
Um vento na ilha
Não é a pele que me denuncia, mas antes o tempo que me devolve um espelho mais honesto.
Envelheço nos gestos lentos, na necessidade de escolher melhor as batalhas, na recusa de correr atrás do que já não me chama.
Envelheço na precisão: digo menos, falho menos, perco menos tempo com o ruído que me cansa.
Mas, ao mesmo tempo, há uma juventude nova que se abre por dentro, uma espécie de claridade que não pede aprovação.
Sinto-me mais jovem agora que desaprendi a impressionar; o corpo, mesmo com os seus avisos, voltou a ser casa e não vitrina.
Há dias em que acordo com uma alegria sem causa — não a euforia dos começos, mas a serenidade dos que já não precisam de começar para existir.
A juventude que me visita não é feita de velocidade, mas de espaço.
É poder ficar. É escolher ficar.
Antes, eu queria ser visto.
Hoje, quero ver.
Antes, eu acumulava promessas.
Hoje, reconheço limites e isso alarga-me.
O paradoxo é este: quanto mais o calendário pesa, mais leve se torna a forma como habito as horas. que não faz espetáculo, mas aquece.
A verdade é que envelheço por fora, sim, mas por dentro estou finalmente a aprender a viver em paz comigo mesmo.
José Micard Teixeira.
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