terça-feira, 26 de agosto de 2025

O Menino e o Violão de Lata


historias contadas

No bairro pobre de San Martín, na periferia de Buenos Aires, as ruas eram de barro, e a poeira fina

grudava na pele de quem passava. 

As casas eram pequenas, com telhados de zinco que faziam barulho quando chovia,

e o cheiro de pão assado de algum vizinho se misturava ao de fumaça de lenha. 

Entre as crianças que corriam descalças pelas vielas, estava Mateo, um garoto de 12 anos com um sonho

que parecia grande demais para o lugar onde vivia: 

queria ser músico e viajar pelo mundo levando suas canções.

A música estava em sua vida desde sempre. 

A mãe, enquanto lavava roupas em uma bacia no quintal, cantava boleros com voz suave. 

O pai, exausto do trabalho na construção, às vezes batucava em latas velhas, arrancando sorrisos do

filho. 

Mas em casa não havia instrumentos. 

O mais próximo que Mateo tinha de um violão era um desenho malfeito no canto de um caderno gasto.

Um dia, na escola, o professor anunciou um concurso de talentos. 

“Pode ser dança, canto, poesia… o que vocês quiserem mostrar”, disse. 

Mateo sentiu o coração acelerar.

Aquela era sua chance de mostrar o que sentia. 

Mas ao mesmo tempo, uma verdade dolorosa bateu: ele não tinha violão.

Naquela tarde, voltando para casa, caminhou mais devagar que o normal. 

Passou pelo ferro-velho da esquina e viu um pedaço de madeira, arames enferrujados e uma lata de óleo jogada no chão. 

Ficou parado por alguns segundos, olhando.

Uma ideia começou a se formar.

Durante três dias, trabalhou escondido no quintal. 

Pregou a madeira com marteladas tímidas para não chamar atenção,

cortou a lata com cuidado para não se machucar, e 

esticou os arames tentando afiná-los como cordas. 

Quando terminou, o “violão” estava longe de ser bonito: 

torto, com remendos e manchas de ferrugem. 

Mas, quando ele passou os dedos sobre as cordas improvisadas, um som rouco e metálico ecoou. 

Não era perfeito, mas era dele.

No dia do concurso, segurou o instrumento contra o peito. 

Alguns colegas riram. Outros cochicharam. Mateo respirou fundo, fechou os olhos e começou a tocar.  

A melodia era simples, mas carregava algo que nenhum riso poderia apagar: 

sentimento. 

Cada nota parecia contar uma história de esperança, luta e sonhos. 

Quando terminou, por um instante houve silêncio 

— e então, aplausos calorosos preencheram a sala.

Entre os jurados, estava um músico conhecido na região. 

Ele se levantou, caminhou até o garoto e perguntou:

— Posso te emprestar um violão de verdade?

A partir daquele dia, Mateo passou a ter aulas gratuitas. 

O músico ensinou acordes, técnicas, e principalmente, a nunca esquecer de onde veio. 

Anos depois, Mateo não só tinha seu próprio violão, como também um álbum gravado e uma turnê

marcada. 

Ainda assim, guardava o velho violão de lata num canto especial de sua casa 

— não como lembrança da pobreza, mas como prova viva de que um sonho não espera as condições

ideais para começar.

Moral:
Quando a vida não lhe dá o que precisa, a criatividade pode lhe dar o que é suficiente para começar.

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