segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Onaldo Queiroga - Eita Saudade!

Dominguinhos
um conto-uma crônica

Como é rápido o tempo. Parece que foi ontem que nos despedimos de Dominguinhos. Um ano de lembranças e de eternas saudades. É impressionante! Não precisamos ouvir o som de sua sanfona ou a voz que acalmava nosso espírito para sentir sua presença.

Era mortal e, como tal, incorria em erros. Mas, o seu jeito de ser, sua simplicidade, sua paciência e sua bondade estavam acima de qualquer falha que tenha cometido durante sua passagem por essa vida. Dominguinhos era uma nascente de coisas boas. Encontrá-lo era sempre sinônimo de vivenciar momentos de paz e de beber na verdadeira cultura nordestina. Homem de poucas palavras, contudo, seu olhar e suas atitudes diziam mais do que qualquer fala. Com  a sanfona no peito, era príncipe dos acordes. O som aflorava com uma suavidade inigualável, tanto que todos ficavam silentes, ouvindo a majestade dedilhar a pureza da musicalidade.

O filho do baião era autodidata. A genialidade fazia com que sua capacidade artística ultrapassasse os umbrais da música regional nordestina. Jamais poderá ser visto como um artista exclusivamente atrelado ao mundo do baião, do forró e do xote. Seu instrumento passeava por muitos ritmos, e com uma qualidade que chamava a atenção. Quando abria a sanfona, acompanhava e criava músicas como ninguém. Foi assim até o último instante de sua lucidez. Apesar da sua versatilidade, de sua habilidade e de ser um artista reconhecido mundialmente, ele não cansava de render homenagens ao seu pai musical, Luiz "Lua" Gonzaga. Uma demonstração de humildade e reverência ao seu mestre maior.

Toda estrada que corta o Nordeste, que atravessa o País, tem o rastro das sandálias de Dominguinhos. Por elas, ele viveu sua vida musical itinerante e descobriu que: "Amigos a gente encontra/ O mundo não é só aqui/Repare naquela estrada/ Que distância nos levará/ As coisas que eu tenho aqui/ Na certa terei por lá..." Em cada curva dessas veredas ainda ecoam suas canções.

Quando vejo uma sanfona, logo me vem a recordação. Era dia 13 de dezembro de 2012., Parque Asa Branca, Exu. Foi naquela noite do centenário do Gonzagão que o vi pela última vez.Chegou com Paulo Wanderley. Olhei para ele, e disse - "Dominguinhos, todas as vezes que te vejo, você me transmite uma paz enorme". Com um sorriso franco e com uma voz mansa, respondeu: - "Doutor, eu sou apenas um sanfoneiro". Subiu no palco, abriu a sanfona e cantou com João Silva e Taísa. Ainda o ouço dizendo ao controlador da mesa de som: - "Bote uma besteirinha de sanfona, um tostãozinho só". Eita saudade! Viva Dominguinhos.

Onaldo Queiroga é juiz de Direito.

Publicada no jornal Correio da Paraíba
   

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