domingo, 5 de agosto de 2012

Carlos Pereira - Sete Vidas - II - O Grupo Isabel Maria



um conto - uma crônica

Ao mudar de casa, os meus pais me levaram para mais perto do Centro, para a Diogo Velho, pertinho da João Machado. Foi o tempo do Exame de Admissão ao Liceu Paraibano, e aí, com 10 anos, começou a minha segunda vida. Tendo perdido o primeiro Exame, ao ver Dona Daura Rangel me sapecar um 4,5 em Matemática (precisava de cinco!), passei o ano de 1950 estudando  no Grupo Escolar Isabel Maria das Neves, bem mais próximo de casa do que o Santo Antônio, onde fizera todo o curso primário.

Fatos que ocorreram há mais de 60 anos não podem ser recordados por inteiro mas algumas passagens do que vivi naquela casa, jamais vou esquecer, a começar pela circunstância de ter sido exatamente aqui, nos jardins do Grupo, que me apresentei vestido de paletó (até hoje não sei se foi emprestado ou alugado) pela vez primeira.

Escolhido para representar o quinto ano na solenidade que homenageava o "dia da árvore", num sol quente de quase verão de   setembro de 1949, fiz discurso e enfiei, terra adentro, uma muda de   cedro que cresceu muito mais do que eu e que, ainda hoje, está viva nos jardins do grupo, a distribuir galhos, folhas e sombras. Meio seca, ainda assim, a árvore sessentona ajuda a aumentar o verde da João Machado, já tão cheia de verde pelas seculares mangueiras que a fazem uma das mais belas e vistosas avenidas da cidade.

Subi e desci muitas vezes as escadarias do Grupo, correndo e pulando de dois em dois degraus com a energia própria das crianças saudáveis. Aqui estudei protuguês, matemática, história, geografia - completando os estudos do curso primário cujas quatro primeiras séries frequentei no Grupo Santo Antônio, com a minha primeira professora, a inesquecível Dona Durvalina Falcão.

Eram mestras Dona Lourdes Almeida e Dona Otília Viana, sempre apoiadas pela competente (e exigente) Diretora Daluz Bonavides, educadora de escola a quem tanto ficou devendo a educação do nosso Estado. E o ensino daquele tempo não era o "faz-de-conta" de hoje - as professoras ensinavam e a gente estudava e aprendia e por isso mesmo, não carecia de pagar cursinho para conseguir aprovação nos temíveis Exame de Admissão ao Ginásio, verdadeiros vestibulares da época.

Ali, também, se ensinava trabalhos manuais. Para as meninas, corte e costura e para os meninos colagem de peças, pintura e pequenos trabalhos de marcenaria - tudo isso devidamente orientado por professores de acendrado espírito público que dignificavam a profissão, exercendo-a com entusiasmo, sem greves ou reclamações.

E como não lembrar a hora da merenda, quando a gostosa sopa de feijão com macarrão e carne era servida em pratos de ágata? E os doces similares a título de sobremesa, com direito ainda a um copo de ponche de mangaba ou maracujá?

São tantas as coisas que devia lembrar, mas fico por aqui nesta homenagem que presto ao Grupo Escolar Isabel Maria das Neves que é, sem dúvida, um dos estabelecimentos de ensino mais tradicionais da capital e continua a pontificar na avenida João Machado como referência na história da educação de nossa cidade.

Nos dias de hoje, centenas de crianças estão a viver o que eu vivi há mais de 60 anos e, quem sabe, daqui a 40,50 anos, haverão de contar aos seus filhos e netos as recordações que ficaram no vetusto Grupo que, para mim, se mantém como um imponente marco de tempos que já se foram.

Carlos Pereira
Jornalista, escritor, engenheiro e
professor universitário

Publicada no jornal A União.
Edição 20/11/2010.

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