sábado, 30 de julho de 2011

Rubens Nóbrega - Chico Espínola - Continuação


'Comunista'

O episódio mais ridículo daquele período foi a denúncia de um oficial do Exército, por sinal aluno de Francisco Espínola na Faculdade de Direito.

Esse oficial, um jovem tenente, chegou a realizar uma 'batida' noturna na casa do Professor à caça de um 'perigoso elemento' que seria ninguém menos que Francisco Espínola Júnior.

O 'subversivo' filho do desmbargador estaria na Paraíba gozando férias da Faculdade Patrice Lumumba, de Moscou, da qual seria aluno.

Francisco pai recebeu educado e calmamente o oficial e sua equipe de caçadores de comunista. Ao saber o motivo da 'visita', com esforço segurou o riso e pediu à esposa Nair para trazer o Júnior até a sala.

Em segundos, os militares se viram diante de um sonolento garoto de seis anos de idade, que só abriu a boca para bocejar e reclamar da mãe por lhe ter tirado da cama quando já pegava no sono.

Aí foi a vez da escolta do tenente segurar o riso. Ao oficial, rubro de vergonha de si mesmo, só restou pedir desculpas e se retirar apressadamente da casa do Professor, que depois dessa jamais voltou a ser incomodado pelo rgime.

Outra

Final dos anos 60, Chico Espínola descia a Rua Duque de Caxias, desde a Faculdade de Direito, com o seu filho José Mário. Procurava um ourives para consertar uma volta de ouro da esposa, Nair.

Quando passava pela calçada de O Novo Continente, em frente à loja Palmeira ("Vende tudo na valsa..."), de Severino Aragão, tropeçou em alguma coisa, quase caindo. Quando olhou para trás, viu que tinha tropeçado em uma mendiga muito famosa à época, que mantinha as pernas estendidas ao longo da calçada.

A mulher tinha paralisia nas duas pernas.Mas nem por isso deixava de ter filhos e os tinha de dois em dois anos. Cada um de um pai diferente.Apesar do defeito físico, não lhe faltava homens.

Pois bem, ao ver a mendiga, o Professor Espínola encheu-se de pena e deu-lhe um dinheiro. E voltou a procurar o ourives, para cima e para baixo da Duque de Caxias.

Tropeçou de novo na mendiga, e deu-lhe outro dinheiro. Continuou a procurar o ourives e, distraído que era, voltou a tropeçar na mendiga, e deu-lhe outro dinheiro.

Foi aí, então, que ele puxou o filho e lhe disse, falando baixinho para não ofender a mulher:"Zé Mário, vamos trocar de calçada?".
Rubens Nóbrega
Jornalista

Publicada no Jornal Correio da Paraíba.
Edição 01/11/2009.

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