Chico - Cartas de Paz e Consolação
Era o aniversário de 80 anos dela. Minha mãe sempre foi mulher de elegância natural, mas o Parkinson tinha começado a roubar o controle das mãos dela. Eu, executivo obcecado com imagem, estava nervoso. "Por favor, mãe, tenta não fazer bagunça", pensei enquanto entrávamos.
Todos os clientes eram gente "fina", vestidos de gala, falando baixo, com aquele ar de quem janta ali toda semana.
Pedimos o jantar. Quando chegou a sopa, começou o pesadelo.
As mãos da minha mãe tremiam sem controle. A colher batia no prato: tec, tec, tec. O som ecoava no salão inteiro. As pessoas começaram a olhar. Quando ela tentou levar a colher à boca, derramou o líquido laranja no vestido de seda novo. Depois, derrubou um pedaço de pão no chão. Em seguida, virou o copo d'água.
O restaurante ficou em silêncio.
Senti os olhares de desaprovação das mesas ao redor.
Olhares que diziam: "Que absurdo", "Devia ter deixado ela em casa", "Tá estragando o ambiente".
Eu sentia um calor insuportável no rosto. Vergonha. Pura e dura vergonha.
Minha mãe me olhou com os olhos cheios de lágrima, humilhada, tentando se limpar desajeitada com o guardanapo, piorando a mancha.
"Desculpa, filho… desculpa", sussurrou.
Naquele momento, tive duas opções:
Me irritar, pedir a conta rápido e tirar ela dali pra "salvar minha imagem".
Ou lembrar quem era a mulher que estava na minha frente.
Respirei fundo. Levantei da mesa. Não pra ir embora.
Caminhei até ela, ofereci meu braço e disse em voz alta, pra todo mundo ouvir:
"Vem, mãe. Vamos te arrumar. Você continua sendo a rainha da noite."
Levei ela pro banheiro. Ali, na privacidade do espelho, aconteceu a mágica.
Molhei toalhas de papel. Com paciência infinita, limpei a sopa do vestido dela. Limpei as migalhas do colo. Penteei o cabelo branco que tinha despenteado. Limpei os óculos.
Enquanto fazia isso, tive um flashback.
Me vi bebê, jogando papinha no chão, vomitando na roupa dela, sujando fralda.
Alguma vez ela teve vergonha de mim? Nunca. Ela me limpava com beijo. Ela me trocava com amor. Ela celebrava minha existência, mesmo quando eu era um desastre.
Agora, a vida tinha dado volta completa. Era minha vez.
Quando terminamos, ela se olhou no espelho e sorriu.
"Obrigada, meu amor."
"Você tá linda, mãe."
Saímos do banheiro. Eu le vava ela pelo braço, caminhando devagar, mas de cabeça erguida.
O restaurante continuava em silêncio, mas dessa vez a energia era diferente. Não havia mais nojo. Havia respeito.
Paguei a conta e fomos em direção à saída.
Bem antes de cruzar a porta, um senhor idoso, que jantava sozinho, me parou. Bateu a bengala no chão pra chamar atenção e disse em voz alta:
"Moço, o senhor tá esquecendo algo."
Me revisei. Bolso, carteira, chave do carro.
"Não, senhor. Tenho tudo aqui."
O velho sorriu, balançou a cabeça e disse uma frase que silenciou o restaurante inteiro:
"Sim, esqueceu. O senhor deixou uma lição pra cada filho neste lugar. E uma esperança pra cada mãe."
O restaurante explodiu em aplausos.
Não aplaudiam minha roupa cara, nem meu cargo, nem o cartão black. Aplaudiam o amor.
Minha mãe apertou meu braço e chorou de felicidade.
Naquela noite, entendi que a verdadeira classe não tá em não sujar a roupa. Tá em não sujar o coração abandonando quem te deu a vida.
Minha mãe faleceu dois anos depois daquela noite. Parkinson avançou rápido. No último mês, ela não conseguia mais falar direito. Mas toda vez que eu entrava no quarto dela, ela sorria. E eu sabia que ela lembrava. Lembrava daquela noite. Lembrava que eu fiquei.
No velório, apareceu um homem que eu nunca tinha visto. Idoso, de terno simples, bengala na mão.
"Você não me conhece", disse ele. "Mas eu tava naquele restaurante naquela noite. E desde aquele dia, eu liguei pro meu filho. A gente não se falava havia cinco anos. Hoje, ele cuida de mim. E eu só liguei porque vi você cuidando da sua mãe. Você me deu coragem de pedir ajuda."
Fiquei sem palavras.
Ele continuou:
"Ela não morreu sozinha, né?"
"Não. Eu segurei a mão dela até o último suspiro."
"Então ela morreu rica."
E ele foi embora.
Naquele momento entendi:
não importa quantos milhões você tem na conta. Não importa quantos prêmios você ganhou. Não importa quantas pessoas te seguem nas redes.
O que importa, no fim, é: quem segurou sua mão? E de quem você segurou?
Minha mãe não morreu sozinha. Morreu amada. Morreu acompanhada. Morreu sabendo que o filho dela não teve vergonha dela.
E isso, nenhum restaurante caro, nenhum cargo, nenhum aplauso do mundo pode comprar.
Hoje, quando vejo mãe idosa tremendo pra segurar a colher, não sinto nojo. Sinto gratidão. Porque sei que aquela mão trêmula já me segurou firme quando eu era bebê e não conseguia andar sozinho.
O amor é empréstimo que se devolve na velhice. Sua mãe te limpou quando você se sujava. Te carregou quando você não andava. Te alimentou quando você não sabia segurar colher.
Agora é sua vez.
Não esconda ela porque a mão dela treme. Segura essa mão pra ela não tremer sozinha. Não tenha vergonha da lentidão dela. Desacelera e anda no ritmo dela, como ela andou no seu quando você dava seus primeiros passos.
Nunca abandone sua mãe. Porque no dia em que ela não estiver mais aqui, você daria sua fortuna inteira pra poder limpar mais uma mancha de sopa no vestido dela. Só pra ter ela de volta, nem que seja por um minuto.
Você já teve vergonha de alguém que te criou?
Você acredita que cuidar dos pais na velhice não é obrigação, mas privilégio de quem ainda os tem?