1940 - "Vou andar de Bonde" - Passear, vou descer - vou subir (para a cidade)
O linguajar do paraibano na década de 40 do século passado continha vícios de linguagem que se incorporava aos meios.
O transporte mais popular era o bonde elétrico com linhas regulares para diversos bairros.
A expressão popular diferenciava em "Vou de bonde" para "Andar de bonde" assim como "Vou descer" ou "Vou subir" isso significava dizer: "Vou a cidade baixa ou vou para o centro da cidade".
A pronuncia "Andar de bonde" não significa como hoje "Andar de bicicleta". O termo "andar" é o que vale dizer: fazer um passeio naquele coletivo, estender o passeio como diversão como hoje "Vou ao shopping".
- Passeio prazeroso
Na realidade o passeio de bonde era prazeroso; esse "andar" é o que vale dizer a família "arrumada" (bem vestida) em uma tarde de domingo.
Os bancos (assentos) dos bondes tiram lugar para 5 passageiros.
- Viagem à Tambaú ou Trincheiras
Era lindo no bonde da "linha" Trincheiras, contemplar a "vista" da Balaustrada na av. João da Mata; ver a Praça Bela Vista e ao fim da linha, defronte ao Quartel do 22 BC (Hoje 15 RI) que no meio da rua tinha uma frondosa árvore (mangueira).
Se o passeio fosse a Tambaú era uma "viagem" e história para se contar durante uma semana. Nesse caso a genitora levaria uma cestinha de vime com lanche para todos integrantes da família. O trajeto era pela av. Epitácio Pessoa e na localidade onde hoje é o "Posto Chefão" o bonde entrava a esquerda em um "corte" entre duas barreira por cerca de 200 metros, indo sair na av.Rui Carneiro onde hoje é uma estação da Saelpa; ali se deslumbrava o mar, sentia-se a brisa marinha com o cheiro dos sargaços; o coração da meninada batia forte pensando no lanche e no mar.
1950 - Andar De Bonde No Ponto De Cem Réis
Em 1950, a capital paraibana estava em desenvolvimento urbano. O comércio cerrava suas portas às 11 horas para o almoço e os operários se deslocavam para seus lares para tomar banho e almoçar. Algumas casas não tinham água encanada e os operários dirigiam-se às "cacimbas" de banho, calçavam um tamanco de madeira, colocavam uma toalha sobre o pescoço, sem camisa, e ali tomavam uma "talagada" de cana, pagando pelo banho apenas um tostão.
A maioria das casas tinham poucos metros de frente com grande profundidade destinada ao quintal, onde se criava animais e aves e plantava-se algumas fruteiras. Era uma fortuna solta, uma riqueza vegetal. Era uma cidade sem prédios de 20 ou 30 andares; cidade pequena, sem tráfego e sem congestionamento.
As mocinhas da elite estudavam em colégios de freiras, onde eram preparadas para o casamento. Lourdinas, Colégio das Neves, e Sagrada Família eram as três instituições existentes e somente a primeira continua em atividade.
As linhas de bonde percorriam os bairros da cidade - Tambiá, Mandacaru, Trincheiras, Jaguaribe, Cruz das Almas (assim era escrito na época e hoje Bairro de Cruz das Armas) e Oitizeiro. Os sinais de parada eram assinalados com uma pintura de faixa branca nos postes elétricos.
Andava-se cerca de alguns metros para "tomar o bonde" e, nos bairros proletariados, como Cruz das Almas e Mandacaru, ele vinha puxando um reboque - era um bonde menorzinho, cuja passagem era mais "barata" a metade do preço -, os assentos do reboque eram na lateral e podia-se transportar volumes (balaios, caixas e pacotes, exceto aninais).
O bonde na realidade era o principal meio de transporte. Havia o motorneiro, o condutor e o fiscal e todos usavam uma farda azul marinho com botões dourados - posteriormente a farda mudou para tecido gabardine. O motorneiro conduzia o bonde elétrico e em determinado entroncamento ele deslocava a agulha com uma alavanca de ferro (cerca de um metro) e virava o curso para a direita ou para a esquerda. Quando, no terminal da linha férrea, o bonde parava, desciam todos os passageiros e invertia-se os encostos dos bancos em 180 graus. O motorneiro trocava a boleia e regressava. Quando chovia, puxava-se uma cortina de lonita, algumas vezes a composição deslizava nos locais de subida (ladeira) e era necessário colocar areia nos trilhos. Em outras ocasiões, grupos de rapazes esfregavam sabão nos trilhos em locais de subida e o bonde deslizava e descia causando pânico nos usuários.
- O condutor
A palavra condutor significa "aquele que guia ou dirige". No bonde ele era o cobrador (o trocador de hoje) e usava uma bolsa de couro a tiracolo com três divisões, para facilitar o troco. O fiscal tinha como função contar o número de passageiros e acionar uma registradora, presa ao alto.
- Parada e partida
Ao alto, no teto interno, existiam duas tiras de couro, uma para solicitar parada (usuário) e a outra para o fiscal fazer registro.Após uma parada, o fiscal ou o condutor verificava se podia dar partida e acionava o cordel, soando uma campainha para avisar ao motorneiro. Este por sua vez, acionava uma outra, com o pé direito, para avisar que estava de partida.
- Reclame
Na parte interna ou seja no teto colocavam reclame ou anúncio (o que vale dizer hoje publicidade) de Biotônico Fontoura, Xarope Capivarol, Emulsão de Scott , a Saúde da Mulher.
Fonte: Arion Farias
Historiador e professor universitário
Publicado no jornal O Norte
Resgate
Reconstruindo a história.


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