Chico - Cartas de Paz e Consolação
Quando eu for velha, não me chame de "vovó" ou "minha querida". Me chame pelo meu nome.
Quando eu for velha, não quero que falem comigo como se eu fosse criança.
Eu quero ser respeitada.
E conservar minha identidade até o fim.
Não quero que me virem de um lado pro outro sem nem me avisar durante os cuidados.
Quero que me toquem com delicadeza.
E que me expliquem o que estão fazendo.
Não quero que me julguem.
Que digam que sou difícil. Ou complicada.
Quero que me tratem com gentileza.
E aceitem que eu nem sempre vou estar de bom humor.
Porque eu sou humana. Não um objeto.
Quando eu for velha, não quero dormir em lençóis de hospital.
Quero meu lençol.
Não quero ser lavada com toalha descartável.
Quero minhas coisas de banho.
Não quero que me sirvam comida em bandeja de plástico.
Quero uma louça bonita.
Como em casa.
Quando eu for velha, não me chamem "fralda".
Me chamem "proteção".
Não me coloquem um babador.
Me deem uma toalha grande.
Me deem uma toalha grande.
Porque palavras importam.
E dignidade não envelhece.
Não quero que falem na minha frente como se eu não estivesse ali.
e levem em disparada pro fim do corredor.
Quero que me avisem que vamos mudar de cômodo.
E que caminhem num ritmo que não me dê vertigem.
Não quero que me digam pra "fazer na proteção"
porque demoro muito pra ser levada ao banheiro.
Quero que minhas necessidades básicas sejam respeitadas.
E minha dignidade preservada.
Quando eu for velha, vou andar mais devagar.
Vou ouvir menos.
Vou entender menos rápido.
Mas ainda vou ser capaz de amar.
De querer comer tal comida.
De ter medo de tal coisa.
De sentir alegria. Tristeza. Saudade.
Quando eu for velha...
Eu só quero que não tirem de mim o direito de ser eu.
Mas mais do que isso...
Bem antes de eu ficar velha...
Eu quero que essas profissionais incríveis
Ajuda.
Reconhecimento.
Salário digno.
Condições de trabalho justas.
Porque elas carregam o peso de cuidar dos nossos velhos.
Com salários baixos.
Jornadas exaustivas.
E quase nenhum reconhecimento.
Elas limpam. Alimentam. Consolam. Escutam.
Seguram mãos tremendo de medo.
Enxugam lágrimas de solidão.
Devolvem dignidade a quem o mundo esqueceu.
E quando a gente envelhece...
São elas que estarão lá.
Então, antes de eu ficar velha...
Eu quero que a gente valorize essas mulheres.
Que a gente pague o que elas merecem.
Que a gente respeite o trabalho delas.
Porque um dia...
Seremos nós naquela cama.
Seremos nós naquela cadeira de rodas.
Seremos nós precisando de delicadeza.
E a forma como tratamos nossos velhos hoje...
É a forma como seremos tratados amanhã.

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