Felicidade pura
Tenho setenta e cinco anos e ainda sou “a filha”. Minha mãe tem noventa e sete. Toda vez que a carteira entra em nosso quintal, ela pausa por um momento ao nos ver: duas mulheres de cabelos brancos
sentadas no velho banco sob a macieira.
Criámos filhos que partiram para a cidade em busca de uma vida melhor. Ambas enterrámos nossos maridos —homens trabalhadores e bons, com cheiro de terra e fadiga—. Carregamos um século inteiro nos ossos.
Às vezes brinco enquanto tentamos caminhar juntas até a cozinha fumegante:
—Olha, mãe, o coxo está guiando a cega.
Ela ri com aquele som cristalino que lembro da infância, quando fazia milagres para colocar comida na mesa de toda a família e ainda sobrava para os vizinhos.
Mas, para ser sincera, às vezes dói. O silêncio da casa ressoa nos ouvidos. Minhas articulações avisam quando vai chover, enquanto tento ajudá-la a levantar-se. Suas mãos tremem tanto que não consegue abotoar seu suéter favorito, e seus olhos veem apenas neblina onde antes estava o pomar.
E, ainda assim, todas as manhãs, antes que o café com canela ferva, ela me diz:
—O que se passa, Anita? Levanta-te. Deus nos deu mais um dia, e devemos vivê-lo.
Olho para ela, pequena e frágil, e me pergunto: de onde vem tanta força? Talvez eu segure seu braço, mas é ela quem segura minha alma.
O amor não é feito de grandes promessas, mas de permanecer. E que bênção é envelhecer ao lado da mulher que te deu a vida.

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