Um conto - uma crônica
O bom senso nos esclarece que é totalmente inútil maldizer a ignorância daqueles que procuram nos prejudicar.
Em primeiro lugar porque a pedagogia da reprovação é um recurso equivocado e inócuo.
O mundo não se modifica por causa de nossas reclamações.
Ninguém se sente estimulado a mudar por ter sido castigado por palavras rudes ou por agressões físicas.
Ao contrário, os vícios e fraquezas podem ser fixados no caráter por repreensões violentas.
Usar de cortesia e gentileza para com todos, a despeito do modo como somos tratados, é colocar brasas na mente do algoz.
Não é preciso afagar aqueles que nos desejam mal, é necessário apenas que os tratemos bem, seguindo o adágio persa que diz:
"com os amigos sê carinhoso, com os inimigos sê cortês."
Alguém que não sabe que o mal que pratica lhe trará enormes prejuízos futuros não está necessitado de condenações, mas de amparo...
É certo que, algumas vezes não podemos ajudar os semelhantes mais empedernidos no mal através da argumentação, por mais lúcida que seja, pois o auxilio verbal não lhes abrirá o coração.
Contudo, mesmo diante da impossibilidade do diálogo amigo, ainda podemos perdoar e amar.
Diante da aspereza e da resistência do irmão equivocado, a compreensão da sua condição e a exemplificação do bem através de atitudes práticas é o melhor caminho...
Já dizia o pobrezinho de Assis:
"As palavras convencem, os exemplos arrastam..."
O raio de luz não se queixa do mau cheiro do pântano, mas vai até ele, o ilumina e parte em silenciosa indulgência...
Um inocente só sofre agressões e padecimentos em decorrência do sacrifício voluntário em benefício do progresso moral dos seus semelhantes, tão somente nessa circunstancias.
Não é esse, porém, o caso de todos os que reclamam justiça diante de um desfavor sofrido.
A perseverança no bem e a prática da caridade são os fatores preponderantes para a construção de um futuro livre de consequências dolorosas.
A bondade e o amor são também os pressupostos básicos para a superação das atribuições que enfrentamos no agora com vistas à perfeição e à felicidade...
Por que condenar o semelhante, se um dia fomos capazes das mesmas grosserias que hoje censuramos?
Não se trata de aprovar o homem iludido em seu erro, mas sim de compreendê-lo, de perdoá-lo e de contribuir para a sua recuperação, seja através da interseção direta, ou seja, mao menos, por meio da oração, rogando pelo seu esclarecimento espiritual...
O perdão incondicional é ainda a panacéia espiritual que nos descerra a senda do crescimento moral...
Caminhar o dobro ou o triplo do que pediu o nosso algoz,
dar a outra face e tolerar as imperfeições alheias,
mantendo sempre a nossa dignidade e dando o testemunho da justiça,
é o modo mais correto de arrebatar novos colaboradores para a seara do bem e
de combater o mal no mundo.
Quando limpamos o nosso coração do rancor, do ódio e da mágoa,
impedimos que esses sentimentos negativos intoxiquem a nossa interioridade e poluam o mundo.
Como disse Dom Hélder Câmara, " Há pessoas que são como a cana-de-açúcar:
mesmo postas na moenda e reduzidas a bagaço, só sabem oferecer doçura."
O resseentimento é uma terrível mácula provocada pela incapaciadade de perdoar e de esquecer.
Se permitirmos que ele se aloje em nossa alma, estaremos nos condenando a doenças psíquicas e físicas a curto, médio ou longo prazo,
o que se constituirá, por fim, numa forma sofisticada de suicídio inconsciente.
Por isso, a divina poesia de Saadi sugere uma atitude análoga à da encantadora legenda de Dom Hélder:"Sê como o sândalo, que perfuma o machado que o fere",
que é confirmada tanto pela sábia definição de perdão de Mark Twain:
"Perdão é o perfume que a violeta deixou no sapato que a pisou",
quanto pela doce reflexão de Tagore:
"O chão recebe insultos e os devolve flores..."
Emerson Barros de Aguiar.
Jornalista e filósofo.
Publicada no Jornal O Norte.
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