segunda-feira, 25 de agosto de 2025

Há um medo que poucos se atrevem a falar


Selma Oliveira 
Amadurecer entre amigos

.Há um medo que poucos se atrevem a falar, mas que todos nós carregamos dentro de nós. 

Não tem nada a ver com rugas, bengala ou solidão. 

É esse outro medo: 

o de envelhecer em um corpo que já não responde como antes. 

Tememos não conseguir levantar-nos sem ajuda,

ir à casa de banho sozinhas, 

depender de outros. 

Às vezes, em silêncio, reflito sobre o que acontecerá se um dia eu não conseguir sozinha. 

Se a minha mão treme, 

os pincéis escapam, 

a memória prega-me más passadas e esqueço-me do café fervendo, 

os nomes ou até mesmo quem sou. 

Não desejo que me olhem com pena, mas sim com respeito. 

Mesmo que o corpo se apague lentamente, a alma permanece viva e clara. 

Ser mulher, corajosa e digna não desaparece só porque o corpo deixa de obedecer. 

No entanto, dói ver os idosos serem tratados como atrapalhados ou como crianças desajeitadas. 

Isso também é um medo: 

não só depender, mas ser visto como um fardo. 

Por isso, enquanto eu posso, 

eu me levanto, 

preparo meu café, 

seco minhas lágrimas, 

dou um abraço e repito a mim mesma que ainda sou valiosa. 

Se um dia eu não conseguir fazer sozinha, 

quero que quem cuida de mim saiba. 

Não procuro compaixão, mas amor sem dor, com respeito. 

E se chegar a hora de depender de alguém, 

que segure minha mão sem me fazer sentir que valho menos. 

Porque velha sim, mas vazia ou incapaz, nunca.
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DA
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Foto da Web

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