Rainhas Trágicas -Mulheres Gueirreras Soberanas
Charles já não era marido de Diana quando atravessou o Canal da Mancha para buscar o corpo dela.
O casamento terminara, o divórcio fora assinado e ambos haviam seguido caminhos separados; ainda assim, naquela tarde de 31 de agosto de 1997, era ele quem iria a Paris, acompanhado por Lady Sarah McCorquodale e Lady Jane Fellowes, para trazer de volta à Inglaterra a mãe de William e Harry.
Poucas horas antes, em Balmoral, Charles tivera de cumprir uma tarefa que Harry descreveria vinte anos depois como uma das mais difíceis que um pai pode enfrentar: contar aos filhos que a mãe deles havia morrido.
No documentário Diana, 7 Days, Harry recordou que o pai “estava lá por nós” e acrescentou algo muitas vezes esquecido nas narrativas sobre aquela semana: Charles também “estava passando pelo mesmo processo de luto”. William tinha quinze anos; Harry, doze. Depois de permanecer algum tempo com eles, o príncipe partiu para Paris.
No avião estavam também as duas irmãs mais velhas de Diana, Sarah e Jane. Para Sarah, não havia sequer espaço naquele momento para compreender inteiramente o que acontecera. Em depoimento à BBC, ela recordou: “Apenas amor e choque.” Disse que erguera uma espécie de barreira emocional porque havia coisas que precisavam ser feitas. Era necessário buscar a irmã, pensar nos sobrinhos, decidir o que aconteceria em seguida.
No Pitié-Salpêtrière, Diana havia sido preparada para a chegada da família. Colin Tebbutt, motorista e antigo oficial de proteção que trabalhava para a princesa, chegou antes deles e deixou posteriormente um testemunho impressionante: entrou no quarto e encontrou Diana deitada numa cama, com o rosto descoberto. O calor daquele dia em Paris era intenso, e ele mandou cobrir as janelas quando percebeu pessoas tentando observar o interior do edifício. Sua preocupação era preservar, até naquele instante, a dignidade da mulher para quem trabalhara.
Quando Charles se aproximou do corpo, a enfermeira-chefe BéaQuando Charles se aproximou do corpo, a enfermeira-chefe Béatrice Humbert deixou uma das raras descrições atribuídas a alguém que efetivamente estava no hospital. Segundo recordaria, o príncipe ficou “absolutamente branco”, como se não conseguisse acreditar no que estava vendo. Relatos biográficos posteriores atribuem a Charles palavras ainda mais íntimas: teria dito que aquela fora a pior visão que já precisara suportar e que, diante de Diana morta, sua mente não retornara aos escândalos, às recriminações ou ao divórcio, mas à jovem que conhecera muitos anos antes.
Depois de se despedirem de Diana e agradecerem aos médicos franceses, Charles, Sarah e Jane acompanharam o caixão de volta à base aérea. O ataúde seguiu coberto pelo Estandarte Real. Registros posteriores do inquérito indicam, contudo, que não foi Charles quem decidiu pessoalmente colocar o estandarte sobre o caixão; ele teria ficado surpreso e comovido ao vê-lo. Às 19h01, em RAF Northolt, oito militares retiraram lentamente o caixão do avião. Não houve música nem discursos. Apenas o som dos passos, uma coroa de flores da família Spencer e, caminhando atrás de Diana, o ex-marido e as duas irmãs.
Sarah e Jane ainda imaginavam que poderiam proteger William e Harry com um funeral pequeno e familiar, seguido posteriormente por uma grande cerimônia pública. Durante o trajeto de Northolt para Londres, porém, compreenderam que essa possibilidade já não existia. Sarah contou que todos os espaços ao longo da A40 estavam ocupados: acostamentos, canteiros, pontes; pessoas lançavam flores à passagem do carro. Então voltou-se para Jane e disse: “Não acho que teremos um pequeno funeral de família, não é?”.
Era a percepção de que a irmã que estavam trazendo para casa já se tornara o centro de um luto nacional. O caixão foi levado primeiro a um necrotério particular e depois à Chapel Royal do Palácio de St. James. Charles retornou a Balmoral para William e Harry. Sarah e Jane permaneceram envolvidas na organização da despedida. Nas ruas, enquanto isso, Londres começava a desaparecer sob flores, bilhetes, fotografias, brinquedos e velas. Kensington Palace, Buckingham Palace e St. James's tornaram-se altares improvisados, impregnados pelo perfume das flores cortadas e pela cera das velas que continuavam ardendo durante a noite.
O divórcio de Charles e Diana havia sido concluído apenas um ano antes. Entre eles existira amor, ressentimento, infidelidade, humilhação e uma ruptura assistida pelo planeta inteiro. Nada disso podia ser desfeito naquele quarto de hospital. Tampouco havia reconciliação possível diante daquele caixão. Restavam William e Harry, duas irmãs que tentavam funcionar apesar do choque e um homem que, segundo o próprio filho, também estava de luto.
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