quarta-feira, 11 de março de 2026

Cora Coralina





Alguns poemas parecem simples à primeira leitura, mas carregam uma sabedoria que atravessa gerações. É o caso de “Aninha e suas pedras”, um dos textos mais conhecidos da poetisa brasileira Cora Carolina.

Nascida em 1889, na cidade histórica de Goiás, Cora Carolina  — pseudônimo de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas — tornou-se uma das vozes mais singulares da poesia brasileira. 

Durante grande parte da vida, escreveu discretamente enquanto trabalhava como doceira e cuidava da família.

Seu reconhecimento literário veio apenas na velhice: seu primeiro livro, Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais, foi publicado quando ela tinha 76 anos. de das pessoas simples.

Dentro desse universo poético nasce “Aninha e suas pedras”, obra que se tornaria uma das mais citadas e compartilhadas da autora. 

O poema retoma a figura de “Aninha” — alter ego da própria poeta — para falar sobre a capacidade humana de transformar obstáculos em matéria de criação e de recomeço.

As “pedras” do caminho, longe de serem apenas impedimentos, tornam-se elementos de construção: com elas se levantam jardins, poemas e novas possibilidades de vida.Estátua em bronze de Cora Coralina inaugurada em 2021 em Goiás.


Ao longo das décadas, o poema ganhou grande circulação em livros didáticos, antologias e, mais recentemente, nas redes sociais, tornando-se uma espécie de síntese da mensagem que atravessa a obra de Cora Carolina : a valorização da experiência vivida, da perseverança e da beleza das coisas simples.

Mais do que um conselho, o poema é um convite. Um convite a olhar para as dificuldades não como fim, mas como matéria de transformação. É com esse espírito que apresentamos, a seguir, “Aninha e suas pedras”…

Aninha e suas pedras

Não te deixes destruir…

Ajuntando novas pedras

e construindo novos poemas.

Recria tua vida, sempre, sempre.

Remove pedras e planta roseiras e faz doces. 

Recomeça.

Faz de tua vida mesquinha  um poema.

E viverás no coração dos jovens

e na memória das gerações que hão de vir.

Esta fonte é para uso de todos os sedentos.

Toma a tua parte.

Vem a estas páginas

e não entraves seu uso

aos que têm sede.

Cora Coralina em Melhores poemas seleção e apresentação Darcy França Denófrio. 3ed. rev. e ampliada – São Paulo: Global, 2008. pg 243

Nenhum comentário:

Postar um comentário