segunda-feira, 17 de junho de 2013

Como Era Uma Lapinha, Cordão Azul E Encarnado, O Anjo, A Mestra E A Contra-Mestra; E As Jornadas

O Presépio

A lapinha é o festejo lúdico com caráter religioso, folguedo de participação exclusivamente feminino.

As comemorações iam do início do mês de dezembro à 6 de janeiro no Dia de Reis.

Os preparativos começavam no mês de novembro, com os ensaios das cantorias e dos passos coreográficos das pastoras participantes, principalmente das novatas que nunca haviam cantado e dançado.

O grupo constava da Mestra, Contra-Mestra, Diana, Açucena, Cigana, a Libertina e o Anjo. A libertina, essa estranha denominação dada a uma das pastoras, será talvez uma antevisão de Maria Madalena. Terminado os ensaios, a segunda etapa era a preparação do Presépio.

As lapinhas eram armadas nos bairros, tanto nas casas dos pobres, como das pessoas abastadas da classe média alta, em geral, na sala da casa, terraço ou na rua. Quando era apresentada na parte externa, armava-se um patamar de madeira a uma altura de 1 metro, medindo 3 x 3 metros, com as laterais protegidas por um corrimão e a frente enfeitada com palmas de palmeiras entrelaçadas e enfeitadas de um lado azul e o outro de encarnado.

Convém salientar que o acompanhamento das jornadas e as toadas das participantes eram com conjunto de músicos; dois cavaquinhos, dois violões e algum instrumento de sopro.

- A Lapinha e o presépio

A lapinha era uma abóbada arranjada com galhos e folhagem de pitangueira ou outra, em formato de arco, com enfeites de papel, apoiada em um tablado ou uma mesa.

O presépio era adornado com um painel relembrando uma gruta, o nascimento do Salvador Jesus.A gruta era adornada com estrelas de metal ou papel, com fios de cordões, representando raios de luz (Espírito Santo) pairando sobre os personagens das imagens de São José, Maria e o Menino Jesus na manjedouras, além de bois, camelos, ovelhas e os 3 Reis Magos; no global dando um aspecto de Jerusalém.

- As Pastoras e as jornadas

Nos idos de 1950, no bairro de Jaguaribe, havia festejos de muitas lapinhas, algumas ficaram famosas na lembrança dos moradores. A entrada era franqueada aos visitantes 
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Quanto às jornadas, as pastoras vestiam-se de papel crepom com a cor do seu cordão azul ou encarnado; a abertura era feita pelo "Anjo", cuja indumentária branca entrava dançando com um maracá, cantando: "Eu sou o lindo Anjo/Com destino a passear/ Que hoje a noite é nossa/Para brincar/... em seguida, entrava a Mestra cantando:"Boa noite a todos/E minhas senhoras deste lugar/ Eu sou a Mestra desta lapinha/ E venho a todos cumprimentar.E em seguida todas tocando o maracá repetiam a estrofe.

Todas adentravam cantando com passos coreográficos-lirico-religioso; em seguida do lado oposto, saía a Contra-Mestra com sua toada; convém salientar que os passos das danças eram marcados com os maracás e o braço esquerdo sobre a cintura.

As ofertas dos ramalhetes

As jovens durante o dia preparavam alguns bouquet de flores com arranjos florais e a noite ofertavam aos circunstantes, em geral escolhia-se pessoas de boas condições financeiras e ofertavam com o refrão: "O sr.Fulano queira aceitar/Esse ramalhete que a Contra-Mestra dar". E fazia  a entrega, o público aplaudia e o ofertado correspondia com uma cédula de 10 mil reis, ornando a blusa da pastora; o importante era a mídia local com o nome do ofertado.

Algumas participantes de lapinha da época, hoje são mães e avós, a ex-vereadora e celebridade de nossa sociedade Creusa Pires, dançava lapinha sob olhar do seu genitor Manoel dos Anjos, um poeta, vestido de branco e suspensório. As irmãs Miselda e Teresinha Machado, Adair Pinto, as irmãs Berenice e Lucia, e Carmem Farias; esta última era tida como a mais bonita do bairro de Jaguaribe, com suas tranças sobre o busto. 

As Lapinhas funcionavam nas quartas e sábados das 7 horas às 22 horas e o queima era próximo ao Dia de Reis.

 Fonte: Arion Farias
Historiador e professor universitário

Publicado no jornal O Norte
Resgate
Reconstruindo a história

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