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quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Luiz Augusto Crispim -Chuvas Das Almas





Chuvas com vontade de ficar estas que cruzaram a fronteira do século, alagando as férias dos meninos empoçando quase todo o nosso verão.

Difícil a previsão do tempo que há de fazer sobre as nossas vidas daqui por diante. Nem no regime de chuvas se pode mais confiar?

Ora, direis, ouvir a chuva - como se faria a uma entidade oracular?

E por que não? Sim, porque as chuvas é que fazem o curso do nosso viver. Delas existem que só servem de pretexto para açoitar amores na cama, mantendo-os na cama mantendo-os homiziados debaixo dos lençóis, até o meio-dia, enquanto a biqueira canta seus estribilhos invernais.

São muitas as formas de chover nos roçados da vida.

Tempos confiáveis eram aqueles, em que as águas de março marcejavam de verdade marejando a folhinha e nunca falhavam no horizonte.

Chuvas alcoviteiras, dessas de ciciar cumplicidades com o vento insidioso, vento voyeur, obsceno, a infiltrar-se pelos postigos e venezianas cerradas.

Outras, abrandadas pelo dorso de uma viração qualquer, são mais de assediar as vidraças e acometer a fantasia das pessoas, em arabescos intraduzíveis sobre a superfície do vidro, que deixa passar a luminosidade dos amores que ficaram lá fora. Tamborilar de chuva para ser ouvido ao cair da tarde, se possível em contraponto ao Bolero de Tavel.

Seja lá como for, chuvas de janeiro não convencem a ninguém.

São águas de pouco ou nenhum convencimento. Sempre volúveis como todos os amores de verão...

As tormentas de março merecem mais confiança. São elas que inspiram os poetas de almas lavadas, como Paulo Mendes Campos, assinando versos assim:

"No azul do azul
Lavado das chuvas..."

É nos azuis assim que as chuvas fazem morada.

Tomo o chuviscar destes dias inaugurais do ano como tímidos ensaios das nuvens com vontade de chorar. Devem ter lá os seus motivos, já que presenciam tanta coisa do alto de suas jornadas por esses caminhos estrelados.

Deste meu canto de praia, fico a esperar pelas chuvas de verdade, aquelas que encharcam as saudades e os desejos. Chuvas de molhar os sentimentos.

Luiz Augusto Crispim.
Escritor, jornalista e advogado.

A Dama da Tarde.
Página 15 e 16.

Luiz Augusto Crispim - A Cara Da Cidade


Pode ser que o amigo leitor ainda não tenha percebido certas mudanças operadas nesta amada cidade.Mudou a paisagem das ruas, é certo, assim como também mudaram as linhas das casas, o perfil das ruas desenhado em concreto, o recado dos muros garatujados com a mensagem dos grafiteiros deseducados pelo design do besteirol geral. Mudou, sim.

Mas reparando bem a fisionomia da cidade, a gente percebe que ela continua sendo a mesma das fotografias de Walfredo Rodrigues. A mesma que aparece no flagrante de Parreira, mostrando Peregrino de Carvalho no papel principal de herói-menino da consciência nacional.

As avenidas estão cheias de carros importados, as pessoas compram roupas novas, os edifícios mostram caras de Primeiro Mundo, mas a índole amolengada da pequenina Felipéia , é a mesma.

Não dá para notar?

Menos do que uma questão de aparência, quero mostrar o jeito de fazer as coisas da cidade, que me parece absolutamente o mesmo de 1585.

O que fazem os filhos de Nossa Senhora das Neves do alto desta colina abençoada por São Francisco, a filha de São Bento, crismada por São Pedro Gonçalves à beira do mangue do Sanhauá?

Nada.

Não tomem como desrespeito, que não é. Amo a cidade como qualquer filho da terra. Mas não posso dizer que sei da vocação do lugar.

Se pedirem a carteira de identidade da velha Parahyba, como certeza ela pedirá desculpas e provavelmente dirá que a esqueceu em casa. Qualquer cidade tem a sua. De Arapiraca, vendendo fumo de rolo na feira, a São Paulo vendendo de tudo no mundo.

João Pessoa vende contracheque de repartição pública. Em cada esquina você pode encontrar um agente administrativo livre do ponto, um assistente de gabinete de licença médica, um assessor especial retido na fonte...

Deve ser assim desde Martim Leitão.

Quer dizer : não mudou até aqui, nunca vai mudar. Pode crer.

Do alto daquele campanário de Nossa Senhora das Neves, você olha para o nascente e avista o verde a caminho do mar e da preguiça. Ao poente, o verde e a preguiça já se deitam juntos num só abraço, aproveitando a palha da cana.

Quem pode dar jeito nisso? Só a história, por certo, essa velha professora de palmatória na mão. Mas, como na escola moderna já não existem mais professoras desse modelo, na vida já não se faz mais histórias como antigamente...

É por isso que a cidade não me parece mudada.

E não tem cara de que tão cedo vai mudar, pode crer.

Luiz Augusto Crispim.
Escritor, jornalista e advogado.

A Dama da Tarde.
Página 19 e 20.

Luiz Augusto Crispim - Calendas De Mim


um conto-um,a crônica
Caíram as folhas nos jardins, e na folhinha da sala o ano já começa a descorar. Será mais um ano sem frutos, por certo. Poucas chuvas, quem sabe, e as pragas de sempre. Passado o inverno, em brancas nuvens passado, como de resto a vida inteira que passa, coberta de um cinza outonal, sem grandes esperanças de primavera.

A janela aberta para as quatro estações que passam indiferentes ao mundo estacionário cá dentro. E, no entanto, muita coisa mudou. O domingo no parque, como na canção. O ar carregado do cheiro de eucalipto e do canto das cigarras. Quase tudo transformado em sintético.

Nos jornais, os homens festejam os anos do pós-guerra, sem qualquer garantia de paz, convencidos de que podem praticar seus crimes hediondos como quem promete liquidações, seus genocídios periódicos, em módicas parcelas universais.

E o aeroporto trocou os Constelations do passado pelos jatos puros do Terceiro Milênio que gravitam pelos espaços interestelares da nossa imaginação, pousando suavemente no meio das hortaliças e dos pomares de Santa Rita, trazendo candidatos canonizados do Rio de Janeiro pelas asas fantásticas da Panair.

O aeroporto é o mesmo que via chegar nos bolsos dos paletós canetas esferográficas compradas no Largo do Machado, sonhos frustrados em Cascadura, virgindades recuperadas em clínicas do Botafogo, falsos brilhantes adquiridos na Rua da Alfândega e o ar vagamente blue, copiado dos frequentadores da Confeitaria Colombo.

Foi tudo tão rápido. O calendário despojado das folhas como as árvores em permanente estado de outono. Ficou a praia no vai-e-vem das ondas que são apenas a versão indecisa da vida, sitiada entre as origens e a morte pura, insossa à beira-mar.

Tudo tão quieto que a cidade parecia encantada. Refúgio de algum duende imaginoso, que se misturou conosco e aqui fez morada, quem sabe, fugindo de um amor fracassado nas regiões em que amam os duendos.

Porém os anos passaram como os alísios que roçam os taludes e as colinas da praia, as hastes dos gerânios dobraram sob o vento tardio da madrugada que encapela as vagas e desencanta as cidades mágicas da infância. E na manhã de um certo dia, em vez de odores almiscarados do alvorecer, das conchas e dos sargaços de tempos imemoriais, surgiram na areia os primeiros sinais de realidade, pois tudo aquilo que naufragara ao largo acabou sendo atirado para a terra, que passou a ser menos firme agora.

E afinal, não é bem pelo tempo que passou na janela. É somente pelos anos que ficaram retidos sobre estes móveis, junto com a poeira das crenças mais remotas e das lembranças mais desbotadas que agora rasgo as primeiras folhinhas do outono.

Luiz Augusto Crispim.
Escritor, jornalista e advogado.

A Dama da Tarde.
Página 17 e 18.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Luiz Augusto Crispim - A Cidade Proibida




Mais um assalto.

A cidade assume ares de metrópole exposta aos perigos da civilização.

Demorou um pouco, é verdade. Até que este lugar se tornasse perigoso como Chicago dos anos 30 ou 40 e o Rio de hoje em dia, foram precisos anos de abandono e de maus governos. Anos de costas viradas para os morros e as favelas, para os alagados e os cortiços.

A resposta é essa que aí está.

A todos esses anos de miséria consentida, a resposta vem pela boca das pistolas automáticas e pelas culatras dos fuzis que passam de um exército para outro. Dispensaram os soldados do exército constitucional, regular, fardado de verde-oliva e armaram essas legiões, essas centúrias, essas hostes de deserdados que nos mantêm como reféns em nossas próprias casas, em nosso próprios parques e avenidas.

Na verdade, é isto que nós somos.

Reféns do medo.

Não abandonamos os nossos muros altos, as nossas casamatas, os nossos cães de guerra, com medo do próximo ataque. Ninguém sabe de onde ele irá partir. Mas é certo que virá. Vivemos em estado de sítio, neste lugar vegetal que já foi um dia imenso sítio, de Tambiá a Trincheiras e de Tambaú ao Sanhauá.

Nas ruas, bandos armados montam suas emboscadas, arquitetam suas armadilhas.

Resistir, como?

Ameaçaram convocar os soldados que subissem aos morros e declarassem guerra aos traficantes, aos assaltantes, aos bandidos que vivem por lá. Mas a guerra não foi declarada e ninguém mais tem forças para resistir.

Estamos à beira da capitulação final. É fácil perceber.

Depois, não souberam guerrear. Não basta metralhar o primeiro miserável que aparecer na frente, com os bolsos cheios de papelotes de cocaína e cigarros de maconha. Não basta responder ao fogo pesado das Magnum e dos M-15 que vêm lá de cima.

É preciso saber libertar os reféns, assegurando oportunidades iguais para todos. Mas disso não se ouve falar. Enquanto não houver mais escolas, mais quadras de esportes, será sempre indispensável continuar construindo cada vez mais presídios neste país.

E continuaremos a perder a guerra, como se fossemos os Estados Unidos de uma América miserável, perdendo a guerra do Vietname.

Alguém precisa dizer alguma coisa urgentemente sobre isso, fora dos horários gratuidos da propaganda eleitoral.

Nós, os reféns, temos o direito de saber sobre o nosso destino.

Afinal, quem vai pagar o nosso resgate?

Luiz Augusto Crispim.
Escritor, jornalista e advogado.

A Dama da Tarde.
Página 21 e 22.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Luiz Augusto Crispim - Eu E A Chuva

Pelo visto, neste país, nem a Natureza obedece às suas próprias leis.

Aí está o inverno, que não me deixa mentir.

Aliás, para me expressar corretamente deveria eu ter dito, aí não está o inverno.

Quem sabe, por astúcia de El Nino, ausentou-se de vez da nossa paisagem urbana, depois de ter arribado dos campos sertanejos e mesmo dos brejos que até um certo tempo atrás deixavam-se inundar do aguaceiro que começava a correr das cabeceiras de março e escorria até à confluência dos meses de julho e agosto com a Festa das Neves.

Destas manhãs terminais de março, abro a janela e já encontro o Sol a aquecer-me os sentidos, as lembranças dos tempos em que meu pai obrigava a sair de capa de gabardina, guarda-chuva de nayon e galochas, como quem ia em formidável expedição rumo ao Colégio.

E não deixava de ser uma aventura.

A cidade lavada de insuspeitadas chuvas, revelava seus mistérios mais recônditos. Às seis da manhã. As casas ainda às escuras tinham de manter as luzes acesas, enquanto se preparavam a rotina da vida retomada ao alvorecer. Eram casa de porta-e-janela dando para a rua por onde nos esgueirávamos - eu e a chuva - cada qual com o seu mister. Eu a espreitar o interior visível das casas renascendo a cada manhã povoada de lindas mulheres que acabavam de se mudar para a minha rua; a chuva cobrindo os meus passos de sonhos que se desfaziam na enxurrada dos anos que haviam de descer junto comigo ladeira abaixo...

E lá ia eu, embrulhado na minha capa de gabardina. Eu e o meu destino, incapazes de descer a rua cantando na chuva.

E se eu tivesse de refazer o mesmo caminho, sem capa e sem guarda-chuva, desprotegido de tudo contra o mau tempo que faz na vida, depois de todos estes anos, afinal, que tipo de risco haveria de correr? É certo que o meu pai já não está por aqui para me reter à porta da rua com seus cuidados.

- Está levando a capa? E o guarda-chuva?

Não, já não levo capa, nem guarda-chuva. Também na vida, já não tenho mais precisão de uma coisa nem outra.

Até porque já nem chove mais sobre a vida que a gente leva rua abaixo, rua acima...

Guarda-chuva para quê?!

Só os chatos de todo gênero ainda andam de galochas. Ou será que também não andam mais?

Da minha janela, pois, a vista é seca e urbanamente árida, como acontece com qualquer cidade deste planeta água. Desconfio até que foram os homens que secaram, depois que murchou a última planta. E foram secando também as casas que um dia fizeram desabrochar diante da minha adolescência lindas mulheres que se espreguiçavam languidamente emolduradas por janelas perante as quais eu escorria junto com a chuva de todas as manhãs.

Os edifícios de apartamentos guardam pessoas tão diferentes. Como se cada uma delas fosse obrigada a deixar lá embaixo com o porteiro os sentimentos que só se cultivam em casas de porta-e-janela, feito vasos de gerânios que já não se usam mais.

Como se as pessoas que habitam esses abrigos de aço, de concreto e vidro brindado tivessem que despir nas casamatas da portaria sentimentos assim antigos, como galochas velhas que já não se usam mais.

Luiz Augusto Crispim.
Escritor, jornalista e advogado.

A Dama da Tarde.
Página 88 , 89 e 90.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Luiz Augusto Crispim - A Pátria ao Peito





um conto-uma crônica

No começo era a alegria. Um país alegre, chamado Brasil, feliz por si e por seu povo. Um país de contrastes que se completavam numa festa só, que se chamava Carnaval.

Depois, veio a política e fez dos homens gladiadores de uma arena só.

E o povo nunca mais conseguiu ser feliz.

Aos poucos, cada vez mais triste e infeliz, a terra foi secando, secando e os verdadeiros homens foram morrendo, a vegetação murchando, os rios estancando nas fontes e o peito da pátria rachando, como costumam rachar as telas das mulheres desamadas, cobertas de varizes, povoadas de filhos e despovoadas de seus machos.

Era um país sonhador.

Sonhava que podia ser maior nas aquarelas, nos sambas e nas manchetes do que nos textos escolares, nas estatísticas e nas contas bancárias a pagar a Deus e ao mundo.

Sonhava, porque era um país sonhador.

Era.

Depois, veio a dívida e, junto com ela, os credores, finalmente os números, a moeda falsa, a ruína.

E nunca mais ousaram sonhar neste país das alegorias em desfile nacional e das ilusões estendidas no varal.

Os mitos insepultos ainda vagaram pelas pistas a 300 quilômetros por hora. Mas também derrapavam com facilidade e acabaram morrendo nas curvas traiçoeiras.

Vez por outra, as recordações mais gratas viravam letras de canção.

"Vou te contar
Os olhos já não podem ver
Coisas que só o coração
Pode entender
Fundamental é mesmo o amor
É impossível ser feliz sozinho
Agora eu já sei
Da onda que se ergueu no mar
E das estrelas
Que esquecemos de contar
O amor se deixa surpreender
Enquanto a noite vem nos
envolver."

Surpreso, o amor deixou-se envolver pela noite, pelo silêncio das coisas irremediáveis, pelo vazio das ausências mais inconsoláveis.

E nunca mais foi possível abrir o mesmo sorriso, nem murmurar as mesmas palavras, nem recitar os mesmos versos.

Foram-se os homens dos regaços de suas mulheres.

Foram-se os poetas dos rastros das estrelas que sobravam da madrugada e se infiltravam pelas frestas dos barracos.

Foram-se os mitos dos cadernos encantados da infância.

Foram-se todos.

Ficamos nós, os órfãos das mulheres desamadas.

Restou esse talho da dor exposta em carne viva.

Foi tudo quanto restou.

Ah, se todos fossem iguais a você.

Luiz Augusto Crispim.
Escritor, jornalista e advogado.




A Dama da Tarde.
Página 86 e 87.

Luiz Augusto Crispim - Boas Novas


um conto-uma crônica
Houve temo em que as cidades sorriam. E o Ponto de Cem Réis era o lugar mais sorridente desta cidade.

Lembro-me de um gazeteiro que desfilava pela calçada do Paraíba Hotel, anunciando as manchetes que não estavam nos jornais que ele tinha para vender. Mas serviam para intitular as alegrias que se espalhavam melhor do que muita notícia cunhada pelas linotipos.

Motivos para sorrir não faltava. Tudo era novidade. E o progresso estava sempre a promover mais do que cumpria. A alegria era apenas uma questão de espera.

Durante anos, a Paraíba esperou pelos Caravelles que desbancaram os Constelations. Mas os jatos prometidos passavam por cima das nossas cabeças, lotados de sonhos que embarcavam no Recife e em Natal, deixando os paraibanos a ver navios...

O avião perdido, mas, nem por isso, as pessoas perdiam o sorriso. Todo mundo sorrindo de graça, ainda que a ver navios...

Nem isso. Porque, vez por outra, os navios também nos evitavam da mesma maneira que os aviões. Naquele tempo, diziam que Cabedelo vivia de mal com as nações amigas porque havia uma pedra no meio da barra, assim como havia uma pedra no caminho do poeta. E a Paraíba continuava sem grandes navegações.

Vivíamos assim, de grandes esperanças, a ver uns poucos navios e a sobreviver de suspeitas de que no ar há sempre algo mais do que simples aviões de carreira...

Suponho que foi isso que fez a Paraíba mais triste.

Duvido que alguém encontre motivos para encontrar a cidade sorrindo entre dois goles de café, no Ponto de Cem Réis. Hoje em dia, a gente só vive de notícia ruim.

- Vão acabar com a aposentadoria!
- O Governo quer demitir 500 mil!
- O agente financeiro vai tomar a casa da gente!
- Os salários vão atrasar...

Antigamente, a Paraíba vivia de esperar boas notícias. Os anos 60 foram todos de espera pelos Caravelles que nunca pousaram. Os anos 70 foram gastos na espera de um hotel que veio, afinal, mas que por pouco não se acabou e findou nele mesmo...

Os anos 80 frustraram a espera dos governantes e dos governados, que não esperavam a Constituição que hoje remendam com tanta pressa.

Seja como for, o sorriso empalideceu no rosto da cidade que um dia se chamou Parahyba. O dinheirinho curto, pago ligeiramente em dia, já não dá sequer para o cafezinho bem humorado, o que dirá da cervejinha bem acompanhada...

Sorrir de quê?

Repare você mesmo, quando cruzar a calçada do Paraíba Hotel, que tenta esboçar no branco novo do granito sofisticado uma espécie de sorriso, qual velha senhora a viver das lembranças dos bons tempos. Repare no carmim da casa antiga. Repare só. O toque da pintura não disfarça apenas as suas rugas. É a maneira de esconder as tristezas de todos nós.


Luiz Augusto Crispim.
Escritor, jornalista e advogado.


A Dama da Tarde.
Página 69 e 70.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Luiz Augusto Crispim - Milagres

Só um milagre nos salva desta vez - proclamam as cassandras da derrota nacional.

Pode ser.

Curioso, mas quase ninguém se dá conta dos milagres que nos cercam no correr da vida.

Ora, direis, milagres?

E por que não?

A sobrevivência consentida além-fronteiras das favelas deserdadas e dos grotões renegados e dos alagados esquecidos e das caatingas devastadas já não é um grandioso prodígio?

Nem todo milagre é apanhado em flagrante...

Há os que se ocultam nos disfarces da tarde e escapam aos olhos dos que não conhecem os encantos do amor. Como não sei rezar direito, peço a Deus por suas almas de pouca fé e nenhum amor.

E todo amor é milagroso. É capaz de curar todos os males deste mundo. E do outro também.

Portanto, perdoa os que não sabem amar, ó Pai.
Eles não sabem o que fazem.

Contanto que milagres não nos faltem jamais.

Eu mesmo, sem eles, não consigo viver.

Na hora primeira do perdão, assim como no minuto derradeiro de ser perdoado, não sei dos dois qual o maior milagre que vai sobreviver aos tempos sem fim.

Que venham, pois, os milagres. Desses discretos e imperceptíveis, anoitecidos nos sussurros da tarde e adormecidos na pele dos amantes ou daqueles outros que enchem a vista na superprodução da fé.

Não importa. Que venham os milagres.

Eles são vídeo-games de Deus.

Deste meu canto humilde, já encomendo o meu. Peço milagres de pouca monta. Não os quero assim tão fenomenais que não me permitam desfrutá-los na dimensão dos sentidos que já são prodigiosos por si mesmos.

Que Deus me conservasse o poder de enxergar a beleza que vem e que passa no doce caminho do mar.

Que Deus me garantisse ternura de mãos se encontrando em toques miraculosos de afagar.

Que Deus não me tirasse da boca esse gosto de fruta madura em feliz entardecer.

São milagres que me bastam.

São os milagres que peço a Deus por mim.

Amém.

Luiz Augusto Crispim.
Escritor, jornalista e advogado.

A Dama da Tarde.
Páginas 104 e 105.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Luiz Augusto Crispim - A Menina de Alma Azul



um conto-uma crônica
Quer dizer que eu nunca mais vou ver o meu Azulzinho? - perguntou a menina, observando o pai que abria a cancela da gaiola.
Azulzinho era, na verdade, um azulão vestido de um azul da cor da alma da criança, mas que ficava ainda mais azul na hora da partida.

A síndica, uma infeliz mulher de olhos negros e coração mais negro ainda, havia proibido a presença de qualquer espécie de animal no prédio. Era preciso obedecer à ordem.

- Quer saber de uma coisa, filha, para ele vai ser até melhor, pois só assim ganha a liberdade - tentou argumentar o pai, escancarando a portinhola de arame.

Mas a menina nao hesitou:

- E eu, pai? Se Azulzinho for embora, eu vou com ele...

Desconcertado, o homem não soube o que responder, e ficou observando os movimentos do passarinho que saltitava de um lado para o outro da gaiola, fazendo respingar água sobre o seu rosto. Finalmente, o pequeno inquilino azul resolveu assomar à porta e, desconfiado, encarou o mundo que o esperava lá fora.

Primeiro, considerou com um certo ar crítico o clima da manhã desenhada na imagem do sol de verão, pássaro de fogo evadido de alguma gaiola provavelmente pendurada nas estrelas.

Depois, avaliou rapidamente os confins do Cabo Branco e, em seguida, a enseada do Bessa, antes de se lançar no espaço, já em estado de liberdade. Em vôo breve descreveu um círculo sobre a cabeça lourinha da menina, num gesto de despedida emplumada e voltou a pousar na cumeeira da gaiola.

O pai enxugava o rosto, fingindo que era água a lágrima que deveras rolava e a menina exultou.:

-Pai, o Azulzinho não quer ir embora.

De fato, na avaliação do passarinho, os infinitos do céu engastados na paisagem do Atlàntico sobravam debaixo de suas asas. Não precisava de tanto assim. Por isso, voltou. Como a porta ficar aberta, tornou a entrar.

E tornou a cantar o azulão, deixando ainda mais azul a alma da menina.

Depois disso, ficou morando em liberdade na varanda cor-de-rosa da menina, em companhia de outros pássaros de todas as cores e de todos os cantos, que vinham bicar a comida na sua mão.

Incapaz de modular a mais singela das notas, a síndica triste e pesada recolher suas asas impróprias para o vôo e, desviando os olhos impróprios para os sonhos, desistiu de proibir que os passarinhos frequentassem a varanda cor-de-rosa da meninazinha de alma azul.

Luiz Augusto Crispim.
Escritor, jornalista e advogado.

A Dama da Tarde.
Páginas 73 e 74