
Canções do disco de estreia 'Manera Fru Fru, Manera' marcam presença no show
Por RAPHAEL VIDIGAL
Fagner não esconde que está “feliz da vida” com a campanha do Fortaleza, seu clube de coração, na série A do Campeonato Brasileiro

Foto: Ana Migliari/Divulgação
Neto de cangaceiros, o compositor Evaldo Gouveia aparece nas primeiras lembranças de Fagner, 69. Nascidos no interior do Ceará, os dois se tornaram vizinhos em Fortaleza, quando as famílias passaram a morar em casas que ficavam de frente uma para a outra. “Muito menino, eu ouvia o meu irmão Fares cantando com o Evaldo”, recorda Fagner, que coloca na conta do irmão mais velho o incentivo para ter seguido na carreira artística e a paixão pelo futebol. “O Fares se notabilizou por ser um cantor de seresta, mas acabou inscrevendo o seu nome no futebol”, conta.
Atualmente, a Copa Fares de Futebol é disputada por clubes cearenses de de menor expressão e dá ao vencedor uma vaga na Copa do Brasil. Embora também tenha se aventurado a correr de chuteiras num gramado, Fagner acabou consagrando o seu nome e a sua assinatura no campo musical. Mal imaginava ele que, em 1976, gravaria com Altemar Dutra, mineiro de Aimorés, o bolero “Sentimental Demais”, maior sucesso da obra de seu ídolo Gouveia, em parceria com Jair Amorim.
Roteiro
É para comemorar episódios marcantes dessa trajetória, iniciada no mercado fonográfico com dois compactos que antecederam o álbum “Manera Fru Fru, Manera”, de 1973, que o compositor desembarca neste sábado (21) em BH, para apresentar um repertório que já faz parte da memória afetiva brasileira, ancorado em clássicos do porte de “Deslizes”, “Mucuripe”, “Canteiros” e a inevitável “Borbulhas de Amor”.
Porém, Fagner promete que o espetáculo não vai ficar “apenas nas músicas conhecidas”. “Pela qualidade dos músicos e pela relação de intimidade que eu tenho com o público mineiro, nós vamos tocar, além dos grandes sucessos, importantes ‘lados B’. Vamos trazer, musicalmente, o clima do ‘Manera Fru Fru’. É importante as pessoas verem”, revela o cantor, que, em seguida, derrama elogios ao Estado. “Minas é terra de músicos, a criatividade aí está em outra esfera. É uma escola eterna, qualificada, com uma ponte com o que veio de fora bem-trabalhada, de bom gosto”, avalia.
Tempo
Outro motivo para as comemorações de Fagner é a própria idade. No próximo dia 13 de outubro, ele completa 70 anos. Dez dias antes, o vizinho e compadre Zé Ramalho sopra o mesmo número de velinhas. Os dois, inclusive, praticam cooper juntos, no Rio, e Fagner confidencia o “desejo de festejar a data” com o amigo. “As dificuldades da idade são evidentes, às vezes a gente fica se perguntando sobre isso, de chegar aos 70; noutras vezes, não. Para mim, que sou mais ativo e ansioso, o desafio é tentar me controlar um pouquinho, não querer fazer tantas coisas ao mesmo tempo, mas estou me sentindo bem”, garante.
O cantor se lembra da época em que jogava futebol em Minas, com o ídolo Reinaldo. Com o tempo, o contato se dispersou, assim como com Chico Buarque, outro companheiro de peladas. No entanto, no caso dos compositores, foi a política que provocou o distanciamento. Em 2018, Fagner apoiou Ciro Gomes no primeiro turno. “O Ciro tem minha amizade sempre, se ele for concorrer de novo em 2022, vai ouvir coisas que sabe que eu tenho de dizer e estará mais maduro”, opina.
No segundo turno, Fagner declarou voto em Jair Bolsonaro, enquanto Chico fez campanha por Fernando Haddad. Apesar das divergências, o cantor cearense não gostou da solicitação feita pelo Itamaraty à embaixada do Uruguai, para não exibir o documentário “Chico Buarque: Artista Brasileiro”, no país vizinho. “Acho ridículo, não tem o menor sentido, não se abafa a grandeza das pessoas, tem que deixar ela aparecer. Chico Buarque é um patrimônio brasileiro, se goste ou não das posições políticas dele, a arte deve ficar separada. Tudo isso é muito frustrante. O nosso momento político está confuso, radicalizado e muito polarizado”, desabafa.
Inéditas
Fagner não lança um CD de inéditas desde “Pássaro Urbano” (2014), mas em 2018 chegaram ao mercado duas novas composições. “Periga” e “Samba em Vão” foram apresentadas ao público pelo parceiro e coautor das canções Moacyr Luz, no álbum “Natureza e Fé”.
Agora, o próprio Fagner pretende dar voz às criações feitas com Moacyr, num trabalho autoral previsto para esse ano ainda. “Ele é tremendamente criativo”, elogia Fagner. O rebento musical vem sendo gerado em meio a várias companhias, entre elas a de Renato Teixeira. “A gente enlouquece com o Renato, estamos produzindo um material vasto e, se não bastasse, ele é um amigo muito generoso”, enaltece.
Ainda sem título, o disco agrega parcerias com Zeca Baleiro e Fausto Nilo, que compôs com Fagner e Ricardo Bezerra a música “Postal de Amor”. Gravada em dueto com Ney Matogrosso em 1975, a canção foi incluída na turnê “Bloco na Rua”, assim como “Ponta do Lápis”. “Adoro o Ney, ele mora a um quarteirão de mim. Cantamos juntos pela primeira vez em um festival de rock no interior de Minas, nos anos 70”, rememora.
Por sinal, a boa memória é motivo de orgulho para Fagner e auxiliou na confecção da biografia “Quem me Levará Sou Eu”, escrita por Regina Echeverria. O livro começa com a revelação da paternidade de Bruno, filho do cantor que só descobriu o parentesco em 2006, aos 32 anos, depois de um exame de DNA.
“A Regina quis contar isso para dar um furo jornalístico”, brinca o cantor, que define a publicação como “uma aventura”. “Tenho que fazer um volume 2 da biografia, muita coisa ainda ficou de fora”, conclui.
O Tempo,Com.Br
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