Mostrando postagens com marcador ~~RUBÉNS NÓBREGA~~. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ~~RUBÉNS NÓBREGA~~. Mostrar todas as postagens

domingo, 14 de agosto de 2016

Rubens Nóbrega - Acumulada




um conto - uma crônica

Firmino, 28 anos, era um sujeito correto, trabalhador. Arrimo de família, além de tudo. Matava-se na lida para sustentar mãe viúva e dois menores, ainda adolescentes, que davam um trabalho que só vendo.

Quando ainda não tinha emprego formal, trabalhava de flanelinha na feira da Torre, vida que tentou trocar pela caserna, quando atingiu os 18 anos. Ser soldado do Grupamento de Engenharia ou do 15 Regimento de Infantaria do Exército era tudo o que queria.

O sonho terminou no exame médico. Firmino puxava de uma perna, mais curta que a outra. No 15, onde se apresentou, a vista ligeira do oficial médico mandou o jovem de volta para as calçadas e ruas do Mercado da Torre, onde eu o conheci.

Tomar conta de carro era, até então, o único meio de Firmino arranjar trocados e o sustento de casa. Interava com doações que recebia dos comerciantes da Torre - das barracas, alimentos meio estragados; dos mercadinhos, produtos vencidos ou quase.

Mas Firmino, pelo que me dizia, tinha uma confiança incrível no futuro. Acreditava mesmo em dias melhores. E fez por onde melhorar. Pediu, persistiu e terminou arrumando emprego de empacotador-carregador em um daqueles supermercados da Manoel Deodato.

Não foi muito além, contudo. Chegou a caixa do estabelecimento, embora a promoção lhe tenha reduzido um pouco o ganho. Trabalhando de caixa, ficou privado das gorjetas que ganhava por levar a feira dos clientes até o carro.

De qualquer sorte, a vida nunca lhe parecera tão boa. Tinha emprego de carteira assinada, salário líquido e certo e até namorada arranjara - Luiza, empregada da lotérica que funcionava pertinho do supermercado onde trabalhava.

Os dois se conheceram porque Firmino vez por outra fazia uma fezinha na Mega-Sena e quase sempre procurava ser atendido no guichê de Luiza, onde jogava praticamente os mesmos números, invariavelmente no meio da semana.
Jogava cinco dezenas fixas, que correspondiam ao dia e mês de seu nascimento (07/10), ao ano corrente (2o/09) e à sua idade (28). A dezena variável ele tirava da compra de menor valor que passasse no seu caixa na véspera do sorteio (das quartas-feiras).

Depois que começou a namorar Luiza, Firmino dispensou-se de ir à lotérica fazer o seu joguinho. Nas terças à noite, entregava o dinheiro e as dezenas à namorada e ela, dia seguinte, processava a aposta no trabalho.

A sério

Entre uma Mega e outra, o romance evoluiu bem. Noivaram e marcaram casamento.

Sogra Desconfiada

Dona Guia, mãe de Firmino, quase teve um troço quando soube."Ave Maria! Nem sei o que será de mim e dos meus mais novos se Firmino sair de casa pra casar", passou a dizer às vizinhas e amigas após o filho comunicar que noivara.

E, por mais que o rapaz dissesse que mesmo casando continuaria a morar com a mãe e os irmãos, até por que ele e Luiza ainda não tinham grana para montar casa própria, Dona Guia não acreditava.

Na verdade, ela não gostava da nora. Não sabia exatamente porque, mas não gostava. Achava a moça meio fingida, meio sonsa. "É do tipo que só quer pegar o besta pra depois botar as unhas de fora", comentava com o povo de fora.

Indiferente aos queixumes e fofocas de Dona Guia, Firmino seguia apaixonadíssimo por Luiza, cada vez mais convicto e confiante na sua escolha. Quanto à moradia, dividir casa com a mãe e os irmãos seria bem provisório,tanto no tempo como nas instalações.

O plano do casal era adquirir uma casinha o mais depressa possível. Para tanto, desde quando botaram aliança economizavam centavo por centavo para começar uma vida a dois com certa poupança, conforto e boas perspectivas de melhora.

Além do mais, Luiza iniciara um curso de computação e tinha promessa de emprego melhor, em um jornal da cidade. Para tanto, paralelamente ao curso estava aprendendo diagramação de meios impressos com um primo dela que mora nos Bancários.

A Noiva Sumiu

O tal primo pode ter sido um dos ultimos parentes a manter contato com Luiza antes de ela desaparecer misteriosamente há mais de um mês. Já Firmino, coitado, pelo que me disse um colega dele de supermercado, enlouqueceu com o sumiço da noiva.

A última vez em que os dois se encontraram foi justamente uma terça à noite, quando ele a deixou em casa. Acertaram de se encontrar ao meio dia da quinta, para almoçar, porque na quarta trabalhariam o dia todo e à noite ela teria aula com o primo.

Meio dia da quinta, conforme o combinado, Firmino foi buscar a noiva na Lotérica. "Apareceu aqui hoje não", disse-lhe uma colega de trabalho de Luiza. "O patrão até mandou ligar pra casa dela, mas nem em casa ela apareceu ontem à noite", acrescentou.

Ao ouvir a informação, um bilhão de coisas ruins passou pela cabeça de Firmino. Ele escolheu, talvez, a pior das alternativas para acreditar. Botou na cabeça o seguinte :voltando do curso para casa, Luiza fora assaltada, estuprada e morta.

Com pensamento ruim na cabeça, Firmino saiu dali correndo e só parou na casa de Luiza, onde encontrou os pais dela tão aflitos quanto. E nessa aflição, nessa agonia, nessa correria, evidente que não prestou atenção na faixa colocada no frontispício da lotérica.
"Saiu daqui o ganhador da Quina - R$ 353.448,73", anunciava a faixa. Na parte de baixo, no cantinho direito, letras menores informavam as dezenas sorteadas na noite da quarta-feira: 07-09-10-20-28-59.

Rubens Nóbrega
Jornalista

Publicada no Jornal Correio da Paraíba.
Edição 11/10/2009.

domingo, 31 de julho de 2011

Rubens Nóbrega - Cine Excelsior



Cine Excelsior


Um texto de Valdês Soares, que ele me deu domingo passado, levou-me de volta a Bananeiras e me obrigou a carregar uma mala que não cabia de tanta saudade.

Ainda bem que consegui chegar a tempo de pegar a sopa de Manoel Soares na Rodoviária Velha. E a viagem foi tão boa e tão rápida que, quando pisquei, já estava descendo na frente do Bar do Seixo.

Belíssima surpresa me aguardava. Esperando-me na praça, a turma quase toda- Meninin, Nenen de Zé do Padre, João Batista, Niltin e César Bandeira, Toinho e Ronaldo Cirne, Mamaco e Jerônimo Bento, Marquinho de Timbu e Fernando Maia.

- Vem logo, Rubinho, vamos logo comprar o ingresso que o filme começa já já - apressou-me Nenen, com autoridade de quem é filho do projetista que iria passar na tela do Cine Excelsior a reprise dos melhores momentos da minha adolescência.

Fui lá só para assistir a esse fita no adorado cinema de Zé do Padre, tema do escrito de Valdês. Na minha vontade, o Cine Excelsior jamais fechou. Ainda hoje mantém em cartaz algumas das mais escolhidas recordações do meu tempo mais feliz.

Assim que entrei, corri para pegar a minha cadeira predileta, a do meio da quinta fila mais próxima da tela. Nem me dei conta que já tinha altura suficiente, embora pouca, para dar baixa da galera do gargarejo.

De qualquer forma, sentei-me por lá mesmo e institivamente procurei nos bolsos o canhoto do ingresso. Fiz aquilo para me certificar da autenticidade do bilhete e ter a certeza de que não passaria pelo mesmo vexame de anos atrás.

Penetra involuntário

Teve um dia que entrei no cinema com ingresso falso, na verdade um pedaço de papel de embrulho da mesma cor do bilhete que por falta de dinheiro não pude comprar num daqueles domingos em que passava filme do Zorro.

Doido para assistir, fiquei peruando na porta do cinema pra ver se algum amigo mais abastado me patrocinava a entrada. Só apareceu Ivan, se não me engano, que reparava na minha ansiedade e achou de me 'socorrer'.

-Toma, toma meu ingresso.Não vou poder assistir porque pai mandou avisar que quer me ver bem cedo em casa hoje.É que amanhã a gente vai pra Guarabira resolver uns negócios...

Oxe!Não contei conversa.Muito menos olhe o ingresso que ele me deu.Corri, entreguei-o a Cido, o porteiro, e entrei no cinema correndo mais do que Silver. Quando me aboletei, o trailer estava no comecinho.

No flagra

Não deu um minuto, senti alguém me puxando pela manga da camisa.

Vaia do lado de fora

- Ei, seu engraçadinho, se levante daí e venha comigo - disse o porteiro, com tanta raiva na voz que me deixou sem reação ou argumento, além de não entender a razão de estar sendo retirado de dentro do cinema daquele jeito.

Pior foi ser recepcionado lá fora com uma vaia, comandada por Ivan, o horrível. A vaia aumentou uns 300 por cento a minha vergonha. Fui embora pra casa chorando e rezando para que meus pais jamais viessem saber do enorme constrangimento.

No caminho, jurei para mim mesmo que sem dinheiro para o ingresso jamais passaria sequer na porta do Cine Excelsior em dia de matinê ou soirée. Só deixaria fora do juramento os shows de mágica e de calouros comandados por Chico da Rádio.

Show de Chico da Rádio no cinema era imperdível. Nada no mundo me faria perder cenas como aquela em que ele tentou fazer um menino levitar, após hipnotizá-lo. O menino foi deitado sobre dois tamboretes e, quando retiraram os taboretes...

Será que foi vingança?

A queda machucou quase nada a vítima do mágico. Os tambores faziam jus à própria estatura.Mas a algazarra que se seguiu quase derruba o cinema, de tanto que a platéia riu. E eu, na fila da frente, ria mais do que todo mundo.

Ria principalmente do menino depois que tornou da hipnose. Encabulado ao extremo, ele desceu do palco sob aplausos, mas um aplauso de galhota, que vem acompanhado por gargalhadas desconcertantes.

Não esqueço nunca a cara que o menino fez ao reparar em mim, no modo como eu ria da desgraça dele. Parei na hora de sorrir e ao mesmo tempo me estalou lá dentro alguma coisa a me dizer que "aquilo não ficaria assim".

Êpa, acho que estou me lembrando!...Agora que estou remontando o episódio, tenho quase certeza de que aquele menino era o Ivan. Peraí, será que foi por isso?...

Obrigado, Doutor Valdês

Não poderia deixar de registrar meu agradecimento a Valdês Soares por ter me proporcionado esse retorno. E, para quem não sabe ou desconhece, permitam-me dizer um pouco sobre quem é esse cara.

Engenheiro civil e professor universitário, além de empresário e consultor respeitadíssimo no Brasil inteiro, Valdês Borges Soares é o cara da geotecnia e das fundações profundas para a construção civil.

O texto que ele me deu foi feito para um livro que Will Leal está preparando sobre os antigos (e desativados) cinemas da Paraíba. Posso garantir que o artigo de Valdês sobre o Cine Excelsior está muito bom.

O que não é nenhuma novidade. Afinal, o homem é bom - projetando, calculando ou escrevendo. Nem poderia ser de outra forma, sendo Valdês - como é - de Bananeiras.

Rubens Nóbrega
Jornalista

Publicada no Jornal Correio da Paraíba.
Edição 07/02/2010.

sábado, 30 de julho de 2011

Rubens Nóbrega - Chico Espínola


Nas paredes da memória de estudante, uma das boas lembranças que guardo é a de ter sido aluno de Direito Penal do saudoso Chico Espínola, que ocupa lugar de destaque na minha Galeria das Figuras Exemplares da Paraíba.

Trata-se de homenagem singela às poucas referências positivas que temos e tivemos de cidadãos e cidadãs paradigmais da Pequenina. Francisco Floriano da Nóbrega Espínola - o homem, o professor, o desembargador - é uma de nossas melhores referências, com toda a certeza.

Há 30 anos tive a felicidade de cursar a disciplina que ele ensinava na Federal. Aprendi pouco ou quase nada, mas por minha culpa, minha máxima culpa.Fiz o curso, mas não estudei direito. Hoje, aprendo muito sobre a vida e as pessoas com alguns filhos dele, com os quais mantenho convivência fraterna e respeitosa.

Tenho mais contato com o Professor Silvino Espínola e o médico cardiologista José Mário Espínola, que essa semana presenteou-me com duas histórias impagáveis protagonizadas por seu pai.

Vou repartir o presente, ressaltando que a generosidade do Doutor Zé Mário fez com que ele mesmo cuidasse da embalagem, isto é, do texto de muita qualidade com que brindo os leitores a partir deste ponto.

Quando veio o 1° de abril de 1964 para cobrir de luto por vinte e um anos o nosso país, presidia o Tribunal de Justiça da Paraíba o Desembargador Francisco Floriano da Nóbrega Espínola.

Logo no primeiro dia do golpe, o então Presidente do TJ emitiu telegrama-circular dirigido a todos os juízes e desembargadores, recomendando que não se envolvessem, que não emitissem opinião, que se comportassem como magistrados: neutros, apolíticos, guardiões da Justiça; independentes, enfim.

Apesar de a maioria ter se comportado assim, ao longo dos primeiros anos da ditadura, iniciou-se um processo de caça às bruxas, ou melhor, de pressão sobre os magistrados para que se definissem: ou aderiam ao governo (e ao golpe) ou seriam forçados a se aposentar ou seriam cassados, perdendo o emprego e todos os direitos.

Todas as instituições fervilhavam de delatores, os dedos-duros: a Justiça, a Igreja, a Universidade, as escolas. Muita gente fez carreira profissional à custa da deduragem. Alguns juízes tiveram dificuldades imensas para sustentar a si e à família, pois eram rotulados de 'comunistas', e com esta pecha não conseguiam trabalho.

Os lugares dos perseguidos ou cassados eram geralmente ocupados por magistrados dóceis, prática que vingou ao longo dos tempos, embora a imensa maioria, como já se disse, tenha se mantido independente.

O desembargador Espínola , que continuou íntegro até sua morte em 1993, também sofreu perseguição por parte da ditadura militar e seus asseclas, instalados no governo estadual à época. Telefonemas anônimos, raivosos e ameaçadores, notícias infundadas de aposentadoria, denúncia ao Exército de que ele era comunista, boatos de cassação... Tentaram de todas as formas dobrar o homem, mas não conseguiram.

Inclusive...

Até bomba de piche atiraram contra a sua casa, para intimidá-lo, mas ele não cedeu.
Rubens Nóbrega
Jornalista

Publicada no Jornal Correio da Paraíba.
Edição 01/11/2009.
continua...

Rubens Nóbrega - Chico Espínola - Continuação


'Comunista'

O episódio mais ridículo daquele período foi a denúncia de um oficial do Exército, por sinal aluno de Francisco Espínola na Faculdade de Direito.

Esse oficial, um jovem tenente, chegou a realizar uma 'batida' noturna na casa do Professor à caça de um 'perigoso elemento' que seria ninguém menos que Francisco Espínola Júnior.

O 'subversivo' filho do desmbargador estaria na Paraíba gozando férias da Faculdade Patrice Lumumba, de Moscou, da qual seria aluno.

Francisco pai recebeu educado e calmamente o oficial e sua equipe de caçadores de comunista. Ao saber o motivo da 'visita', com esforço segurou o riso e pediu à esposa Nair para trazer o Júnior até a sala.

Em segundos, os militares se viram diante de um sonolento garoto de seis anos de idade, que só abriu a boca para bocejar e reclamar da mãe por lhe ter tirado da cama quando já pegava no sono.

Aí foi a vez da escolta do tenente segurar o riso. Ao oficial, rubro de vergonha de si mesmo, só restou pedir desculpas e se retirar apressadamente da casa do Professor, que depois dessa jamais voltou a ser incomodado pelo rgime.

Outra

Final dos anos 60, Chico Espínola descia a Rua Duque de Caxias, desde a Faculdade de Direito, com o seu filho José Mário. Procurava um ourives para consertar uma volta de ouro da esposa, Nair.

Quando passava pela calçada de O Novo Continente, em frente à loja Palmeira ("Vende tudo na valsa..."), de Severino Aragão, tropeçou em alguma coisa, quase caindo. Quando olhou para trás, viu que tinha tropeçado em uma mendiga muito famosa à época, que mantinha as pernas estendidas ao longo da calçada.

A mulher tinha paralisia nas duas pernas.Mas nem por isso deixava de ter filhos e os tinha de dois em dois anos. Cada um de um pai diferente.Apesar do defeito físico, não lhe faltava homens.

Pois bem, ao ver a mendiga, o Professor Espínola encheu-se de pena e deu-lhe um dinheiro. E voltou a procurar o ourives, para cima e para baixo da Duque de Caxias.

Tropeçou de novo na mendiga, e deu-lhe outro dinheiro. Continuou a procurar o ourives e, distraído que era, voltou a tropeçar na mendiga, e deu-lhe outro dinheiro.

Foi aí, então, que ele puxou o filho e lhe disse, falando baixinho para não ofender a mulher:"Zé Mário, vamos trocar de calçada?".
Rubens Nóbrega
Jornalista

Publicada no Jornal Correio da Paraíba.
Edição 01/11/2009.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Rubens Nóbrega - Lula Merecia Mais



um conto - uma crônica

Presenciei sábado, último à tarde, no cinema do shopping center de Juazeiro (CE), uma fila de interessados em assistir 'Lula, o filho do Brasil', de Fábio Barreto, três vezes maior do que a fila para 'Avatar', de James Cameron.

A maior preferência pela fita sobre a vida de Luiz Inácio até virar Lula deve ser porque mostra uma parte ainda pouco conhecida da história de um homem que hoje é venerado feito santo no interior do Nordeste. Feito um Padre Cícero, por exemplo.

Além disso, 'Avatar' deve estar nos seus últimos dias. Daí ser maior agora o interesse pelo filme brasileiro, que estreou nas salas de cinema no primeiro dia do ano, depois de uma pré-estréia relativamente bem concorrida nas versões piratas.

Antes de entrar no circuito dito comercial, contudo, 'Lula, o filho do Brasil' teve avant-première em alguns festivais do cinema nacional, a exemplo do nosso Fest-Aruanda, realizado em dezembro último no Hotel Tambaú, em João Pessoa.

Fui à abertura do Aruanda para ver 'O Filho do Brasil' e, sinceramente, não gostei. Aliás, foi muito mais divertido e interessante ver o prefeito Ricardo Coutinho (PSB), da Capital, aplaudindo todo encabulado a homenagem da organização do evento ao governador José Maranhão (PMDB).

Quanto ao filme, achei muito fraco, ruim mesmo. Não quero com isso convencer ninguém a deixar de ir. Se você ainda não assistiu, vá, por favor. Nem que seja para conferir se o colunista tem ou não razão. Mas não deixe de ir por conta de minha opinião.

Ilustração errada

Não sou autor que se cite em matéria de cinema. Não saberia dizer exatamente, tecnicamente, porque o filme não me agradou, mas lhes digo que consegui ver e guardar na memória duas ou três cenas que a meu sentir descredibilizam por inteiro a obra.

Além disso, as 'falhas' que encontrei abalam a verossimilhança que a produção nem precisava ter, considerando que se trata de um filme pretensamente 'biográfico', que talvez se desse melhor se usasse a linguagem de documentário.

Pra vocês terem uma idéia dos erros que penso ter detectado, posso estar enganado, confesso, mas botei na cabeça que vi dois ou três segundos da cena de uma reunião do gabinete do general-presidente Castelo Branco ilustrando comentários ou informação de algum prsonagem do filme sobre a edição do AI-5.

A cena histórica (acredito que se trata da posse do ministério de Castelo Branco) aparece na tela de um aparelho de tevê das antigas, em preto e branco, colocado no fundo da sala. Aparece desfocada, propositadamente, e só por dois ou três segundos, como já disse.

Ora, até eu sei que quem assinou o AI-5, em dezembro de 1968, foi Costa e Silva , o segundo general-presidente Costa e Silva da ditadura.Castelo morrrera ou fora assassinado um ano antes do ato que endureceu ainda mais o regime, um ano antes do então sindicalista Lula ou um amigo falar alguma coisa sobre aquele evento.

Buraco negro

Outra coisa que o filme não deixou entender é como Lula passou de operário alienado para sindicalista atuante.

Rubens Nóbrega
Jornalista

Publicada no Jornal Correio da Paraíba.
Edição 04/01/2010.
continua...

Rubens Nóbrega - Lula Merecia Mais 2 - Buraco negro





um conto - uma crônica

Outra coisa que o filme não deixou entender é como Lula passou de operário alienado para sindicalista atuante.

'Pulo' na história

A única 'passagem' possível é a que mostra Lula caminhando por uma calçada e no meio da rua surge um caminhão carregado de operários em greve a caminho de um piquete em uma fábrica onde colegas fura-greve estariam confinados.

Instado por um irmão mais velho que já participava do movimento, meio a contra-gosto Lula sobe no caminhão e depois aparece acompanhando, horrorizado, a invasão da fábrica e o arremesso de dois fura-greve de uma sacada.

Não se sabe se os caras morreram ou não, muito menos porque Lula, que reage mal ao que viu, nas cenas seguintes já é visto se articulando dentro do Sindicato dos Metalúrgicos, como se fosse um velho camarada das antigas lideranças da entidade.

Pior é a fala de Lula na primeira reunião dele como novo dirigente do Sindicato. Tem uma hora lá em que pede à 'companheira' para não hostilizar o patrão porque é o patrão quem lhes paga o salário.

Duvido que um sindicalista com um mínimo de formação política diga algo parecido. Inda mais naquele tom, de quem acha que patrão faz concessão - ou favor - de pagar o salário para explorar a força do trabalho do operário que lhe dá lucro e fortuna?

Choro fácil

Tem mais, mas vou parar por aqui, na expectativa de que outros amigos e amigas que não tenham assistido ainda a 'Lula, o filho do Brasil' assistam e depois me digam o que acharam e, principalmente, se acharam o que achei no filme, do filme.

Lembrando, de qualquer modo e sorte, que a gente não pode esquecer que o próprio diretor disse, em entrevistas, ter optado por contar a história do pré-Lula através de um dramalhão, no formato de um filme para fazer chorar de emoção quem o assiste.

Não tenho a menor dúvida de que é isso o que vem acontecendo nas salas onde o filme está sendo exibido, porque muita gente que conhece um pouco a história de Lula sabe o quanto ele sofreu para chegar aonde chegou.

Rubens Nóbrega
Jornalista

Publicada no Jornal Correio da Paraíba.
Edição 04/01/2010.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Rubens Nóbrega -Ajuda Irrecusável


um conto - uma crônica

A coluna de hoje estava reservada à questão dos cartórios e do suposto engavetamento do concurso para cartorários na Paraíba, mas - como dizem lá em Bananeiras - um valor mais alto se alevantou.

Evidente que cuidarei adiante da pauta - importantíssima e oportuníssima - que me foi sugerida por um amigo, a quem agradeço de coração. Mas ele há de compreender que não poderia negar precedências ao cidadão que me escreveu ontem.

Refiro-me a Túlio Basílio da Nóbrega, meu primogênito, que me socorreu diante do instigante comentário de Lívio Meira, de Campina Grande, sempre implacável em seus questionamentos sobre o poder da fé.

Relembrando. Na segunda-feira (2), a coluna tratou de "A Virada", filme que conta a reviravolta - pela fé - na vida de um comerciante à beira da falência. Trouxe ainda a virada de uma missionária que atribui à fé a cura de seu autismo.

Pois bem, na coluna de ontem, Lívio comparceu a este espaço para desafiar o povo cristão a orar pela reposição de um membro amputado, pelo menos um, que é pra ver se o membro se re-materializa no corpo da pessoa mutilada.

"Impossível? Que nada, isso ocorre diariamente com as salamandras, sem que, presumivelmente, nenhum pastor reze para que aconteça. Desejo (ainda) perguntar aos crentes por que os amputados não estão nos planos de Deus?, provocou Lívio.

Fechei a coluna confessando não saber o que dizer sobre o escrito de Lívio. Pedi ajuda e ela veio do Filhão, evangélico graças a Deus, autor do que reproduzo adiante.

***

Pai, você pediu ajuda sobre o que o leitor Lívio Meira questionou hoje (5): "Os amputados estão nos planos de Deus?".

E a resposta é sim. Podemos não compreender, mas certamente todos estão incluídos nos planos de Deus. Tanto é que Deus se mostra de diversas formas a todos diariamente através da Sua Palavra (Bíblia) e através de Sua Criação.

Veja esses vídeos com um Exemplo daquilo que é ter Deus como a plenitude de sua vida: youtube.com./watch?v=amYAjdCrLOU (legendado, inclusive em português) e youtube.com/watch?v=et9hV3TmpRE (em melhor qualidade, mas em inglês).

Depois disso eu pergunto: de que adianta termos todos os membros e sermos aleijados espiritualmente?Estarmos afastados Daquele em que, em sua presença, até a Tristeza salta de alegria? (Jó 41.22b).
Beijos, Seu filho.


Pois é

Depois disso, pergunto eu: tinha como não dar essa "virada" na coluna?
Convertido?

Na mesma coluna sobre "A Virada", avisei que não significava nenhuma conversão o meu respeito e até certo fascínio pelas narrativas - ficcionais ou reais - acerca de eventos assemelhados na existência das pessoas que crêem.

Sobre tal aviso escreveu-me o amigo Amadeu Cordeiro (leia a seguir), dizendo-se convicto de que "A Virada" provocou neste escriba mudanças que o meu pretenso e vacilante agnosticismo impediria aceitar ou perceber.

***

Prezado Rubens, nada acontece por acaso. A virada transcrita em sua coluna de segundfa-feira (2) com certeza surtiu seus efeitos.Engana-se você ao afirmar que apesar dos pesares nada mudou. Mudou sim, amigão.

Sua atenção ao filme já operou uma transformação interior, sua emoção e até a pequenina lágrima que irrigou sua face fizeram germinar algumas sementes, com certeza, semente do bem. Digo isso afastando qualquer conotação de religiosidade.

Amigo Rubens, às vezes não é necessário uma virada tão brusca, uma guinada de 180° , para que se encaixem certas coisas da nossa vida no prumo certo. Este pequeno "tombinho" você nunca esquecerá.

Digo isso porque como você sou também muito família, preservo raízes e tenho esperança num mundo melhor, mais justo, mais honesto e mais humano.

Anonimamente tenho enviado algumas cópias (do filme) para pessoas próximas e tem surtido efeito. Sou leitor compulsivo da sua Coluna e também colaborador do jornal Correio da Paraíba (Opinião). Parabéns.

Um forte abraço e não esqueça do cinto de segurança.

Amadeu Robson Cordeiro - Agente Fiscal do Estado.

Rubens Nóbrega
Jornalista

Publicada no Jornal Correio da Paraíba.
Edição 06/11/2009.
continua...

Rubens Nóbrega -Ajuda Irrecusável -Continuação













um conto - uma crônica

Desafiando gigantes

Fechando o firo, anteontem à tarde passei pelo jornal para pegar correspondência e me entregaram um dvd do filme 'Desafiando gigantes'. O presente veio de alguém que se identificou apenas como 'Assis' na Portaria do Sistema Correio.

Ainda não assisti, meu caro Assis, mas agradeço a gentileza e a generosidade, próprias da maioria que adota o mesmo nome que o seu.

Adianto-lhe que busquei informações na Internet e descobri que o filme é da mesma linha de 'A virada', ambos produzidos pela Igreja Batista Sherwood, do Estado norte-american da Geógia.

Além disso, encontrei-me esta semana com o jornalista Marcelo José e ele me antecipou que 'Desafiando gigantes' é muito bom. Marcelão recomendou-me um outro filme - 'Prova de Fogo' - que seria ainda melhor e vem a ser o mais novo título lançado na praça pela Sherwood.

Rubens Nóbrega
Jornalista

Publicada no Jornal Correio da Paraíba.
Edição 06/11/2009.
continua...

terça-feira, 21 de junho de 2011

Rubens Nóbrega - Língua Machista 1






um conto - uma crônica
A gente que trabalha com escrita (de opinião, principalmente) sabe o valor que o adjetivo tem, pois é através dele que se qualificam as pessoas e coisas sobre as quais tratamos ordinariamente. Além disso, seríamos nós, povos do falar português, ao lado dos hispânicos e italianos,os únicos com capacidade de adjetivar em dois ou três gêneros.

A existência de mais um gênero é asunto pra outro dia. O problema que trago aqui hoje é o seguinte: quando a gente vai atrás de adjetivos nos dicionários da lingua portuguesa se dá conta do quanto - nessa matéria - é masculinizada a verbetação dos nossos "painhos", como carinhosamente os chamo, dada a capacidade que têm de nos ensinar e auxiliar nesse ofício sem reclamar direitos autorais.

Quer ver? Experimente pesquisar adjetivos em dicionários mais consagrados feito o Houaiss, o Aurélio ou Michaelis. Tirante os duas cabeças ('bacana', por exemplo), é beleza. Mas se precisa esculhambar e usar 'safada', no dicionário não vai encontrar. Lá só tem 'safado', o que deixa a dúvida se tal adjetivo seria privilégio masculino.

Quando derivado de verbo, a falta de adjetivos femininos é imensa.Vejam como é: para esta coluna tive que fazer um apanhado, porque seria impossível uma 'apanhada' atender aos meus propósitos. Salvo, é claro, se a implicância fosse com os substantivos, mundo que 'apanhada' frequenta com desenvoltura para significar brincadeira de pega-pega.

Se eu fosse mulher, poderia dizer aqui que estou sendo assistida, enquando escrevo, pelos dicionários online Houaiss e Aurélio e um pequenino Michaelis, impresso, que encontrei na estante da minha caçula Ila. Mas se eu for buscar adjetivo 'assistida', em qualquer um deles, não vou encontrar. Já se procurar por 'assistido', é ligeirinho.

Experimente, nos dicionários do seu computador ou em quaisquer outros publicados no formato convencional, fazer um joguinho de caça-adjetivos. Digite a palavra 'boa'. Só vai encontrar como substantivo, garanto. Agora digite 'bom'. Sai adjetivo, de cara. Tente 'apaixonada' e logo em seguida, 'apaixonado'. Como adjetivo, só o masculino.

Fiquei preocupado, mais um vez, quando confrontei 'mentirosa' com 'mentiroso'. Será que determinados termos da nossa língua são exclusivos do universo masculino? Pois saibam que a expressão adjetival da mentira aparece apenas no masculino no planeta adjetivo dos dicionarios.

Sem contar...

Que o próprio vocábulo (não existe 'vocábula') 'adjetivo' é adjetivo e, substantivamente, masculino.

Rubens Nóbrega
Jornalista

Publicada no Jornal Correio da Paraíba.
Edição 10/01/2010.

continua...

Rubens Nóbrega - Língua Machista 2 - Atenção Feministas





um conto - uma crônica

Alguma de vocês já teve a curiosidade de olhar os verbetes 'homem e 'mulher' nos dicionários. Vamos ver como é? Começemos pelo Aurélio (versão Beta):

---Homem - s.m.Indivíduo dotado de inteligência e linguagem articulada, bípede, bímano, classificado como mamífero da família dos primatas, com a característica da posição ereta e da considerável dimensão e peso do crânio./Espécie humana, humanidade; a evolução social do homem./A criatura humana sob o ponto de vista moral: todo homem é passível de aperfeiçoamento./Pessoa do sexo masculino, macho.

--- Mulher - s.f.Ser humano do sexo feminino./ Aquela qu atingiu a puberdade./Esposa./Amásia, concubina.//Mulher à-toa, mulher da vida, mulher pública, meretriz.

Agora no Houaiss. Vou logo avisando que é pior (e é porque vou usar apenas algumas acepções):

---Homem - s.m. Mamífero da ordem dos primatas, único representante vivente do gên.Homo, da espécie Homo sapiens, caracterizado por ter cérebro volumoso, posição ereta, mãos preênseis, inteligência dotada da faculdade de abstração e generalização, e capacidade para produzir linguagem articulada; a espécie humana, a raça humana, a humanidade (eita nós!); adolescente do sexo masculino já dotado de virilidade; aquele em que sobressaem qualidades como coragem, força, determinação, vigor sexual; pessoa da confiança de alguém; marido, companheiro ou amante; indivíduo que uma meretriz considera seu amante e que, não raro, a explora financeiramente.

--- Mulher - s.f. Indivíduo (não tem 'indivídua', apesar da boa eufonia) do sexo feminino, considerado do ponto de vista das características biológicas, do aspecto ou forma corporal, como tipo representativo de determinada região geográfica, época etc.; aquela que tem sua fisiologia e sua vida genital percebidas como essência do ser humano feminino em sua evolução; na puberdade, com a chegada dos ciclos menstruais, quando ovula e pode conceber, entre menina e moça; na fase núbil, pronta para se casar; quando deixa de ser virgem; descendente do sexo feminino; a outra; amante, concubina; a fêmea humana como parceira sexual.

Se você entra no reino das locuções (modo de expressão que junta duas ou três palavras para construir um mesmo significado), o bicho pega. Não posso dizer 'a bicha pega' porque soaria pejorativo, como soa a maioria das locuções apuradas pelos dicionaristas para nos ilustrar acerca das diferenças entre o homem e a mulher.

Rubens Nóbrega
Jornalista

Publicada no Jornal Correio da Paraíba.
Edição 10/01/2010.

continua...

Rubens Nóbrega - Língua Machista 3 - Atenção Feministas



um conto - uma crônica

No próprio Houaiss, para o homem lá estão locuções como 'homem da lei', homem do povo', homem de bem', 'homem de letras', 'homem de palavra' ou 'de poucas palavras', 'homem de pulso' e 'homem público'.

Para as mulheres: 'mulher à-toa', 'mulher da vida', 'mulher da zona', 'mulher de má nota', 'mulher de ponta de rua', 'mulher de programa'... , quando chega às locuções de acepções mais literais, digamos, jogam o ser feminino à submissão ou em funções subalternas ao homem.

Exemplos: 'mulher do lar', para significar a mãe de família que resume a sua vida a cuidar do marido, filhos e casa; 'mulher de casa', 'mulher de verdade' (que remete a mais uma verdade doméstica), 'mulher honesta' ou 'mulher séria' (só para aquelas fiéis a seus maridos).

Mais: se você usa 'homem da rua', está siginificando que ele é um homem do povo; agora, vá usar 'mulher da rua' pra ver o que acontece! E 'homem público', que se contrapõe mais ainda a 'mulher pública?'Homem público' nos leva a um presidente, deputado, senador, governador, prefeito etc., políticos, enfim. Já 'mulher pública' passa direto pras ruas e cabarés onde estiver uma prostituta.

Sei não, mas me parece urgente revisar essas coisas. A Academia Brasileira de Letras bem poderia se deter na questão, em vez de ficar bulindo com tremas e acentos que me são tão caros.

Mas não é para censurar nem esconder, não. Nem daria certo fazer assim. Palavras e expressões não estão nos dicionários por machismo ou preconceito de quem os faz. É porque estão mesmo na boca do povo, fazem parte da nossa cultura, do nosso jeito e razão de ser.

Não quer dizer, contudo, que devamos nos deter na passividade eterna de ouvir, ler, ver e repetir palavras que degradam as mulheres em geral e a condição feminina, em particular.

Rubens Nóbrega
Jornalista

Publicada no Jornal Correio da Paraíba.
Edição 10/01/2010.

sábado, 4 de junho de 2011

Rubens Nóbrega - Verdades E Mentiras 1


um conto - uma crônica

Eu não votaria em Dilma se ela usasse tanta mentira, tanta calúnia, tanta infâmia contra o seu adversário.

Eu não votaria em Dilma se ela dissesse ou sua campanha espalhasse, por exemplo, que o adversário é gay ou a favor do aborto, não sendo ele uma coisa nem outra, e mesmo que a mulher dele tivesse abortado.

Eu não votaria em Dilma se ela se aliasse a uma imprensa conservadora e golpista para armar escândalos fundados em mentiras e grotescas manipulações, incluindo denúncias de rematados escroques e estelionatários.

Eu não votaria em Dilma se ela recebesse e negasse que recebe apoio de organizações de extrema-direita, de tendências nazi-fascistas, racistas e eugenistas, feito a TFP e outras que odeiam pobre em geral e nordestino em particular.

Eu não votaria em Dilma se ela, prefeita de São Paulo, fosse capaz de mentir e desmentir que usou dinheiro público para expulsar 'paraíbas' da cidade, pagando até R$ 5 mil por cada família que aceitasse retornar à terra de onde veio.

Eu não votaria em Dilma se ela, prefeita ou governadora de São Paulo, negasse que culpou os filhos dos nordestinos pela baixa qualidade do ensino público na rede escolar municipal ou estadual, como fez José Serra em entrevista ao SBT, conforme vídeo disponível na Internet para todo mundo ver e ouvir.

Rubens Nóbrega
Jornalista

Publicada no Jornal Correio da Paraíba.
Edição 24/10/2010.

Rubens Nóbrega - Verdades E Mentiras 2 - Seguro Desemprego, FAT, Genéricos...

um conto - uma crônica

Eu não votaria em Dilma se ela imitasse Serra e saísse por aí se dizendo criadora do Seguro Desemprego, quando, na verdade,o benefício foi criado pelo decreto presidencial nº 2.284, de 10 de março de 1986, assinado pelo então presidente José Sarney.

Eu não votaria em Dilma se ela, tal e qual faz o seu adversário, se apresentasse como a 'mãe' do Fundo de Amparo ao Trabalhador, quando, na verdade, o 'pai' foi o deputado Jorge Uequed (PMDB-RS), autor do Projto de Lei nº 991, de 1988, que criou o FAT.

Eu não votaria em Dilma se ela mentisse ao ponto de se dizer também a 'mãe' dos genéricos, quando, na verdade, o verdadeiro pai foi o já falecido (em dezembro de 2009) Jamil Haddad, ex-ministro da Saúde, e não José Serra.

Eu não votaria em Dilma se ela insistisse nessa mentira, porque aí ela seria desmascarada diante do decreto-lei nº 793, de 1993, que instituiu os genéricos bem antes de Serra ser ministro da Saúde e de FHC ser eleito presidente.

Eu não votaria em Dilma se ela tivesse sido a 'melhor ministra da Saúde do mundo', mesmo sabendo que não houve concurso nem campeonato algum para escolher melhor ministro disso ou daquilo.

Rubens Nóbrega
Jornalista

Publicada no Jornal Correio da Paraíba.
Edição 24/10/2010.

Rubens Nóbrega - Verdades E Mentiras 3 - Um Constituinte Reprovado Pela Diap


um conto - uma crônica

Eu não votaria em Dilma se ela tivesse sido deputada constituinte e na Constituinte tivesse votado contra os direitos dos trabalhadores para, 22 anos depois, tentar enganar o povo dizendo que foi tudo ao contrário.

Eu não votaria em Dilma se, na Constituinte, ela tivesse sido reprovada com a nota de 3,7 pelo Diap - Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar, como o foi o deputado constituinte José Serra, de São Paulo.

Eu não votaria em Dilma se hoje soubesse que,na Constituinte, ela não votou pela redução da jornada de trabalho para 40 horas.

Eu não votaria em Dilma se hoje soubesse que, na Constituinte ela não votou pela garantia de aumento real do salário mínimo.

Eu não votaria em Dilma se hoje soubesse que, na Constituinte, ela não votou pelo abono de férias de um terço do sálario.

Eu não votaria em Dilma se hoje soubesse que, na Constituinte, ela não votou pelo direito de greve nem pela nacionalização das nossas reservas minerais.

Eu não votaria em Dilma se hoje a ouvisse mentindo, dizendo que votou a favor de tudo isso em que ela não votou ou votou contra na Constituinte.

Rubens Nóbrega
Jornalista

Publicada no Jornal Correio da Paraíba.
Edição 24/10/2010.

Rubens Nóbrega - Verdades E Mentiras - 4 - A Pantomima Da Bolinha De Papel


um conto - uma crônica

Eu não votaria em Dilma de jeito ou maneira nenhuma se ela fosse capaz de enganar o eleitor assinando compromisso em cartório de cumprir mandato até o final para, dois anos depois, quebrar a palavra e se candidatar a outro cargo.

Eu não votaria em Dilma se ela insultasse a minha inteligência e a de todos os eleitores do Brasil simulando ferimento depois de levar uma bolinha de papel na careca.

Eu não votaria em Dilma se ela protagonizasse tamanha e tão ridícula farsa, semelhante aquela do goleiro chileno no Maracanã, e torceria para que ela fosse banida da política, tal e qual Rojas foi banido do futebol.

Eu não votaria em Dilma Rousseff se ela fosse José Serra ou parecida com ele e fizesse o que ele fez em 2002, quando enfrentou Lula e tentou ganhar espalhando o medo entre brasileiros e brasileiras.

Eu não voltaria em Dilma Rousseff se ela fosse José Serra ou parecida com ele e hoje tentasse ganhar espalhando mentiras capazes de despertar o ódio dos incautos contra o adversário.

Mas Dilma não é Serra, para felicidade da maioria que até aqui está acreditando, apostando e votando nela para elegê-la a primeira mulher presidente do Brasil.

Por essas e outras, sinto que nesta campanha vai se confirmar a profecia de Leonardo Boff: se antes, com Lula, a esperança venceu o medo; agora, com Dilma, a verdade vencerá a mentira.

Rubens Nóbrega
Jornalista

Publicada no Jornal Correio da Paraíba.
Edição 24/10/2010.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Rubens Nóbrega - Esse Chico...

um conto - uma crônica

Chico Roberto é mesmo uma figura. Naturalmente impaciente e irascível, no dia em que perde o restinho de paciência, sai de perto! Mas, se ficar, vai ter a chance de acompanhar e testemunhar episódios de refinado mau humor.

Já contei aqui um ou dois causos de Chico Roberto, versão moderna e estilizada de Seu Lunga do Juazeiro, de Seu Manduri de Patos ou do inesquecível Saraiva que outro Chico dos melhores, o Millani, fazia no tempo em que faziam humor na tevê.

Só não contei mais histórias de Chico Roberto porque vez em quando o homem desaparece, passa meses fora, pelo Brasil ou no exterior, a trabalho ou fazendo turismo.

O bom é que ele sempre volta à Paraíba e quando está em João Pessoa toma um cafezinho com a turma lá no Tambiá. É a chance que a gente tem de atualizar as aventuras e proezas do nosso herói.

Semana passada, ele deu o ar da graça no cafezinho e confirmou uma boa das suas que nos fora contada antes por seu cunhado, o escritor-pesquisador e estrategista político Waldir Porfírio.

Aconteceu em um desses dias em que Chico amanheceu daquele jeito, apesar de ser domingo, dia de sair com a patroa, parentes e/ou amigos para comer fora.

A pedida, dessa vez, foi uma concorrida churrascaria do Bessa, em João Pessoa.

A casa serve um rodízio de muita boa qualidade, um perigo para quem come demais da conta. Há que ter cuidado, pois do contrário sai empanzinado, como se tivesse comido o boi inteiro, com chifre e tudo.

Isso acontece, em boa parte, porque dá pena ou dor na consciência ver o tanto de comida que você pode desperdiçar, toda ela despejada no prato à sua frente por aquele enxame de garçons que cerca sua mesa.

Um lugar assim não seria, como não foi, uma boa escolha para Chico Roberto. Explico: apesar dos seus rompantes, ele é um cara de fino trato na hora das refeições.

Pra começar, gosta de comer à la Houaiss, mastigando bem mastigadinho tudo o que bota na boca. Tanto que só deglute os pedaços, fatias, gomos, lascas ou tiras quando todo o 'material' vira aquela papinha da mais fácil digestão.

Daí por que naquela churrascaria o nosso Chico começou cedo a invocar com a insistência dos garçons em empanturrá-lo de carne, pão de alho, frango assim, franco assado, interrompendo-o toda vez que ele tentava levar o garfo à boca.

- Vai uma maminha aí, Doutor? - perguntava um, já fatiando a peça enfiada no espeto, quase botando no prato dele, sem que ele pedisse ou assentisse.

- O Doutor já provou a costelinha de carneiro? - chegava outro, já empurrando o pedaço, quando mal Chico havia se livrado do rapaz da maminha.

- Coraçãozinho tá o ouro, Doutor... - veio um terceiro, esse para acender o estopim.

Furibundo, Chico Roberto pegou o sinalizador redondo posto à sua frente e rodou do verde "aceito, obrigado" pra o vermelho "satisfeito, obrigado". Quando o garçom seguinte chegou, armado com um espeto cheio de toscanas, espantou-se.

- Já Doutor? Houve alguma coisa? Foi alguma coisa o Senhor não gostou, foi? - quis saber.

- Nada não, meu jovem. Mas faça o seguinte: providencie um cafezinho. - pediu Chico Roberto.

- Pr'agora, Doutor? - achou de perguntar o garçom.

Resposta:

- Não, não É pra viagem. Mande embrulhar que eu pego na saída - ordenou Chico.

Rubens Nóbrega
Jornalista

Publicada no Jornal Correio da Paraíba.
Edição 28/03/2010.
continua...

Rubens Nóbrega - Esse Chico... - Final



um conto - uma crônica

Tanque Cheio

Depois daquela, o garçom se mandou ligeirinho. Saiu sem notar que o resto da mesa se divertia com a cena e diálogo dele com Chico, que dali em diante amarrou o bode e só desamarrou na hora de ir embora.


De qualquer sorte, tudo terminou em paz, a comida estava ótima para a quase unanimidade dos comensais e todos pegaram seus carros para voltar para casa, em Intermares, onde moram todos.

Chico avisou que se desgarraria do comboio porque precisava ir até um posto de gasolina ali perto para abastecer o carro e depois a barriga, pois na sequência passaria numa lanchonete. Almoçaria - em paz, enfim - um sanduíche.

No posto, que é o preferido dele e fica dentro de um supermercado que tem uma lanchonete razoável, Chico pegou fila imensa, culpa dessas 'promoções' que baixam o preço do litro em dois ou três centavos.

Demora e espera lhe acentuaram a irritabilidade. Mas, pelo menos, deu-lhe tempo de pensar num jeito de se livrar do discurso orientado para induzir o cliente a comprar a gasolina aditivada e mais cara.

É um papo decorado que geralmente Chico ouve em silêncio, depois olha bem no olho do bombeiro e anuncia com voz firme e forte:

- Comum! Viu? Comum!

Dessa vez, quando chegou a sua vez, Chico optou por simular conversa ao celular. Mas aí, quando pediu um instante ao 'interlocutor' apenas para dizer 'Comum!' ao frentista, ouviu um peremptório "Desligue o celular!".

Detalhe que esqueci: Chico é engenheiro elétrico. Sabe mais do que ninguém que celular ligado não é capaz de explodir posto de gasolina algum.

De qualquer sorte, ele desligou e guardou o celular no bolso da camisa, sem dizer palavra, para espanto da esposa que estava ao seu lado. E o frentista, satisfeito por se ver prontamente obedecido, foi cuidar de encher o tanque.

Concluído o abastecimento, o rapaz entregou aquele cartão inteligente que registra a conta, mas o motorista não deu a partida e ficou esperando.

- Algum problema, Senhor? - indagou o frentista.

- Não, nenhum. Só estou esperando o amigo empurrar o carro - explicou Chico.

- Como assim?O carro morreu, foi? - estranhou o frentista.

- Não, amigo, é que se ligar um celular aqui é perigoso, imagine, então, ligar um carro!

Rubens Nóbrega
Jornalista

Publicada no Jornal Correio da Paraíba.
Edição 28/03/2010.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Rubens Nóbrega - Só Mais Um


um conto - uma crônica

Depois que a gente abre contagem regressiva para a subida , cada ano a mais de vida é um presente daqueles...

Um presente do tipo que quando menino a gente guardava na vontade o ano todo só para pedir e - a depender das condições dos pais - até receber no Natal.

Vou, portanto, adiantar a minha pedida, aproveitando que é véspera de Ano Novo, dia em que o Homem lá de cima dve estar descansando e meditando se vai para o réveillon do Mago ou do Zé.

Bom, eu só quero um ano com saúde e paz, coisas que fazem bom efeito na minha auto-estima e aumentam bastante o amor pelos mais chegado, sobretudo mulher e filhos, e o bem querer pelos amigos de verdade.

Quero mais um ano também para ver alguma coisa mudar pra melhor na minha cidade, no meu Estado, no meu país.

Alguma coisa melhorou em 2009, é verdade, mas dá pra melhorar muito mais no ano que vem chegando. Até por que a gente boa da minha terra merece que assim seja.

Se me derem mais um ano, vou me empenhar para fazer mais e melhor o que consigo fazer mais ou menos, sobretudo se for para o bem dos meus e das pessoas de bem.

Um ano a mais de crédito dá para escrever menos complicado e até mais descontraído. Escrever sem mágoa, sem raiva, sem perder a fleuma ou a ternura, como ensina o Professor Ascendino.

Vou cada vez mais tentar escrever assim, mesmo se o assunto for o malfeito de gente má e poderosa que nos aferventa o sangue quando nos assume a mais justa indignação diante das safadezas impunes.

De qualquer forma, um ano a mais servirá para aperfeiçoar a postura com que me esforço nessa exposição permanente aos leitores e a minha própria consciência.

Significa que vou fazer de tudo para manter a mente aberta, a espinha ereta e o coração tranquilo, tal e qual recomendavam os versos belíssimos do poeta Walter Franco.

Quero mais um ano , pelo menos mais um, como já disse, para continuar amando as pessoas que amo e ser feliz, sem medo, no meu lugar, que é a minha cidade.

Mais um ano e terei uma nova chance de aprimorar a tolerância que preciso ter com meus diferentes, divergentes, dissidentes ou antagonistas.

Quero mais um ano, enfim, para arrefecer minhas ambições e me acostumar à idéia de que não vou passar disso. É a chance que tenho de ser menos pedante, menos pretensioso, um pouco mais humilde.

E se não der...

Se não for possível em 2010, tentarei no ano seguinte e nos seguintes da minha sobrevida.

Rubens Nóbrega
Jornalista

Publicada no Jornal Correio da Paraíba.
Edição 31/12/2009.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Rubens Nóbrega - Calçadinha 2009




um conto - uma crônica

De tanto a esposa insistir e de tanto ouvir que barriga de chopp só baixa com alimentação correta e caminhadas regulares, resolvi experimentar a receita que todos prescrevem como ideal para melhorar a silhueta dos jovens de idade avançada.

Mostrando que estava levando a coisa a sério, marquei estréia de caminhada para dia e horário em que normalmente estaria praticando erguimento de copo no Ricardinho do Jardim Luna, na Capital, em mais uma sessão da Confraria da Terça.

Reservei o expediente noturno para caminhar porque a lida começa às seis da madrugada e passo o resto do dia ralando e me deslocando (de carro) praqui e pracolá, de modo a atender também à agenda escolar-esportiva de Ila, minha caçula.

Mas não dá pra fazer caminhada de qualquer jeito. Há que ter roupa e calçado adequados. No meu caso, a indumentária me foi diligentemente providenciada pela Professora Madriana, minha consorte (embora eu diga que a sorte é toda minha).

Na data e hora marcadas, lá fui eu pra Calçadinha do Cabo Branco, todo paramentado, além de hidratado (dei logo um susto no fígado, tomando água em plena terça à noite). Tudo para recuperar um pouco da saúde perdida na esbórnia.

Trecho escolhido : do La Tavernetta ao Pontal, que corresponderia ao trecho final ao sul de toda a extensão da Avenida Cabo Branco, que na minha geografia começa à direita do Busto de Tamandaré, na divisa com a praia de Tambaú.

Aos primeiros passos, as primeiras impressões não foram das melhores. Lembrei do amigo Gláucio e concordei com ele. Esse negócio de caminhar parece que faz crescer a barriga. Digo isso porque o que encontrei de barrigudo caminhando...

Isso foi o de menos. Pois não é que comecei tropeçando numa lajota trincada, liberta do rejunte e de ponta arrebitada. Se caísse, relar-me-ia todo sobre a camada fina de areia que tomava conta da calçada naquele trecho muito perigoso para iniciantes.

Só não me esparramei no chão porque havia um poste no caminho e nele me amparei para não cair. Só não deu para evitar o choque, mesmo leve, do meu rosto contra a boca de uma lixeira vermelha, de plástico, amarrada ao mesmo poste.

Quando se deu o contato, fiquei na dúvida se não teria sido melhor ter caído. Vou te contar... O cheiro que me invadiu o nariz fez especular se dentro daquela lixeira não haveria algum urubu morto há uma semana.

Engulhei duas ou três vezes, mas segurei com a dignidade possível o que restava no estômago e reiniciei a caminhada, dessa vez prestando atenção à beleza do lugar e de caminhantes que vinham em sentido contrário ou me ultrapassavam facilmente.

Ocorre que a minha distração quase resulta em atropelamento. Dois skatistas tiraram um fino em mim que só vendo! Foi bom. Foi porque, doravante, fiquei esperto todo.

Tanto que ...

Quando vi uma turba de patinadores se aproximando, pulei pro asfalto.

Perigos adicionais

Usar a pista não me deixou mais tranquilo ou mais à vontade. Tive que caminhar por trás de carros estacionados no pedaço da avenida colado à Calçadinha. E aí fica complicado porque você é obrigado a desviar de ciclistas e corredores.

Tem mais. Caminhando próximo ou sobre a linha que demarca as vagas de estacionamento, você tanto ingere mais fumaça dos carros que passam como, vez por outra, vê o que não deveria no interior dos carros estacionados.

Gastei uns cem metros nessa situação até decidir pelo retorno à Calçadinha, que voltei a pisar num canto menos congestionado, também livre de patins e skates. E aí cuidei de apressar o passo para compensar o tempo perdido.

Pra quê, meu Deus? Pense a cäimbra que me deu na perna direita! E o esforço para desfazer a cäimbra no ato foi tão imenso quanto inútil. Por sorte havia uma barraca próxima e dentro dela um rapaz a quem pedi um pouco de álcool.

Explico. Quando me dá cäimbra, esfrego um pouco de álcool sobre a pele que encobre o músculo contraído. Funciona às vezes. Mas o rapaz da barraca entendeu outra coisa. Quando dei fé, ele estava servindo uma lapada de cachaça.

- Não, meu amigo, eu não quero beber,não.Estou precisando é de álcool mesmo, pra passar um pouco na perna. É que me deu uma cäimbra daquelas e estou que não agüento de tanta dor.

- Ah, o senhor me desculpe, mas tem álcool não.Num quer passar um pouco de cachaça, não? Talvez resolva.

No desespero, acatei a sugestão. Peguei o copo americano com cachaça até o meio, aparei um pouco na mão em concha e esfreguei sobre a região afetada. Aliviou coisa alguma. Ao contrário. Tive a impressão de que a dor aumentara.

Recorri, então, ao meu mais eficiente e diligente pronto-socorro. Peguei o celular e liguei para a minha mulher. Pedi que ela pegasse o carro e viesse correndo me buscar. Mas ela, claro, quis saber logo o que acontecera.

- Deu cäimbra - expliquei.

-Cäimbra? Ah, vai ver você não fez alongamento!

- Que alongamento?

Três ou quatro minutos após esse diálogo ao telefone, ela estacionou na frente da barraca, de onde me rebocou até o carro. Mas deu trabalho entrar. A perna retesada dificultou me acomodar no banco do carona.

Voltamos para casa, enfim. No percurso, como que por milagre a cäimbra se desfez e dei a boa nova à mulher, mas ela não se mostrou impressionada ou satisfeita com a notícia. E ainda questionou-me a seriedade de propósitos.

- Como é que você quer ser uma pessoa saudável desse jeito?

- Que jeito, mô? Do que você está falando?

- Sai pra caminhar e encosta numa barraca pra beber.

- Beber? Mas, meu amor, eu não tava bebendo, não. Eu...

- E ainda quer negar? Como é que pode, homem de Deus? Com esse cheiro de cachaça...

Rubens Nóbrega
Jornalista

Publicada no Jornal Correio da Paraíba.
Edição 15/11/2009.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Rubens Nóbrega - Brinquedos e brincadeiras


um conto - uma crônica




Ila, minha caçula, veio me mostrar ontem um "dodói". A ponta do seu polegar direito estava levemente inchada e avermelhada. E muito dolorida, segundo ela.

- Foi marimbondo, foi? perguntei, causando-lhe imediata expressão de incredulidade diante da minha pergunta que, pelo visto, não fazia o menor sentido.

- Painho tá ficando doido, é? Foi do joistique de Paulinha. Passamos a tarde jogando vídeo-game na casa de Paulinha - explicou.

Na explicação dela me dei conta de uma coisa; Nascida e criada em João Pessoa, aos 12 aninhos a minha pequena já deve ter visto alguma vez ou pelo menos ouvido falar em marimbondo, mas nunca levou ferroada de um.

Eita! Se ela nunca sofreu ferroada de um bicho assim, muito menos assanhou caixa de marimbondo e saiu numa carreira danada para lá na frente sentir a alegria de ter desafiado e vencido tamanho perigo.

Ila só, não. Meus dois mais velhos, Danuta e Túlio, também nascidos e criados na Capital há mais de vinte anos, conheceram bichinhos voando ou piscando mais em telas de vídeo-game do que no espaço aberto da natureza livre.

Vagalume, por exemplo. Meu Deus, como é que meus filhos jamais prenderam vagalumes num pote de vidro branco transparente que na infância a gente transformava em lanterna mágica nas brincadeiras de escuro?

Danuta e Ila certamente não cantaram "cai, cai, tanajura/ cai, cai, tanajura/aqui na minha mão..." nem comeram gordura de tanajura, que diziam ser muito boa para curar dor de garganta.

Vai ver as minhas meninas talvez tenham brincado muito pouco ou nenhuma vez de academia, de amarelinha.

Não devem saber como é riscar o chão com giz ou telha, lançar e ir pegar o caquinho ou a pataca em cada um e em todos os quadros, pulando num pé só, sem deixar o outro tocar o chão. Até alcançar o círculo desenhado na ponta, até chegar ao céu.

E carrapeta? Será que elas brincaram? Será que ja sentaram em círculo com as amigas para jogar pedrinhas pro alto e apará-las com uma mão. Uma pedrinha: joga, pega e larga. Duas: joga, pega e larga... Até jogar e pegar todas as sete e no final fazer o vira.

No vira, todas são arremessadas para o alto com as duas mãos em concha e aparadas com o dorso das mãos, juntas. Se deixar cair umazinha, uma que for, perde.

Tulhinho, por sua vez, muito provavelmente jogou bola de gude, se jogou, no chão cimentado dos pátios de prédios por onde morou quando criança menor.

Não sabe o que é jogar bola de gude no chão de terra, em três buracos cavados e dispostos em linha reta ou formando triângulo, com um buraco em cada vértice, cada um de tamanho diferente.

Quem jogou sabe que o bom é jogar em terra batida úmida, bem compactada, sem relevo nem pedrinhas, que é para a bola de bater nas outras correr macia, sem desvios, batendo certo nas boas que a gente precisa botar e tirar de cada buraco.

De outra, não lembro Tulhinho me reclamando de falangeta intumescida porque usou rolimã em vez do gude, como eu por vezes usava nos quintais das casas onde morei em Bananeiras.

Não lembro meu filho pedindo para amolar a ponta do ferrinho de enfinca. Será que cercou o adversário direito como eu cercava lá em Bananeiras, fechando as saídas com os riscos em linha reta que sulcavam o terreno da bodega de Biu, no Paravéi?

Ele também não me pediu linha para a fieira do seu pião ou seu papagaio, que não ajudei a montar, que devo ter comprado pronto para soltar na praia. Coisa mais sem graça...

Falando em rolimã, é possível que ele tenha pilotado ou tentado pilotar um skate, mas não lhe proporcionei descer e subir de patinete uma calçada enladeirada.

Do mesmo modo, não lhe comprei nem tentei fazer com ele um caminhãozinho de madeira. Nem que fosse igual ao que fiz e esmaguei com uma pedra depois, com raiva, por ter ficado muito parecido com o caminhão que apanhava lixo na rua.

Não achava parecido ate ouvir outros meninos me chamando de João Certeza, que era como se chamava o motorista do caminhão do lixo.

Meus filhos talvez também não saíbam o que é uma baladeira. É possível que confundam como mocinha que gosta de cair na balada, à noite. De imediato, duvido que saibam que estou me referindo a um estilingue.

Não caçaram de baladeira. Com certeza não. Não acertaram passarinho nem cabeça de lagartixa, como todo menino lá de nós tentou, de ruim, mas felizmente não acertou, como não acertei , porque a pontaria era pior ainda.

Boto tudo isso no talvez não por desconhecer vida e passagens dos filhos, mas porque preciso me dar o benefício da dúvida quando no tribunal da minha consciência vierem a julgamento as minhas falhas de pai.

Uma das maiores, vejo agora, foi a de não tê-los levado mais ao interior, de não ter pelo menos alternado praia e shopping com visitas mais demoradas ao Brejo e aos sertões de suas ascendências maternas.

Não os coloquei em contato com outras crianças como eles, mas criadas no interior, onde a vida pode até ter menos conforto, mas seguramente é mais genuína, mais saudável e mais divertida, porque lá a inocência se demora mais na infância.

Fico triste de verdade quando me dou conta de faltas assim e mais ainda por não haver mecanismo de regressão ou túnel do tempo que me leve ao outro lado, o lado onde fui mais feliz, para lá reviver com eles o melhor do que eu pude ser e ter um dia.

Rubens Nóbrega
Jornalista

Publicada no Jornal Correio da Paraíba.