quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

No terreiro batido de chão moreno



Associação Cultural Poeta Patativa do Assaré

No terreiro batido de chão moreno, ela espalha milho como quem espalha cuidado.

A mão enrugada desenha no ar um gesto antigo, repetido por gerações.

As galinhas se ajuntam ligeiro, num alvoroço de penas e passos curtos, como se soubessem que ali
não se serve só comida —  serve-se amor.

A casa ao fundo, de parede clara e janela aberta, guarda histórias que o vento conhece.

Telha avermelhada, sombra comprida da tarde, cheiro de terra e folha seca espalhada pelo quintal.

Ela veste flor no tecido, mas carrega flor mesmo é no coração.

Cada grão que cai da sua mão é memória de luta, é retrato de resistência, é carinho que não faz barulho.

O terreiro parece simples aos olhos apressados, mas ali mora um mundo inteiro:o canto do galo antes do sol, o café passado na hora, a conversa mansa no fim do dia.

O povo nordestino aprende cedo que riqueza não se mede em ouro, mas em mesa farta de partilha e em abraço firme de quem nunca desiste.

Ela olha as aves como quem olha filhos, com cuidado, com atenção, com a certeza de que cuidar da vida pequena é também cuidar do próprio chão.

E enquanto o milho se espalha no ar feito chuva miúda de esperança, o terreiro vira palco de poesia viva — daquelas que não se escrevem em papel, mas se gravam na alma.

Ali, entre penas, passos e silêncio, existe uma força que não se explica: é raiz, é fé, é amor antigo que sustenta o sertão inteiro.

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