo de "veículo", pois o seu nome sempre fora - o carrinho preto, fiel de todas as horas. Mas, numa tarde de fogo, resolvera ir olhar o carro novo, com o Polo no coração.
Conscientizara-se de que a troca era necessária, embora isto o amargurasse. Para minorar a sua dor de entregar o carrinho a um anônimo, pediu à noiva que o comprasse. Nada feito, pois a transação com um carro novo ela já fechara. Tudo consumado.
Os pais acompanharam-no e registraram com fotos os últimos instantes daquela amizade verdadeira. Por fim, o bom rapaz entregou-o à concessionária. Num transe de saudade, pediu ao responsável pelo negócio que o vendesse, se possível, a uma pessoa conhecida, conquanto que não o perdesse de vista e com o seu carrinho cruzasse nas estradas da vida.Onélia Queiroga.
Escritora e Professora de Ciências Jurídicas
da Faculdade de Direito da UFPB.
Publicada no Jornal Correio da Paraíba.
Coluna Aos Domingos.
Caderno Cultura/Lazer.
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