Cristiano Marcondes
Eu o levei enrolado no cobertor azul que ele mais amava. Aquele mesmo cobertor que ele arrastava pela casa quando tinha medo de trovão, que ele mordiscava até encontrar o formato perfeito pra se aninhar.
O mesmo que ele apertava com o focinho, como se estivesse moldando um pedacinho de segurança no meio do caos.
E talvez seja isso que mais machuque agora: eu tentei levar um pedaço de casa junto com ele, como se amor fosse capaz de negociar com a morte. Como se aconchego pudesse convencer o corpo a continuar.
A clínica era simples, dessas de bairro. Ventilador velho girando no teto, fazendo um barulho constante. Um balcão de vidro riscado, a recepcionista com olhar cansado e uma televisão ligada passando um programa qualquer que ninguém estava realmente assistindo.
Eu cheguei com ele nos braços e meu corpo tremia tanto que mal consegui segurar a caneta para preencher os dados. Parecia que tudo estava acontecendo em câmera lenta, enquanto por dentro eu gritava em silêncio.
Disseram “internação”.
Disseram “estado grave”.
Disseram “vamos tentar estabilizar”.
E eu não escutava quase nada. Só o nome dele ecoando dentro da minha cabeça, repetindo sem parar, como um mantra desesperado. Eu pensava que, se dissesse o nome dele da forma certa, com a entonação certa, Deus entenderia o recado e me devolveria ele inteiro.
Ele estava consciente. E isso é uma das dores mais cruéis que existem.
Porque ele me olhava.
Não com medo. Não com raiva. Mas com aquele olhar que parecia pedir desculpa por estar doente. Como se fosse culpa dele. Como se ele tivesse vindo “com defeito” e agora estivesse me dando trabalho.
E ele nunca foi assim.
Ele sempre foi pura alegria.
Era o cachorro que fazia festa por um pedaço de pão velho.
Que seguia a gente pela casa só pra estar perto, mesmo sem motivo.
Que dormia
Que entendia o tom da nossa voz, os nossos silêncios, os nossos dias ruins… mas nunca entendeu a maldade do mundo.
Enquanto eu esperava na cadeira de plástico da clínica, olhando para a porta fechada da sala de atendimento, eu pensava em quantas vezes ele me salvou sem perceber.
Nos dias em que eu cheguei em casa sem vontade de falar com ninguém e ele simplesmente deitou do meu lado, em silêncio, como se dissesse: “não precisa explicar”.
E agora era eu ali, sem saber como explicar pra ele que não estava tudo bem. Que, dessa vez, eu não tinha como proteger. Que o colo, o cobertor e o amor talvez não fossem suficientes.
O pior não era o medo de perder.
Era saber que ele confiava em mim até o fim.
Que, mesmo doente, mesmo fraco, ele estava ali quietinho, porque acreditava que eu sabia o que estava fazendo.
E isso dói de um jeito que não cabe em palavras.
Porque perder um cachorro não é perder um animal.
É perder um pedaço da própria casa.
Um pedaço da própria história.
Florianópolis - Ilha da Magia
“Florianópolis aprendeu, com Orelha, que lealdade não late alto, ela permanece.
Permanece no silêncio das manhãs à beira-mar, no vento que passa pelas ruas, na memória de quem entendeu que um coração puro pode ensinar mais do que mil palavras.
Ele não pediu nada além de carinho, não exigiu nada além de respeito, e ainda assim entregou tudo o que tinha.
Orelha foi abrigo em dias difíceis, foi presença quando faltava humanidade, foi companhia sem julgamentos num mundo que tantas vezes esquece de cuidar.
Seu olhar carregava confiança, sua caminhada era tranquila, como quem acreditava que o bem ainda era possível. E talvez por isso sua ausência doa tanto, porque ela escancara o quanto ainda precisamos aprender.
Hoje, ele não caminha mais pelas ruas da ilha, mas segue vivo na consciência de quem escolhe ser melhor, na luta por mais empatia, na certeza de que nenhuma vida simples é pequena demais para ser honrada. Ele virou símbolo, virou voz, virou lembrança que se recusa a desaparecer.
Que sua história não seja apenas saudade, mas compromisso. Compromisso com o cuidado, com o respeito, com a proteção de quem só sabe amar. Você partiu, mas deixou algo raro, a prova de que a verdadeira fidelidade continua mesmo depois do último passo..”


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