Cleuza Sacardo Carlos Drummond de Andrade
Somos aquela geração que não voltará mais.
Crescemos com os sapatos sujos de terra, os joelhos ralados e o coração apressado —
não para mexer no celular, mas para terminar o lanche e correr para a rua, onde a maior expectativa era uma bola e alguns amigos.
Éramos os que voltavam da escola a pé, falando alto ou apenas sonhando em silêncio, com a cabeça já no próximo jogo, na nova aventura, entre um buraco cavado na areia e um segredo cochichado atrás do muro.
Um graveto virava espada, uma poça d’água se transformava em mar.
Nossos tesouros eram bolinhas de gude, figurinhas, barquinhos de papel.
E o céu era o nosso único limite.
Não tínhamos backup — apenas lembranças na memória e nos negativos fotográficos.
As fotos se tocavam, tinham cheiro, eram guardadas em caixas —
junto com cartas escritas à mão, postais dos avós, e desenhos coloridos que os pais guardavam como relíquias.
Chamávamos de “mãe” quem cuidava das nossas febres, e de “pai” quem nos ensinava a andar de bicicleta.
Outros nomes não eram necessários.
À noite, debaixo das cobertas, sussurrávamos para o irmão ou irmã na cama ao lado,
rindo por bobagens,
com medo que algum adulto ouvisse e calasse aquele mundinho feito de cumplicidade.
Essa geração está se afastando devagar, como uma foto que vai perdendo a cor,
mas que ninguém tem coragem de jogar fora.
Estamos partindo em silêncio, levando uma bagagem invisível:
o som das risadas na rua,
o cheiro do pão quente,
as corridas sem destino
e aquela liberdade que nunca soube o que era uma notificação.
Fomos crianças numa época em que ainda se podia ser.
E talvez, essa tenha sido nossa maior sorte.

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