Histórias do Bem
Aos 71 anos, ela chegou a um sítio desconhecido com duas malas e dois netos agarrados à sua roupa. “Se não puder ficar aqui, vamos dormir na rodoviária.” Ela achou que aquele era o fundo do poço, mas estava errada: dias depois, um bilhete no portão revelou que alguém sabia onde as crianças estavam.
— Se a senhora não aceitar ficar aqui hoje, eu vou dormir com meus netos debaixo da marquise da rodoviária.
Dona Alzira disse isso sem chorar. Aos setenta e um anos, segurava uma mala em cada mão, enquanto Lívia, de sete, e Caio, de cinco, se escondiam atrás de sua saia. Diante deles havia um portão gasto, a placa Sítio Boa Esperança e, além da cerca, as montanhas verdes da Chapada Diamantina, na Bahia.
Nair, que abrira o portão, ainda tinha farinha no avental. Olhou para as crianças e para os sapatos cobertos de poeira.
— Entre. A senhora me conta depois.
Na cozinha, Caio esperou o sinal da avó antes de tocar no bolo de milho. Quando ela assentiu, ele comeu depressa. Benedito entrou pelos fundos, chapéu de palha na mão, botas sujas de barro
.
Alzira contou tudo em pedaços. Dois anos antes, perdera o marido, Anselmo, depois de quarenta e seis anos de casamento. Dez meses atrás, seu único filho, Rafael, morrera quando a caminhonete derrapou numa estrada molhada perto de Seabra. A nora, Patrícia, ficou dois meses com as crianças e desapareceu, deixando apenas uma mensagem dizendo que não conseguia continuar.
Alzira levou os netos para o pequeno imóvel alugado onde morava e tentou sobreviver costurando, fazendo cocada, cuidando de uma idosa e vendendo pão na feira. O aluguel atrasou. O proprietário conseguiu ordem de despejo, e ela saiu antes que o oficial de justiça voltasse.
— Não vim pedir esmola — disse. — Sei cozinhar, plantar, limpar, fazer queijo, cuidar de galinha. Se eu trabalhar em troca de um canto para os meninos, já é mais do que tenho.
Nair e Benedito se olharam. Muitos anos antes, tinham perdido a única filha, ainda pequena, por uma infecção respiratória. Nunca tiveram outro filho.
— O quarto dos fundos está vazio — disse Benedito. — E a horta está quase perdida. Se a senhora aceita trabalho, trabalho tem.
Naquela noite, Lívia perguntou três vezes se precisariam ir embora pela manhã. Alzira respondeu que não, embora ela mesma não tivesse certeza.
Nos dias seguintes, levantava antes do sol. Passava café forte, fazia cuscuz de milho, varria o terreiro, cuidava do galinheiro e entrou na horta abandonada como quem entra numa casa antiga. Salvou couve, coentro, quiabo, tomate e mandioca sufocada pelo mato.
— Minha mãe mexia na terra desse jeito — comentou Benedito.
— Terra e gente são parecidas. Se ninguém presta atenção, as duas adoecem.
As crianças demoraram a confiar. Caio seguia Lívia por toda parte. Ela carregava uma boneca de pano feita pela avó. Um dia, Caio viu Benedito consertando a porteira e perguntou se podia segurar o martelo. Errou o prego quatro vezes, acertou na quinta e gritou de alegria. Lívia se aproximou de Nair enquanto ela remendava uma blusa. Naquela noite desenhou o sítio, a mangueira e quatro adultos e crianças de mãos dadas.
Durante quase dois meses, a casa mudou de ritmo. Às sextas, Alzira assava pão de queijo e broa. Aos poucos, os netos começaram a rir sem olhar primeiro para a porta.
Até que, numa noite de junho, Alzira ouviu a prima de Nair no alpendre.
— Você enlouqueceu? Uma desconhecida dentro de casa, co
m duas crianças? E se ela estiver se aproveitando de vocês porque sabe que não tiveram filhos?
— Tem gente que chega e a gente reconhece — respondeu Nair.
— Ou pensa que reconhece. Depois aparece advogado, história de posse, dinheiro sumindo. Você vai entregar sua casa para uma velha que bateu no portão?
Alzira parou de amassar a massa.
Então ouviu a frase que a fez decidir que partiria antes do amanhecer:
— Se esses três ficarem aqui, vocês ainda vão se arrepender...