quinta-feira, 17 de julho de 2025

Somos aquela geração que não voltará mais.




Cleuza Sacardo Carlos Drummond de Andrade

Somos aquela geração que não voltará mais.

Crescemos com os sapatos sujos de terra, os joelhos ralados e o coração apressado —
não para mexer no celular, mas para terminar o lanche e correr para a rua, onde a maior expectativa era uma bola e alguns amigos.

Éramos os que voltavam da escola a pé, falando alto ou apenas sonhando em silêncio, com a cabeça já no próximo jogo, na nova aventura, entre um buraco cavado na areia e um segredo cochichado atrás do muro.

Um graveto virava espada, uma poça d’água se transformava em mar.

Nossos tesouros eram bolinhas de gude, figurinhas, barquinhos de papel.

E o céu era o nosso único limite.

Não tínhamos backup — apenas lembranças na memória e nos negativos fotográficos.

As fotos se tocavam, tinham cheiro, eram guardadas em caixas —
junto com cartas escritas à mão, postais dos avós, e desenhos coloridos que os pais guardavam como relíquias.

Chamávamos de “mãe” quem cuidava das nossas febres, e de “pai” quem nos ensinava a andar de bicicleta.

Outros nomes não eram necessários.

À noite, debaixo das cobertas, sussurrávamos para o irmão ou irmã na cama ao lado,
rindo por bobagens,
com medo que algum adulto ouvisse e calasse aquele mundinho feito de cumplicidade.

Essa geração está se afastando devagar, como uma foto que vai perdendo a cor,
mas que ninguém tem coragem de jogar fora.

Estamos partindo em silêncio, levando uma bagagem invisível:

o som das risadas na rua,

o cheiro do pão quente,

as corridas sem destino

e aquela liberdade que nunca soube o que era uma notificação.

Fomos crianças numa época em que ainda se podia ser.

E talvez, essa tenha sido nossa maior sorte.


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