Cine Excelsior
Um texto de Valdês Soares, que ele me deu domingo passado, levou-me de volta a Bananeiras e me obrigou a carregar uma mala que não cabia de tanta saudade.
Ainda bem que consegui chegar a tempo de pegar a sopa de Manoel Soares na Rodoviária Velha. E a viagem foi tão boa e tão rápida que, quando pisquei, já estava descendo na frente do Bar do Seixo.
Belíssima surpresa me aguardava. Esperando-me na praça, a turma quase toda- Meninin, Nenen de Zé do Padre, João Batista, Niltin e César Bandeira, Toinho e Ronaldo Cirne, Mamaco e Jerônimo Bento, Marquinho de Timbu e Fernando Maia.
- Vem logo, Rubinho, vamos logo comprar o ingresso que o filme começa já já - apressou-me Nenen, com autoridade de quem é filho do projetista que iria passar na tela do Cine Excelsior a reprise dos melhores momentos da minha adolescência.
Fui lá só para assistir a esse fita no adorado cinema de Zé do Padre, tema do escrito de Valdês. Na minha vontade, o Cine Excelsior jamais fechou. Ainda hoje mantém em cartaz algumas das mais escolhidas recordações do meu tempo mais feliz.
Assim que entrei, corri para pegar a minha cadeira predileta, a do meio da quinta fila mais próxima da tela. Nem me dei conta que já tinha altura suficiente, embora pouca, para dar baixa da galera do gargarejo.
De qualquer forma, sentei-me por lá mesmo e institivamente procurei nos bolsos o canhoto do ingresso. Fiz aquilo para me certificar da autenticidade do bilhete e ter a certeza de que não passaria pelo mesmo vexame de anos atrás.
Penetra involuntário
Teve um dia que entrei no cinema com ingresso falso, na verdade um pedaço de papel de embrulho da mesma cor do bilhete que por falta de dinheiro não pude comprar num daqueles domingos em que passava filme do Zorro.
Doido para assistir, fiquei peruando na porta do cinema pra ver se algum amigo mais abastado me patrocinava a entrada. Só apareceu Ivan, se não me engano, que reparava na minha ansiedade e achou de me 'socorrer'.
-Toma, toma meu ingresso.Não vou poder assistir porque pai mandou avisar que quer me ver bem cedo em casa hoje.É que amanhã a gente vai pra Guarabira resolver uns negócios...
Oxe!Não contei conversa.Muito menos olhe o ingresso que ele me deu.Corri, entreguei-o a Cido, o porteiro, e entrei no cinema correndo mais do que Silver. Quando me aboletei, o trailer estava no comecinho.
No flagra
Não deu um minuto, senti alguém me puxando pela manga da camisa.
Vaia do lado de fora
- Ei, seu engraçadinho, se levante daí e venha comigo - disse o porteiro, com tanta raiva na voz que me deixou sem reação ou argumento, além de não entender a razão de estar sendo retirado de dentro do cinema daquele jeito.
Pior foi ser recepcionado lá fora com uma vaia, comandada por Ivan, o horrível. A vaia aumentou uns 300 por cento a minha vergonha. Fui embora pra casa chorando e rezando para que meus pais jamais viessem saber do enorme constrangimento.
No caminho, jurei para mim mesmo que sem dinheiro para o ingresso jamais passaria sequer na porta do Cine Excelsior em dia de matinê ou soirée. Só deixaria fora do juramento os shows de mágica e de calouros comandados por Chico da Rádio.
Show de Chico da Rádio no cinema era imperdível. Nada no mundo me faria perder cenas como aquela em que ele tentou fazer um menino levitar, após hipnotizá-lo. O menino foi deitado sobre dois tamboretes e, quando retiraram os taboretes...
Será que foi vingança?
A queda machucou quase nada a vítima do mágico. Os tambores faziam jus à própria estatura.Mas a algazarra que se seguiu quase derruba o cinema, de tanto que a platéia riu. E eu, na fila da frente, ria mais do que todo mundo.
Ria principalmente do menino depois que tornou da hipnose. Encabulado ao extremo, ele desceu do palco sob aplausos, mas um aplauso de galhota, que vem acompanhado por gargalhadas desconcertantes.
Não esqueço nunca a cara que o menino fez ao reparar em mim, no modo como eu ria da desgraça dele. Parei na hora de sorrir e ao mesmo tempo me estalou lá dentro alguma coisa a me dizer que "aquilo não ficaria assim".
Êpa, acho que estou me lembrando!...Agora que estou remontando o episódio, tenho quase certeza de que aquele menino era o Ivan. Peraí, será que foi por isso?...
Obrigado, Doutor Valdês
Não poderia deixar de registrar meu agradecimento a Valdês Soares por ter me proporcionado esse retorno. E, para quem não sabe ou desconhece, permitam-me dizer um pouco sobre quem é esse cara.
Engenheiro civil e professor universitário, além de empresário e consultor respeitadíssimo no Brasil inteiro, Valdês Borges Soares é o cara da geotecnia e das fundações profundas para a construção civil.
O texto que ele me deu foi feito para um livro que Will Leal está preparando sobre os antigos (e desativados) cinemas da Paraíba. Posso garantir que o artigo de Valdês sobre o Cine Excelsior está muito bom.
O que não é nenhuma novidade. Afinal, o homem é bom - projetando, calculando ou escrevendo. Nem poderia ser de outra forma, sendo Valdês - como é - de Bananeiras.
Rubens Nóbrega
Jornalista
Publicada no Jornal Correio da Paraíba.
Edição 07/02/2010.
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