Selma Oliveira
Amadurecer entre amigos
.Há um medo que poucos se atrevem a falar, mas que todos nós carregamos dentro de nós.
Não tem nada a ver com rugas, bengala ou solidão.
É esse outro medo:
o de envelhecer em um corpo que já não responde como antes.
Tememos não conseguir levantar-nos sem ajuda,
ir à casa de banho sozinhas,
depender de outros.
Às vezes, em silêncio, reflito sobre o que acontecerá se um dia eu não conseguir sozinha.
Se a minha mão treme,
os pincéis escapam,
a memória prega-me más passadas e esqueço-me do café fervendo,
os nomes ou até mesmo quem sou.
Não desejo que me olhem com pena, mas sim com respeito.
Mesmo que o corpo se apague lentamente, a alma permanece viva e clara.
Ser mulher, corajosa e digna não desaparece só porque o corpo deixa de obedecer.
No entanto, dói ver os idosos serem tratados como atrapalhados ou como crianças desajeitadas.
Isso também é um medo:
não só depender, mas ser visto como um fardo.
Por isso, enquanto eu posso,
eu me levanto,
preparo meu café,
seco minhas lágrimas,
dou um abraço e repito a mim mesma que ainda sou valiosa.
Se um dia eu não conseguir fazer sozinha,
quero que quem cuida de mim saiba.
Não procuro compaixão, mas amor sem dor, com respeito.
E se chegar a hora de depender de alguém,
que segure minha mão sem me fazer sentir que valho menos.
Porque velha sim, mas vazia ou incapaz, nunca.
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