Carlos Pereira - Sete Vidas - III - Liceu, Primeira Quinta
um conto - uma crônica
No começo de 1951, fiz novamente o temido Exame de Admissão ao Liceu e tive a felicidade de ser aprovado. O anúncio da aprovação foi um acontecimento daqueles que a gente jamais esquece: o Chefe de Disciplina Antônio Barros,, diante de um auditório lotado, chamou o meu nome entre tantos outros que conseguiram passar e mandou preparar os documentos para a matrícula no curso ginasial.
Aí, com o número 10 na caderneta da primeira série, quinta turma, começou a minha terceira vida - a de aluno do Liceu, da qual muito me orgulhava, a partir da farda do colégio. Aquilo parecia mais uma vestimenta militar, tal era o seu garbo. De caqui bege, a túnica que se vestia sobre a camisa branca, era emoldurada por botões, e somente a alfaiataria Grisi, do velho italiano da Maciel Pinheiro a fazia perfeita. À Camisaria Expressa que,à época, funcionava na rua Amaro Coutinho, cabia confeccionar a camisa de tricoline - comprado no Armazém Guarany, de "Seu" José Carlos, pai de Martinho Campos, que atendia pessoalmente os clientes na loja da praça Aristides Lobo.
Na primeira série do ginásio, quinta turma, depois do desgastante Exame de Admissão, os dias iniciais de aula foram de nunca esquecer. Estudar Latim com o velho Professor Juvenal Coelho, Francês com o mestre Celestin Marius Malzac, Matemática com Dona Daura Santiago Rangel, Geografia com Hermano de Oliveira Lima e História Geral com o Prof. Aníbal Victor de Lima e Moura, dentre outros, - era privilégio de poucos. Sem falar no Português, com a saudosa mestra Argentina Pereira Gomes e aulas de Ginástica com Velosão. Aliás, essas sessões de Ginástica eram precedidas de um completo exame médico-biométrico, do qual se encarregava o Dr. Giácomo Záccara que vim a conhecer depois bem mais perto quando ele liderou a imprensa esportiva da capital, ao fundar e presidir, por muitos anos, a ACEP _ Associação dos Cronistas Esportivos da Paraíba.
Mas, das disciplinas que cursei num tempo em que José Américo era o Governador do Estado e o Prof. Emanuel de Miranda Henrique dirigia o Liceu, havia uma inusitada - Trabalhos Manuais, ensinada pelo Prof. José Washington. É bom não esquecer que, daquele bem distribuido currículo escolar, também a gente aprendia Música, graças aos esforços do Professor Augusto Simões.
Pois bem, esses trabalhos manuais eram desenvolvidos numa sala especial em que havia pranchetas novinhas ( o Liceu era outro!) e o Prof. José Washington nos ensinava como lidar com arco e serra e produzir boas peças tirando-as da madeira, geralmente tábuas de compensado fino, que eram disponibilizadas pelo Colégio quando os pais não podiam comprar.
Assim como Dona Dulce Ramalho e Olívio Pinto - brilhantes professores de Desenho - nos ensinaram a buscar os pontos de fuga, os pontos de vista e a passar para o papel os potes e jarros que eram colocados sobre seus birôs, o Prof. José Washington de Carvalho se encarregou de nos transmitir a lição de que não somente do Português, Francês e Latim, podia viver aquele que - no futuro - não tivesse a sorte de entrar numa Faculdade, fazer um curso superior, receber o canudo de papel e botar o anel no dedo para ser Doutor.
Eis aí o que foi a minha terceira vida.
Carlos Pereira
Jornalista, escritor, engenheiro e
professor universitário
Publicada no jornal A União.
Edição 27/11/2010
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