quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Um vento na ilha



Há coisas que já não levo comigo. 

Deixei-as adormecer nas margens do tempo, onde o ontem se desfaz lentamente em memória.

Deixei lá os abraços que chegaram tarde, 

as palavras que morreram antes de encontrarem uma voz,

as mãos que soltaram a minha e 

alguns nomes que o coração continuou a chamar muito depois de já ninguém responder. 

Durante anos fui casa de tudo o que perdi.

Guardei ausências nas gavetas da alma, 

acendi luzes para quem não regressava e 

reguei flores em jardins onde a primavera já não sabia o caminho.

Até compreender que também existe amor em deixar partir. Então abri as mãos… e deixei o vento levar o que já só sabia doer.

Não esqueci.

Transformei. 

Fiz das lágrimas água,

das cicatrizes raízes,
 
das despedidas asas. 

E agora sigo mais leve, levando apenas aquilo que nenhuma partida conseguiu arrancar de mim: 

a ternura de ter amado, 

a coragem de ter sobrevivido

e essa flor impossível que, depois de todas as tempestades, ainda encontrou dentro de mim um pedaço de primavera onde nascer.


Carlos Cabrita,

O Sentido das Palavras Carlos Cabrita.

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