Há coisas que já não levo comigo.
Deixei-as adormecer nas margens do tempo, onde o ontem se desfaz lentamente em memória.
Deixei lá os abraços que chegaram tarde,
as palavras que morreram antes de encontrarem uma voz,
as mãos que soltaram a minha e
alguns nomes que o coração continuou a chamar muito depois de já ninguém responder.
Durante anos fui casa de tudo o que perdi.
Guardei ausências nas gavetas da alma,
acendi luzes para quem não regressava e
reguei flores em jardins onde a primavera já não sabia o caminho.
Até compreender que também existe amor em deixar partir. Então abri as mãos… e deixei o vento levar o que já só sabia doer.
Não esqueci.
Transformei.
Fiz das lágrimas água,
das cicatrizes raízes,
das despedidas asas.
E agora sigo mais leve, levando apenas aquilo que nenhuma partida conseguiu arrancar de mim:
a ternura de ter amado,
a coragem de ter sobrevivido
e essa flor impossível que, depois de todas as tempestades, ainda encontrou dentro de mim um pedaço de primavera onde nascer.
Carlos Cabrita,
O Sentido das Palavras Carlos Cabrita.
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