quinta-feira, 13 de junho de 2013

Memórias Da Vida Em Sobrados E Casarões

Os casarões

No alvorecer do século passado na Paraíba era status residir em casarões e sobrados, a semelhança de hoje em apartamentos de cobertura no Bessa.

As mulheres viviam confinadas às camarinhas e acreditavam que os raios solares afetavam a saúde.

E o contato com o mundo exterior se limitava às saídas para as igrejas acompanhadas com algum parente ou as criadas. Uma vez por mês as Via-Sacra, em cujas oportunidades as jovens entreolhavam os rapazes.

As igrejas não possuíam bancos coletivos e cada família possuía suas cadeiras, com genuflexório almofadado. Nos períodos das trocas de olhares, se comunicavam com formas gestuais discretos, pois tudo era sob a vigilância familiar. Gestos como deixar cair o lenço e passar a mão por sobre a cabeça eram formas de comunicação.

A inexistência dos meios lúdicos e as mulheres sem liberdade, as únicas diversões eram o cinema mudo em cujos salões um pianista executava músicas de acordo com as cenas, na maioria das vezes cenas cômicas. Outra diversão aos sábados e domingos eram as retretas nas praças Comendador Felizardo, hoje Praça João Pessoa ou na Praça Venâncio Neiva, ambas com coretos onde as bandas de músicas sob a direção de três famosos maestros conterrâneos, como  Camilo Ribeiro, Pompilo, Abdon Milanes, executavam hinos polcas, dobrados e valsas, a partir das 18 h até às 21 h e a sociedade comparecia e os jovens faziam o "corso" (passeios caminhando paralelamente) entre as alamedas, rapazes e moças, indo e vindo. Era um ambiente romântico e socializado. Essa prática durou até 1950.  O historiador Arion Farias juntamente com o escritor José Octávio de Arruda Mello, Dr.Wellingto Aguiar, o médico Jacinto Medeiros, o Conselheiro Pompéu Maroja e outros hoje setentões, com gravata e paletó, flertavam as garotas com vestidos de organdi em mangas fofas e laço do mesmo tecido ajustado à parte posterior. Vale salientar que na década de 50, as jovens ainda não usavam sapato alto.

- Marcas do cotidiano

Nas primeiras décadas do século passado, burguesia e aristocracia residiam no centro da cidade em casarões e sobrados avarandados ou abalcoados. As casa térreas tinham o patamar alto (piso) a fim de resguardar a família em contato com a rua e a proteção da privacidade.

Os balcões tinham saliências, além da parede, em ferro batido e chumbado e com sustentáculos por "cachorros" (peça trabalhada em pedra calcária e incrustada abaixo da varanda).

A importância da varanda era "ver a rua passar" e, por qualquer motivo, corria-se para a mesma. Quando se ouviam um "pregão" do verdureiro, leiteiro ou o pãozeiro  se debruçavam inclinando o busto no parapeito das mesmas, além de encostar o antebraço à altura do cotovelo. Isso provocava uma calosidade local.

Nas épocas de festejos ou desfile os balcões serviam de palanque.

Em 1914, surgiram os bondes elétricos e as residências em que ocorriam o "ponto de parada" ocorria a valorização das mesmas.

Fonte: Arion Farias
Historiador e professor universitário
Publicado no jornal O Norte
Coluna histórica
Reconstruindo a História.

Nenhum comentário:

Postar um comentário