Mistura fina
"Percebi que estava envelhecendo — não quando surgiram as primeiras rugas.
Nem quando alguém me ofereceu um lugar no ônibus.
Nem quando deixei de entender a música moderna ou de querer ficar acordada até o amanhecer.
O envelhecimento chegou em silêncio.
Sem drama, sem medo.
Mostrou-se quando deixei de desperdiçar energia em explicações inúteis.
Já não preciso ter razão. Não corro atrás de quem parte.
Não espero desculpas de quem não sabe pedi-las.
Simplesmente deixo ir.
Fecho capítulos.
Sorrio — e sigo em frente.
O silêncio já não me incomoda.
Sei que cada um tem o seu próprio ruído interior.
E quem quiser — encontrará as palavras.
Já não tento agradar a todos.
O meu espelho não é inimigo
.
Os meus cabelos brancos não são uma tragédia.
E o meu corpo…
O meu corpo é a minha casa, que nunca me traiu.
Com ele vivi amores, nascimentos, perdas e noites sem dormir.
Como poderia envergonhar-me dele?
Estou envelhecendo— e pela primeira vez vivo de verdade.
Sem pressa. Sem “tenho de”.
Sem culpa pelos meus desejos.
Bebo o café enquanto está quente.
Respondo quando estou calma.
Uso roupa confortável.
Ouço a chuva.
E abraço-me mais vezes.
Simplesmente — sou.
E isso basta."
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