O sentido das palavras Carlos Cabrita
Daquelas que não precisam de muitas palavras para nos fazer parar um instante e olhar para dentro.
Obrigado por continuarem desse lado, por seguirem as minhas palavras, por lhes darem um lugar nos vossos dias e, tantas vezes, no vosso coração.
Enquanto houver alguém desse lado a sentir o que escrevo, haverá sempre em mim uma razão bonita para continuar a escrever.
Hoje, esta história é para vós.
As Luzes Que Ficam
Quando o dia entardeceu, o velho voltou ao banco de madeira junto ao mar.
Fazia isso todos os dias.
Sentava-se sempre no mesmo lugar, deixava a bengala encostada ao banco e ficava a olhar o sol a descer lentamente sobre a água.
Durante muitos anos, aquele banco fora de dois.
Ali tinham falado dos filhos que gostariam de ter, contado moedas quando o dinheiro era pouco, inventado viagens que nunca fizeram e dividido silêncios quando já não havia palavras necessárias.
Ali tinham envelhecido sem perceber que estavam a envelhecer.
Agora, havia um lugar vazio ao lado dele.
Nessa tarde, uma menina apareceu com uma flor amarela na mão. Aproximou-se devagar e perguntou:
— Posso sentar-me?
— Podes. Há lugares vazios que gostam de companhia.
A menina sentou-se e ficou a balançar os pés, sem conseguir chegar ao chão.
Durante algum tempo, nenhum dos dois falou.
Depois ela apontou para o horizonte.
— Porque é que o sol fica mais bonito quando está quase a desaparecer?
O velho sorriu.
— Talvez porque, quando sabe que tem pouco tempo, oferece ao mundo toda a luz que lhe resta.
A menina olhou para ele.
— As pessoas também sabem quando têm pouco tempo?
A pergunta entrou-lhe devagar no peito.
O velho apertou as mãos sobre a bengala e ficou a olhar o mar.
— Nem sempre. E talvez seja por isso que desperdiçamos tantos abraços.
A menina pareceu pensar naquelas palavras. Depois perguntou:
— Quem se sentava aqui consigo?
Ele demorou a responder.
— A pessoa que me ensinou que uma vida inteira pode caber numa mão.
— E onde está ela?
O velho apontou para o céu.
A menina levantou os olhos.
— Virou estrela?
Ele sorriu com os olhos molhados.
— Não sei se virou estrela. Mas sei que há noites em que ainda ilumina tudo cá dentro.
A menina ficou muito quieta.
Depois colocou a flor amarela no lugar vazio do banco.
— Então esta é para ela.
O velho não conseguiu dizer nada.
Apenas pousou a mão sobre aquela pequena flor e deixou que uma lágrima lhe atravessasse o rosto.
O sol começava a tocar o mar.
A menina levantou-se para ir embora, mas antes perguntou:
— Amanhã volta?
O velho olhou para o horizonte e sorriu.
— Se a vida me trouxer até aqui.
Ela correu alguns passos, mas voltou atrás.
Abraçou-o.
Foi um abraço pequeno, desses que parecem não ter força suficiente para mudar coisa alguma.
Mas mudou.
Quando ficou novamente sozinho, o velho percebeu que passara demasiado tempo a regressar àquele banco para conversar com aquilo que perdera.
E naquela tarde, pela primeira vez, alguém lhe tinha lembrado aquilo que ainda tinha.
O vento mexeu suavemente na flor.
O velho levantou-se, pegou na bengala e olhou uma última vez para o lugar vazio.
— Até amanhã, meu amor.
Depois começou a caminhar para casa.
Atrás dele, o dia desaparecia.
À sua frente, acendiam-se as primeiras luzes da vila.
E talvez fosse esse o segredo que o entardecer tentara ensinar-lhe durante todos aqueles anos:
quando uma luz se apaga atrás de nós,
não devemos passar o resto da vida
de costas para as que começam a acender-se.
Porque enquanto houver um amanhã
a perguntar se voltamos,
a vida ainda está à nossa espera.
Carlos Cabrita_,escritor 











