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domingo, 3 de abril de 2011

Emerson Barros de Aguiar - Coração Liberto - Portas E Janelas Que Se Abrem




um conto - uma crônica

O neozelandês Mark Inglis, de 47 anos, perdeu suas pernas numa tentativa de escalar o Mont Cook, a motanha mais alta do seu país.Teve de passar por um duro período de readaptação depois de seu dramático resgate. Acostumar-se com suas "novas pernas" não foi fácil. Mas ele superou o desafio e voltou a fazer o que sempre gostou: praticar esportes.

Assim que se recuperou, Mark ganhou uma medália de prata na Paraolimpíadas de Sidney 2000. Logo após, retomou o montanhismo, conquistando o cume do Cho Oyo, o sexto mais alto do mundo, no Himalaya, entre vários outros feitos.

Atualmente, Mark Inglis está subindo o Everest, a ontanha mais alta do planeta, situada no Nepal, chegando ao campo base no final da primeira semana de abril de 2006 e prosseguindo por mais dois meses até chegar ao topo. Sorrindo de dentro do seu iglu térmico de lona, e a caminho do teto do mundo. Mark diz, sentado com suas pernas mecânicas: "Esta subida é um verdadeiro desafio e espero que sirva para que as pessoas vejam oportunidades e não problemas". Mark hoje é conhecido em todo o mundo e celebrado como um herói em seu país, por causa do seu poder de superação e de iniciativa. Um ícone humano.

Uma porta se fechou para Mark quando suas pernas se foram, necrosadas pelo frio, mas várias janelas foram se abrindo depois, com a ajuda da sua boa vontade, coragem e determinação em perseguir os seus sonhos.

HÁ uma infeliz expressão popular que diz: " Cortaram-me as pernas". Mas, na verdade, ninguém tem esse poder. Quando alguém nos usurpa alguma posição ou nos rouba algum recurso, este alguém não nos está sabotando ou derrotando, por pior que sejam as suas intenções e por maior que seja a sua maldade ou ignorância. Só nós mesmos temos o poder de nos sabotarmos.Deus é uma mão estendida sempre a nos amparar por onde quer que sigamos, indiferentemente do tipo de caminho no qual somos lançados. Quando nos mantemos confiantes, podemos sempre esperar o melhor.

No maravilhoso romance "Ben-Hur", do General Lew Wallace, levado duas vezes ao cinema, em 1925 e 1959, Messala acredita estar destruindo o ex-amigo Bem-Hur, enviando-o para as galeras romanas, onde poucos sobreviviam mais do que um ano. Na verdade, fazendo isso, deu-lhe a chance de ser adotado, como filho, por um cônsul romano.

Os exemplos de vitórias, sempre que mantemos a fé em Deus e na vida, são inúmeros, tanto na ficção quanto na realidade. Quando estamos em sintonia com a força Divina em nosso coração, sentimos que nos bastamos para sermos felizes, que temos a dádiva da vida e que devemos celebrá-la com alegria e que nunca estamos sozinhos. Uma vez que Deus está conosco, sempre há um anjo nos vigiando.

Quando temos amor e paz no coração e uma profunda confiança do projeto de Deus para a nossa vida, ninguém pode realmente "puxar nosso tapete".

Mas não basta crer apenas. Precisamos também aprender a compreender e a perdoar aqueles que traíram a nossa confiança, que nos feriram, que nos insultaram, que nos desprezaram, que mentiram para nós, abusando do nosso afeto, ternura e confiança. Precisamos aprender a esquecer e banir do nosso coração qualquer desejo de revide, de revolta. E tornamo-nos capazes de desejar-lhes o bem, de orar por eles e de ajudá-los, nem que seja à distância e anonimamente, para que a lâmpada do amor se acenda em nosso coração.

Que o nosso coração despedaçado e que a nossa alma humilhada, floresçam como a vitória régia, pura e linda, indiferente à lama. Precisamos aprender a ter piedade de quem nos ignora, menospreza ou odeia. Piedade e amor, como nos ensinou Jesus, com seus gestos de carinho gentileza, diante da brutalidade e da violência.

O nosso maior bem não é a nossa reputação, nem aquilo a que chamamos de "honra", tampouco é o nosso saldo bancário. O mais precioso relicário da alma é a consciência tranquila e em paz. Diante da morte, que nos visitará a todos, hoje ou amanhã, somente isso valerá.

Enquanto a pessoa perversa tem medo da própria paz, quem busca perdoar a recebe como um presente. Portanto, não há motivo para o desânimo ou para o desespero. Nenhuma circunstância da vida, seja ela acidental ou provocada por alguém, pode nos atingir de fato, se acreditamos que tudo o que ocorre tem o objetivo de nos ensinar algo e de nos levar a uma maior felicidade, fruto de um maior entendimento.

O coração liberto do ódio e a mente inundada de luz são a nossa vocação comum. Ninguém merece viver encharcado de rancor ou de autopiedade. A vida é um campo aberto, repleto de Divinos roteiros de luz, para todo aquele que possui o coração leve e em paz.

O amor é a janela da alma. Não importa quantas portas de fechem, quando há amor, temos sempre uma abertura para a felicidade. Quando uma porta se fecha , uma janela se abre.E, para bom entendedor, a paisagem, vista da janela, é muito mais bonita.
Emerson Barros de Aguiar
Escritor e filósofo

Publicada no site http://www.mundoespiritual.com.br.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Emerson Barros de Aguiar - Esperar O Tempo Certo




um conto - uma crônica

Às vezes , por causa de ilusões tolas, uma pessoa pode trocar o verdadeiro pelo falso, o definitivo pelo passageiro, a felicidade real pelo prazer fugaz e gerador de remorso.

Deus, em Sua sabedoria infinita, compreende o homem e sua debilidade moral, apoiando-o para que ele recomece sempre e não erre mais. Contudo, é difícil quando esperamos que os outros compreendam rapidamente por que falhamos, por que fomos fracos, por que erramos.

Certos recônditos de nossa alma só são devassáveis por Deus. Por isso, essa compreensão tão profunda é um privilégio divino ou dos que estão muito próximos de Deus, como os sábios e os santos. O homem comum sente-se magoado e traído, o que é muito normal. O primeiro passo, quando erramos, é reconhecermos a falha e assumirmos as suas consequências. É preciso que admitamos o direito dos outros de ficarem tristes e decepcionados com as nossas ações infelizes.

Isso porque nem todos os danos que causamos a pessoa que amamos podem ser reparados instantaneamente. Às vezes, só após muito tempo o ressentimento e a mágoa podem desaparecer dos corações que ferimos. Daí, porque se diz, em todos os manuais éticos do mundo, que evitar erros é mais fácil do que corrigi-los. É mais prudente buscarmos o controle sobre as nossas ações do que sobre os sentimentos dos outros.

Em relação aos erros passados, o fundamental é desenvolvermos a resistência ao mal, para que não cometamos outros deslizes na mesma direção. Sem esse passo, não há progresso nem solução. Isso feito, temos de aceitar que o tempo e a vida dêem curso aos acontecimentos e fechem as feridas.Não podemos, nem devemos, ditar prazos ou regras para a reconquista das pessoas que ferimos. Mas, se nos reabilitamos diante de nossa própria consciência, a vida sempre acaba encontrando um meio , um tempo devido, de fazer com que o perdão encontre o modo correto de restabelecer a perfeita paz e harmonia.
Até lá é preciso esperar com fé, esperança e boa vontade no caminho do bem. Isso tudo pode ser traduzido com o nome de humildade.

A pressa em sermos compreendidos e perdoados revela apenas vaidade e egoísmo. São João da Cruz dizia que toda inquietação é sempre vaidade, algo semelhante ao que afirmou Mestre Eckhart de Hocheim, um monge dominicano alemão do final da Idade Média: "Ah! Os preocupados, cheios de si mesmos!". Somente quando aceitamos a nossa própria culpa e toda a extensão dos seus danos é que podemos aproveitar devidamente a oportunidade do recomeço.

Talvez a melhor palavra que pode ser dita a alguém que se deu conta de um comportamento prejudicial a outras pessoas é: "paz". Nada pode ser resolvido sem paz. Não podemos alterar o que fizemos de mal, seja o que for. Nem podemos mudar o que os outros pensam ou querem, mas com a paz, guardaremos uma fé em nosso coração que nos permitirá resistir aos mais duros embates da vida. Ter uma atitude tranquila e bondosa ajuda na tomada de decisões importantes.

É preciso também que mantenhamos a compostura moral diante dos reveses da sorte. Muitos nos têm como exemplo, ainda que não queiramos. Não devemos fazer exigências a Deus ou aos outros, mas podemos fazer o que estiver ao nosso alcance para garantirmos um caminho de vida mais equilibrado e feliz.

Se Deus não faz tudo o que temos vontade na hora em que queremos, Ele, por outro lado, sempre conta conosco para a instauração da paz e do equilíbrio...

Emerson Barros de Aguiar
Escritor e filósofo

Publicado no site
www.arteculturanews.com
Arte e cultura news.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Ermerson Barros de Aguiar - Permanecer Fiel




Um conto-uma crônica


Na vida existem ideais nobres e puros, aos quais vale a pena alguém se dedicar. Poder, dinheiro, glória e fama podem não ser boas motivações. Deus está interessado na vida de cada um de seus filhos. Por isso, o caminho de cada indivíduo possui sempre um sentido, uma razão, um objetivo. Perseguir a fortuna material é uma redução do sentido da existência.Uma pessoa pode tornar-se famosa, rica, politicamente bem sucedida e festejada. Porém, se todas essas coisas não foram consequências de algo muito mais importante, elas nada significam.

O que importa para o homem é que ele se torne bondoso, generoso, gentil e humilde. Se ele precisa, para atingir essas virtudes, de um milhão de moedas de ouro, Deus as dará para ele. Contudo, o que acontece, infelizmente, é que, as vezes, a ignorância converte o degrau da escada em ponto de chegada.O homem deve dedicar a força que a Previdência colocou em suas mãos a uma causa que seja verdadeira e justa. E o bem, a justiça e a verdade nos acenam com infinitas possibilidades de ação. São incontáveis os convites, em nosso dia a dia para que ajamos com mais honestidade, caridade, indulgência e paciência.

Se formos sinceros para com nossa própria consciência, poderemos perceber que não nos faltam oportunidades de sermos veículos do amor. Há sempre trabalho na seara do bem. Por isso, nunca falta serviço para o obreiro da bondade. Cada indivíduo é chamado a colaborar na tarefa de tornar o nosso mundo um lugar melhor de se viver, de se respirar e de se conviver. Este sim é um excelente motivo para orientar uma vida. E não o acúmulo pelo acúmulo. A disputa pela disputa. O poder pelo poder.

Para a pessoa despojada e desinteressada, a cobiça e a luta pela fortuna material e por notoriedade, não fazem qualquer sentido. Algumas vezes, inclusive, ela é conduzida a posições de comando e à riqueza, sem tê-las solicitado. Isto porque o poder persegue quem não o persegue. Aquele que, do fundo do seu coração, não deseja reunir condições para se sentir superior aos outros, torna-se um centro em torno do qual gravitam o poder e todos os recursos materiais imagináveis.

Nenhum homem é mais forte e poderoso do que o indivíduo humilde, manso e bondoso. Quem descobre em si a Natureza Divina é invencível. Nenhum homem pode tomar o lugar de quem se colocou, voluntariamente, no anonimato, na "desvantagem" e na simplicidade. É assim que o universo funciona. Não se pode ir contra essa regra. Quem assume a sua fraqueza se fortalece. Quem não busca poder, é buscado por ele. Quem escolhe o menor posto, conquista o maior de todos.

É assim que Deus escolhe os seus melhores. Fora disso, o que resta são as usurpações, as sinistroses, as perfídias e as vilanias perpetradas por elementos despreparados que almejam a aquisição, a qualquer custo, de bens e privilégios materiais.

O manso, e humilde de coração não precisa se preocupar com o papel que irá desempenhar na sociedade ou com a quantidade de dinheiro que vai administrar. Pois ele somente tem, como tarefa imediata o dever de ser correto para consigo mesmo e para com os outros.A humildade, que a pessoa dedicada ao bem traz em si, habilita- a aos mais altos serviços e às mais destacadas posições. porém, por sua própria natureza, ela permanece desinteressada por tudo o que não represente a mais imediata vontade de Deus.

A espontaneidade do justo o faz herdeiro de tudo o que a vida pode oferecer de bom. Assim como a semente, ele se entrega nos braços da Providência, para se tornar árvore frondosa ou grão que não germinou, mas que fertilizou o solo. Sabendo, entretanto, que o seu valor para Deus permanece o mesmo, seja qual for o papel que venha a desempenhar na vida do mundo e na dos seus semelhantes. Um eco de sabedoria da antiga Grécia nos inspira a ação correta: "Prefira o prejuízo honesto ao ganho torpe, pois, pelo primeiro, te arrependerás uma só vez, mas pelo segundo, te arrependerás o resto de teus dias..."


Emerson Barros de Aguiar
Escritor e filósofo

Publicada no Jornal O Norte.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Emerson Barros de Aguiar - Ser Humano




Um conto - uma crônica

"Muito tarde da noite, um homem esquelétrico estava sentado próximo ao latão de lixo, impacientemente procurando algo para comer.

Graças a Deus, finalmente ele conseguiu achar uns bocados de comida.


Mas tão logo ele pensou em comer o primeiro bocado, um cão vira-lata faminto apareceu.

Com sua mão, o homem acariciou bondosamente o cão e pôs a comida em sua boca.

Eu pensei ser o auge da estupidez.Ostensivamente chamei sua atenção:

- Seu tolo! Está alimentando um cão quando você mesmo está morrendo de fome!

- Desculpe-me , senhor. Eu sou um homem, não um cão. Os cães alimentam-se a si mesmos e não se preocupam com os outros, mas o homem partilha sua comida com os outros, mesmo quando não tem o suficiente para si mesmo.

Curvei-me perante o homem".

Comumente, usamos a condição humana como desculpa para nossos erros e limitações. "Realmente falhei, mas eu sou humano", esta é uma frase que parece consolar nossos fracassos.

A condição humana, porém, não se caracteriza somente pela imperfeição, nem o ser humano é alguém condenado a errar ininterruptamente, sem jamais corrigir-se.

O sentido maior de sermos humanos é o de buscarmos o aperfeiçoamento das nossas qualidades e a superação de nossos defeitos. Em suma, o ser humano existe para ser bondoso, e para espelhar uma perfeição que ele ainda não possui, mas que já existe em seu coração.

Não dizemos que alguém que cometeu um equívoco agiu com "humanidade", porém dizemos isso de uma pessoa que foi solidária, desprendida e caridosa. A condição humana se identifica muito mais com as ações nobres, dignas e elevadas do que com atos lamentáveis.

O ser humano pode ser um anjo sem asas, se assim o desejar. Basta permitir que o amor conduza, cada vez mais, as suas ações.

Se fôssemos escolher a personalidade que melhor representou a humanidade, muito provalvemente elegeríamos a pessoa que melhor expressou, na sua vida, as virtudes e atributos superiores que caracterizam o ser humano. Ninguém, a não ser um indivíduo ensandecido, escolheria um criminoso.

Apontaríamos, como exemplo de perfeição humana, quem exprimiu, do modo mais excelente, através de suas palavras, gestos e ideais, a sublime destinação da criatura humana. Apareceriam nomes como Gandhi, Madre Teresa, Frei Roger de Taizé, Chico Xavier, Dom Hélder Câmara, Padre Damien de Veuster, Albert Schweitzer e outras grandes almas...

O barro, material do que o homem foi feito segundo a alegoria de Moisés, pode servir tanto para ajudar a edificar uma casa quanto para fazer lama. Do mesmo modo, o homem pode realizar as mais admiráveis ações ou as mais reprováveis.

Se, no entanto, o ser humano seguir a voz que lhe fala à alma, ele não se desviará do caminho do bem e o reconhecerá sempre como a rota certa para a sua vida.

Mesmo sofrendo conflitos interiores e passando por dificuldades exteriores, o ser humano que persegue o viver correto e virtuoso e procura praticar o bem, está preenchendo, ainda que nem o perceba, o sentido da sua própria existência.

O santo é apenas um homem que seguiu a pureza de seu próprio coração. Aquele que é profundamente humano, mesmo sem querer ser santo, já atingiu a santidade...

Emerson Barros de Aguiar
Escritor e filósofo.

Publicada no Jornal O Norte.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Emerson Barros de Aguiar - O Amor




um conto - uma crônica

Este conto faz parte do livro História para sua Criança Interior de Eliane de Araújo, publicado pela Editora Roca.

Numa sala de aula, havia várias crianças. Quando uma delas perguntou à professora: - Q que é o amor? A professora sentiu que a criança merecia uma resposta à altura da pergunta inteligente que fizera. Como já estava na hora do recreio, pediu para que cada aluno desse uma volta pelo pátio da escola e trouxesse o que mais despertasse nele o sentimento de amor.

As crianças saíram apressadas e, ao voltarem, a professora disse: - Quero que cada um mostre o que trouxe consigo.

A primeira criança disse: - Eu trouxe esta flor
, não é linda?

A segunda criança falou: - Eu trouxe esta
borboleta. Veja o colorido de suas asas, vou colocá-la em minha coleção.

A terceira criança completou: - Eu trouxe este filhote de passarinho. Ele havia caído do ninho junto com outro irmão. Não é uma gracinha?

E assim as crianças foram se colocando.

Terminada a exposição, a professora notou que havia uma criança que tinha ficado quieta o tempo todo. Ela estava vermelha de vergonha, pois nada havia trazido.

A professora se dirigiu a ela e perguntou:

-Meu bem, por que você nada trouxe?

E a criança timidamente respondeu:

Desculpe, professora.

Vi a flor e senti o seu perfume. Pensei em arrancá-la, mas preferi deixá-la para que seu perfume exalasse por mais tempo.

Vi também a borboleta, leve, colorida! Ela parecia tã feliz que não tive coragem de aprisioná-la.

Vi também o passarinho caído entre as folhas, mas, ao subir na árvore, notei o olhar triste de sua mãe e preferi devolvê-lo ao ninho.
Portanto professora, trago comigo o perfume da flor, a sensação de liberdade da borboleta e a gratidão que senti nos olhos da mãe do passarinho. Como posso mostrar o que trouxe?

A professora agradeceu a criança e lhe deu nota máxima, pois ela fora a única que percebera que só podemos trazer o amor no coração.

Segundo Osho, quando um adulto pede uma definição de amor, isso significa que ele nunca teve consciência deste sentimento.

Na tradição Sufi, quando não temos consciência do amor, simplesmente não somos.

O amor permeia tudo a nossa volta, mas nem sempre nos deixamos impregnar de amor. Nisto consiste a maior comunhão da vida, em deixar-se invadir de amor.

Rumi disse isso melhor do que eu poderia dizer em uma Suma Teológica, por isso me calo para que ele fale:

"Eu soube, enfim, que o amor está ligado a mim!

E eu agarro esta cabeleira de mil tranças.

Embora ontem à noite eu estivesse bêbado da taça.

Hoje, eu sou tal, que a taça se embebeda de mim!".

O que posso dizer mais? Amar é ser assim...

Emerson Barros de Aguiar

Publicada no jornal O Norte.

Emerson Barros de Aguiar - Refletir Sobre A Paz



Um conto - uma crônica

Nos anos truculentos da Era Bush, que obliterou do mundo a democracia, um dos valores mais esquecidos, além da própria democracia e do respeito às liberdades individuais, vem a ser a paz. Por isso, escolhi algumas reflexões sobre esse tema tão necessário aos nossos dias. Hei-las:

"No homem, o céu e a terra se unem. Ele é livre para gozar ou de um ou de outro.O primeiro leva-o à paz da mente, o segundo ata-o à roda do ego. Todo aquele que sinceramente quer se aproximar da Divindade pode encontrá-la, mas tem que dar o primeiro passo" - Paul Brunton.

"Só se vê com o coração. O essencial é invisível aos olhos" - Antoine de Saint-Exupéry.

"Cada ser humano é único, é uma palavra de Deus que não mais se repete"--Karl Adam

"Não é suficiente falar sobre a paz. É preciso acreditar nela. E não basta acreditar nela. É preciso trabalhar para alcançá-la" - Eleanor Roosevelt.

"Paz é quando a gente não tenta convencer ninguém. A gente deixa o outro fazer as coisas do jeito que ele quer, porque confia nele e sabe que pode fazer as coisas muito bem" - Do baralho Palavra de Criança, de Patrícia Gebrim.

"O pensamento faz o homem, por isso o bom pensamento é a coisa mais importante da vida" - James Allen.

"Não às armas nucleares, não ao tormento da guerra. Minha canção sobe aos ares, como um beijo vindo da terra" - Carlos Drummond de Andrade.

"A felicidade é sinônimo de tranquilidade. Ser feliz é ser tranquilo" - Gilberto Amado.

"A mente é a imagem da eternidade" - Nicholus de Cusa.

"Não existe maior pobreza do que a solidão" - Madre Teresa de Calcutá.

"Nós existimos para nossos semelhantes" - Albert Einstein.

"As coisas pequenas parecem insignificantes, mas são elas que constroem a paz. Como aquelas flores da campina, que individualmente parecem não ter cheiro, mas que, juntas, enchem o ar de perfume" - George Bernanos, escritor francês.

" Nunca as mesmas águas, sempre o mesmo rio. Nunca as mesmas flores, sempre a primavera" - Confúcio.

"Onde há paz e meditação, não há ansiedade nem dúvida" - São Francisco de Assis.

" Quando sonhamos sozinhos é só um sonho. Mas quando sonhamos juntos já é o começo de uma realidade" - Karl Marx.

"Toda iniquidade é uma nota desafinada a ser evitada na harmonia das esferas" - Marguerite Yourcenar.

"Não acrescente dias à sua vida, mas vida aos seus dias" - Harry Benjamim.

Emerson Barros de Aguiar
Escritor e filósofo

Publicada no Jornal O Norte.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Emerson Barros de Aguiar - Ser Herói



Um conto - uma crônica

Este poema de Judas Isgorogota nos faz meditar sobre a natureza do verdadeiro heroísmo:

"Papai, o que é um herói?
Eu pergunto porque tenho grande vontade
De ser herói também...
Será que posso ser herói sem entrar numa guerra?
Será que posso ser herói sem odiar os homens
E sem matar alguém?"

O homem que já sofrera as mais fundas angústias
E as mais feias misérias
Trabalhando a aridez de uma terra infecunda
Para que não faltasse o pão no pequeno lar;
O homem que as mais humildes ilusões perdera
No seu cotidiano e ingrato labutar;

Aquele homem, ao ouvir a pergunta do filho
"Papai, o que é um herói?"
Nada soube dizer, nada pôde explicar...
Tomou de uma peneira
E cantando saiu outra vez a semear!

O heroísmo se manifesta em toda parte à nossa volta, e muitas vezes não nos damos conta disso. O cotidiano esconde gestos heróicos, desempenhados por pessoas nobres que, em sua humildade, não fazem alarde sobre si mesmas...

É o mendigo que deu o único pão que possuía, sua refeição do dia, à criança faminta que lhe pediu um pedaço; é o trabalhador explorado que sacrificou seu dia de descanso para ajudar o vizinho a consertar o teto por causa do inverno; é a família quase indigente que divide o escasso alimento com os amigos ainda mais desfavorecidos; é o indivíduo que deixou a casa abastada para se dedicar aos velhinhos doentes, desamparados pelos próprios filhos; é a mulher pobre que não permitiu que a criança órfã fosse relegada à sorte das ruas; é o deficiente físico que, em vez de entregar-se à autopiedade, trabalha pela causa do bem, esclarecendo e ajudando aos que precisam ainda mais do que ele.

Mas poucos entendem o heroísmo. Muitos preferem acreditar que todas as pessoas são más, desonestas, egoístas, falsas, mesquinhas, que o ser humano não merece crédito e que a única coisa que vale a pena é buscar atender aos seus próprios caprichos. Porém, aqueles que pensam assim, embora não confessem, são pessoas muito tristes, solitárias e angustiadas. A vida para elas é uma competição, o seu próximo não é o seu irmão de humanidade, mas o seu inimigo. Estes pobres indivíduos não conhecem o heroísmo. Quando muito, acreditam que ele consiste em alvejar o seu semelhante em campos de batalha, na estupidez da guerra.

Só os puros de coração podem ser heróis, só os totalmente incapazes da prática do mal, ainda que em defesa de si próprios, apenas estes são capazes do verdadeiro heroísmo. Os de alma despojada, os simples, os mansos, os injustiçados, os nobres espíritos incompreendidos pela pequenez dos adoradores de ilusões.

A bondade requer coragem. Não a falsa coragem dos que se igualam às feras famintas, que buscam atender tão somente o ímpeto do próprio apetite. Mas a coragem superior dos santos, dos sábios, dos grandes místicos, que deram o testemunho da busca do reino de Deus, em primeiro lugar, antes de tudo, antes mesmo dos seus próprios interesses. Estes entendem que o reino prometido começa em nós mesmos, no bem que fazemos aos outros, e no maior de todos os combates: a luta contra as nossas próprias disposições egoísticas.

O verdadeiro herói procura merecer o reino que está dentro dele mesmo, encarando a vida sempre com otimismo e alegria, enxergando o lado bom das pessoas, reconhecendo o valor dos que estão à sua volta, dando chance para que os outros cresçam, e sendo bondoso, leal, generoso, humilde e companheiro.

Emerson Barros de Aguiar.
Escritor e filósofo.

Publicada no Jornal O Norte.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Emerson Barros De Aguiar - Saber Avaliar



Um conto - uma crônica

Um conhecido estudava química numa universidade.

Certo dia, caminhando pelo Campus, encontrou uma pulseira caída no chão. Apanhou e viu que não possuía qualquer tipo de identificação. A peça era dourada e pesava, o que indicava que, se fosse de ouro, deveria ter um bom preço.

Ele se lembrou, então, de um de seus professores, um indiano, que pertencia a uma antiga família de ourives. A lembrança foi perfeita, pois, além de possuir conhecimento sobre metais valiosos, o professor também era uma pessoa da sua inteira confiança.

Ao encontrar o professor indiano, ele tirou do bolso a peça e perguntou:" Isto tem algum valor?" O professor olhou para a "jóia" e disse: "Não, isto não tem valor nenhum".

Embora confiasse na opinião do professor, resolveu consultar um outro especialista antes de se desfazer da pulseira, e, para a sua surpresa. a pessoa lhe informou que o objeto era de ouro maciço.

Ele se recordou das palavras do professor indiano: "Isto não tem nenhum valor" O professor, evidentemente, sabia que a pulseira era de ouro, mas nem por isso a considerou como algo valioso.

Aquele que é levado pelo valor superficial de objetos e situações deixa de contemplar os verdadeiros tesouros da vida.

Não costumamos reconhecer uma lufada de ar como sendo algo importante, muito menos como algo de valor, mas, para alguém que não consegue respirar direito, um minuto de boa respiração vale mais do que uma tonelada de ouro.

"Tesouro" é apenas o lugar onde depositamos o nosso coração. Se o depositamos numa conta bancária, ela passa a valer para nós, não porque valha por si mesma, mas porque vinculamos a ela a nossa alma. por isso o ávaro se apega às suas riquezas como se estivesse defendendo o seu próprio coração. Ele acredita que, se alguém roubar o seu dinheiro, está também arrancando o coração do seu peito. Gasta tanta energia com o seu delírio que não consegue ser mais generoso consigo mesmo nem com os outros.

Quem persegue o pote de ouro na ponta do arco-íris, não percebe a inutilidade da sua busca e nem a beleza do arco-íris.

Saber discernir o que liberta do que escraviza a alma é uma grande prova de sabedoria. Aquele que se depara com os valores eternos do coração, descobre que Deus não propicia os bens materiais ao homem tão somente para que ele se contente em manter seu próprio corpo, mas para que ele trabalhe pelo esclarecimento de sua alma e em favor de si mesmo, assim como dos outros. O grande triunfo do homem é a vitória sobre a tirania dos sentidos, e isso se dá na medida em que não buscamos, em primeiro lugar, os valores materiais e as sensações físicas.

O desapego é a grande conquista da alma, pois só aquele que tem um coração simples é capaz de ver corretamente. Quem se despiu do orgulho e do egoísmo e não está interessado unicamente em si mesmo, sabe reconhecer um valor perene.

Tanto os tesouros espirituais quanto os materiais só se apresentam aos que já urgiram o próprio coração com os mais puros sentimentos. Do contrário não haveria proveito em encontrá-los.O dinheiro não é ruim em si mesmo e nem a verdadeira humildade consiste num pauperismo. Aliás, a respeito disso, existe um provérbio italiano que diz: " se a riqueza não traz felicidade, imagine a pobreza!". porém, para nos habilitarmos à prosperidade plena, precisamos buscar em primeiro lugar o Reino de Deus. Isto é, as virtudes e não os seus "acrescimos".

O bem mais valioso que o sábio deseja possuir é não querer aquilo que atrapalhe o seu crescimento espiritual. O caminho perfeito é constituído de valores perfeitos. A descoberta desses valores nos dá também o sentido correto de nossa existência.

A humildade, a bondade, o amor e a paciência são os tesouros mais belos que alguém pode desejar. Sendo capaz de valorizá-los, o indivíduo vai enchendo, pouco a pouco, a arca de sua felicidade...


Emerson Barros de Aguiar.
Escritor e filósofo.

Publicada no Jornal O Norte.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Emerson Barros de Aguiar -Padre Zé Coutinho: o anjo de João Pessoa





Um conto - uma crônica

Padre Zé Coutinho


Não se restringia a dar o pão, pois foi pioneiro na formação profissional de pessoas em situação de risco social.
João Pessoa teve sua Madre Tereza. No caso da cidade das acácias, atendia pelo nome de Padre Zé Coutinho. Um anjo de temperamento sanguíneo e coração de manteiga, que se dedicou totalmente aos pobres.Não precisou de cargos ou de mandatos para realizar a maior obra social já realizada na cidade. É um ícone universal da caridade, que merece vir a lume para inspirar e dar testemunho de uma vida verdadeiramente cristã.
Ele morreu no mesmo ano em que nascí, 1973, no dia 5 de novembro. Nascemos os dois num dia l8. Ele em novembro de 1897, eu em maio de 1973. Tive a oportunidade de conhecer de perto a sua história, já que era primo em primeiro grau do meu avô materno.


Uma vida dedicada integralmente ao semelhante sofrido e marginalizado. Ordenou-se no dia 23 de maio de 1920. Neste caso, foi mais o sacerdócio que ganhou com a adesão de um homem santo àquela vocação.

Visitava os salões elegantes da cidade, pedindo esmolas para os "seus pobres" aos que tomavam drinques sofisticados. Diante da força moral que a sua simples presença impunha, ninguém tinha coragem de lhe negar o acesso ou a contribuição solicitada. Mesmo quando já estava confinado à sua cadeira de rodas, continuou o seu périplo de petição e de assistência. Um apóstolo do amor radical aos outros, fiel até o fim. Costumava fazer isso até no dia de finados, como a apontar que é importante e justo lembrar dos que partiram, mas ainda mais necessário ajudar a manter vivos os que precisam de pão, carinho, atenção e dignidade. Dava a oportunidade àqueles que se lembravam dos mortos, de também olharem para os seus semelhantes necessitados.
Um homem de visão, muito a frente do seu tempo. Não se restringia a dar o pão, pois foi pioneiro na formação profissional de pessoas em situação de risco social. Dedicou-se com afinco à educação de jovens e de crianças e à inserção laboral de pessoas sem recursos econômicos, através da criação de escolas profissionalizantes gratuitas e de programas de alfabelização. Atendeu a milhares de indivíduos, restituindo-lhes a dignidade e a cidadania que lhes tinham sido negadas.
Tinha um senso apurado de justiça, pondo-se sempre ao lado do mais fraco e perseguido. Honesto, transparente e rigoroso, carreava cada centavo doado que recebia aos trabalhos aos quais se dedicava. Sua atuação em João Pessoa mudou a fisionomia social da cidade, à época. Se a isso se pode chamar de assistencialismo, então eu digo: !Senhor, manda-nos mais assistecialistas como Padre Zé Coutinho!"
Entre as obras que resistiram à sua morte, estão o Instituto São José, e sua Casa dos Pobres, e também o Hospital que hoje atende por seu nome.

Certa vez, olhando para os seus antigos pertences pessoais, muito simples, hoje expostos no Instituto São José, situado na Praça do Bispo, um nó me veio à garganta. Tive a visão de um homem que enxergava nos seus semelhantes, irmãos. Irmão é um tipo muito próximo de parente. E era assim que ele sentia cada um dos que o procuravam. Contudo, ele não se contentava em ser procurado pela gente pobre e necessitada. Ia ao encontro dela, onde quer que estivesse. Como também buscava aqueles que não tinham a sua coragem de doar e de ajudar: os indigentes da alma, os covardes espirituais, os escravos do conforto, os viciados do consumo, ou seja, os verdadeiros "miseráveis". Convidava a todos, generosos ou usuários para o banquete de amor que o Pai Celestial preparou para quem se dispõe a amar o outro desinteressadamente.

Sabia que os seus semelhantes mereciam todo o amor do seu coração e todo o labor das suas mãos e que, em vez de se por a exaltá-los com palavras, deu-lhes de comer, quando tinham fome, e lhes vestiu, quando tinham frio.
Obrigado, anjo de João Pessoa, você nos ensina amar!
Emerson Barros de Aguiar.
Escritor e filósofo.
Publicada no Jornal O Norte.
Foto: cedida por Raul Ferreira
http.memoep.tk

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Emerson Barros de Aguiar - Realizar-se



Um conto - uma crônica

A realização não é possuir desmedidos recursos financeiros.
Não é ser assediado pelas pessoas.
Não é ostentar títulos honoríficos ou acadêmicos.
Não é ganhar um enorme salário.
Não é ter um carro do ano.
Não é se sentir melhor do que os outros.
Não é humilhar ou diminuir os demais.

Não é escrever com maestria.
Não é atingir uma posição de relevância na sociedade.
Não é conquistar chefias, diretorias ou postos de liderança.
Não é sentir-se desejado.
Não é ter muitos bens para distribuir.
Não é considerar-se o centro do universo.
Não é ser admirado.
Não é ser temido.
Não é dominar um vasto conhecimento.
Não é comer e beber desbragadamente.
Não é conhecer técnicas sofisticadas de meditação.
Não é considerar-se um "bom devoto".
Não é falar trinta idiomas.
Não é saber discursar.
Não é ter a capacidade de emocionar as pessoas.
Não é ter boas roupas.
Não é ter uma aparência irretocável.
Não é ser convincente.
Não é ter prestígio.
Não é ser invejado.
Não é ser apreciado pelos poderosos.
Não é ser aceito por todos.
Não é ter acesso a ambientes requintados.
Não é se vingar dos inimigos.
Não é estar na moda.
Não é ser criticado.
Não é ser sempre compreendido.
Não é ser tido como sábio.
Não é preencher requisitos exteriores.
Não é ser reconhecido em toda parte como uma pessoa boa.
Não é sempre ser ouvido.
Não é conhecer terras distantes.
Não é ter à sua disposição todos os meios de transporte.
Não é ser dono de palácios, de castelos ou de fazendas.
Não é derrubar os outros para galgar posições vantajosas.

A realização é ser feliz.
É ser capaz de conquistar o suficiente para sua satisfação e satisfazer-se com o que é suficiente. É compreender tudo o que ocorre como lições da vida.
É saber corresponder ao amor daqueles que nos amam.
É saber perdoar e compreender aqueles que nos condenam.
É estar em paz com a consciência.
É dançar com a vida e ter esperança no amanhã.
É ter a suave certeza no coração de que tudo melhora a cada dia.
É entender a mensagem do sol nascente.
É conservar a capacidade de aprender com todos, inclusive com os inimigos.
É não guardar ressentimentos.
É ver o lado bom das pessoas e situações.
É encontrar o doce no amargo.
É ter a coragem de recomeçar sempre.
É sentir-se firme o suficiente para chorar e não ser devorado pela tristeza.
É ser solidário com o sofrimento dos outros.
É sentir nas próprias costas o peso carregado pelo semelhante, e ajudá-lo.
É ser generoso e desprendido.
É acudir às solicitações de quem sofre.
É abrir o coração para o amor.
É sentir-se capaz de realizar o necessário para alcançar a felicidade.
É esquecer os fracassos do passado, e libertar-se dele.
É não olvidar aqueles que nos ajudaram.
É saber dizer "obrigado".
É incentivar quem está começando.
É estimular quem está no caminho certo.
É amparar quem está em erro.
É estar disponível.
É jamais se fechar à possibilidade de melhorar.
É ter sempre uma palavra de otimismo, de consolo e de esperança.
É ser austero quando a verdade e a justiça requisitarem testemunho.
É agir com perfeição, sem se considerar perfeito.
É ser prudente e moderado.
É saber aproveitar tudo o que se tem para ser feliz.
É considera-se abençoado por Deus.
É sentir-se uma parte importante do universo.
É sentir-se amado por Deus.
É ter ânimo diante de um horizonte nublado e saber que, além dele, o sol sorri.
É apreciar o gargalhar das cascatas e as carícias calmantes da brisa.
É acolher o abraço morno da terra quando a chuva se precipita do céu.
É ter paciência diante dos desafios, e força para superá-los.
É crer que tudo passa e só o bem permanece.
É beijar com alegria e doçura a quem Deus colocou ao nosso lado para resgatar o amor em nossos corações.
É acreditar na Providência silenciosa que nos sustenta a cada passo, e confiar que tudo o mais é acréscimo...

Emerson de Barros Aguiar.
Escritor e filósofo.

Publicada no Jornal O Norte.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Emerson Barros de Aguiar - Permitir Que Se Faça A Divina Vontade



Um conto - uma crônica

Deus quer que sejamos felizes. Essa é a Sua Vontade. Quando passamos a depositar nisso a mais alta confiança, temos a possibilidade de enxergar melhor tudo o que acontece em nossa vida como etapas necessárias ao estabelecimento da felicidade.

A vontade de Deus possui seus próprios percalços. Às vezes ela nos oferece o amargo como condição para o doce; ou nos guia pelas trevas para que, mais adiante, descubramos a luz. Contudo, ela sempre tem por objetivo o melhor para nós. É importante que consigamos ver isso com clareza. Se, em nossas mentes e em nossos corações, sabemos que Deus nos ama e que deseja cuidar de nossos caminhos, podemos então permitir que Ele guie os nossos passos e nos acolha em Seus Braços quando estivermos exaustos.


Às vezes estabelecemos metas sem levar em conta os reveses da vida e os limites de nossa própria força. É certo que temos, em qualquer tempo, a força necessária para que possamos lutar pelos nossos sonhos. Porém, esta força costuma nos faltar quando o que perseguimos é uma ilusão. O critério para diferenciar sonhos de ilusões está na adequação de nossos projetos aos de Deus. Existe um determinismo no Universo que estabelece que tudo deve estar constantemente evoluindo. Esta determinação Divina faz com que cada criatura procure ser melhor. Quem tenta se rebelar contra isso, permanece estagnado, ou seja, conformado aos seus vícios e defeitos. Assim, somente dentro do plano de Deus para o mundo e para a vida de cada um é que a perfeição pode ocorrer.

Mas, como saber se estamos ou não dentro do que nos prescreve a Vontade de Deus?

Talvez a resposta esteja na oração de Rabindranath Tagore:

"Senhor,
Arranca, arranca do meu coração a raiz da avareza.
Dá-me a força para fazer suportar minhas tristezas e alegrias.
Dá-me a força para fazer frutificar o meu amor em benefícios.
Dá-me a força para jamais desprezar o pobre e não dobrar os joelhos diante do poder insolente.
Dá-me a força para elevar o meu espírito muito acima das futilidades quotidianas.
Dá-me a força para submeter com amor minha força à Tua Vontade."

Sim, nestes sábios versos do poeta indiano, podemos entrever o que devemos fazer para que possamos estar de acordo com os desejos de Deus. Pois, se Deus é infinita bondade, caridade, humildade, generosidade, paciência e carinho, são estes mesmos sentimentos que devemos desenvolver em nós mesmos. O desejo de Deus é que sejamos fiéis ao Bem em qualquer caminho que escolhermos trilhar.

Para tanto, precisamos observar o nosso próprio comportamento nas diversas situações da vida diária, procurando adequá-lo à ação correta e virtuosa. É bom lembrar que Deus só coloca em nosso caminho aquilo que possa contribuir para o enriquecimento real de nosso espírito. Assim, tudo o que verdadeiramente necessitamos já nos foi entregue antes mesmo que pudéssemos solicitar. O que não representa uma necessidade essencial,Deus não nos oferece. Isto porque a Divina Providência não quer alimentar o homem de ilusões tolas.

Emerson Barros de Aguiar.
Escritor e filósofo.

Publicada no Jornal O Norte.

Emerson Barros de Aguiar - Tornar-se...



Um conto - uma crônica

Os instantes de desânimo são compreensíveis, mas não devemos permitir, de nenhum modo, que eles se prolonguem. Não existe nada mais lesivo e prejudicial para nossa caminhada espiritual do que a auto-piedade e o negativismo. Sentir pena de si mesmo é desbotar o próprio brilho interior e estancar as fontes vivas que jorram abundantemente em nossa alma. Esse é um erro terrível ao qual não devemos aderir. Se não somos perfeitos é porque ainda estamos a caminho, mas isso não é razão para desanimar e desistir da jornada.

Se as estrelas se assustassem, com a extensão das trevas, a sua luz se empalideceria. Mas elas não interpretam a escuridão com temor. Para as estrelas, as trevas são apenas a moldura do seu próprio brilho, assim como, para nós, as dificuldades podem ser o realce de nosso próprios dons.

O nosso coração sabe da importância de nossos motivos. Lutamos pela felicidade e pela realização, mas, para atingí-las, existem etapas e regras. Estas, por sua vez, exigem a presença de uma diligente disciplina. Cada êxito só é conseguido à custa de boa vontade e dedicação. Nenhuma conquista se faz de graça no universo.

Dentro de nós mesmos estão todos os instrumentos para conseguirmos o que queremos. Temos, no entanto, de lançar mão deles e iniciar a luta. Deus nos dá os meios, mas somos nós que devemos trilhar o caminho.

O pessimismo é uma astuciosa manobra de covardia. O pessimismo sempre atribui o seu insucesso aos outros ou às circunstâncias. Se ele não atinge aquilo que deseja, isso nunca se deve a sua própria inabilidade ou ausência de empenho, mas sim às contingências exteriores ou à falta de apoio que recebeu.

Quando um pássaro é bem pequeno e deseja voar, é certo que ele recebe a ajuda inicial de sua mãe, que o auxilia em suas tentativas desengonçadas, porém, o único apoio concreto que ele possui são suas próprias asas, pois, sem elas, por mais que sua mãe o desejasse, ele jamais conseguiria alçar vôo.

Do mesmo modo, sempre existirão pessoas mais experientes e sábias do que nós, que podem nos ajudar com as suas orientações, porém, a despeito do carinho e atenção que dispensem em nosso favor, nada efetuaremos sem o apoio do nosso próprio esforço.

Existe uma constatação que as almas amadurecidas fazem: o mundo à nossa volta só se modifica na medida em que nós mesmos nos modificamos. Isso quer dizer que, se não temos uma atitude mental positiva, os obstáculos em torno de nós não podem ser removidos. A vida muda se nós mesmos mudarmos.

Se, em vez de superarmos os desafios com uma disposição perseverante, nós os trazemos para o nosso interior, tudo fica mais difícil. Devemos aprender que a nossa fé pode nos favorecer ou nos prejudicar dependendo somente do uso que fazemos dela. Se acreditamos que estamos presos a algo, ninguém nos libertará do nosso confinamento sem a nossa permissão. Tudo aquilo em que acreditamos dá certo, inclusive aquilo que pode nos fazer sofrer. Assim é a lei, e é desse modo que ela funciona.

Emerson Barros de Aguiar.
Jornalista e filósofo.

Publicada no Jornal O Norte.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Emerson Barros de Aguiar - Respeitar as verdades dos outros



Um conto - uma crônica

Um sábio chinês depositou sobre o túmulo de um amigo ausente um prato de arroz ainda quente.

A pessoa que estava em frente à lápide vizinha tinha acabado de deixar flores sobre a mesma e, intrigada com o gesto do velho chinês, disse:

- O senhor acha realmente que o seu morto vai mesmo comer esse prato de arroz?

-Claro que sim. No mesmo dia em que o seu vier cheirar as flores - respondeu docemente o sábio.

No mundo, cada qual tem seu própio modo de ver cada situação.

René Descartes, o filósofo francês, iniciou a primeira parte do seu "Discurso do Método" com uma afirmação emblemática: " A razão parece ser a coisa mais bem distribuida no mundo, pois cada um se acha tão bem provido dela, que mesmo os individuos mais difíceis de contentar, não costumam desejá-la mais do que a possuem."

Podemos afirmar que "intuitivamente" sabemos que nenhum ser humano detém a verdade absoluta. Em decorrência dessa "certeza íntima", identificamos a "verdade" que vislumbramos como uma interpretação válida dos fatos e das coisas, por mais tosca que ela possa ser.

De fato, se ninguém é o dono da verdade, a "verdade" que enxergamos, mesmo limitada, também possui um determinado grau de validade. Nenhum indivíduo está totalmente equivocado, pois, mesmo estando atolado até o pescoço na mais pantanosa ignorância, ele ainda se conserva num determinado nível de distanciamento da Verdade Maior. Em outras palavras: não existe estágio de degradação tão avançado que isole completamente o indivíduo de Deus.

E, se Deus, que é Perfeição Absoluta, tem esse nível de tolerância para com aqueles que descem tão fundo nos precipícios do erro, por que nós não o teríamos uns para com os outros?

No mundo em que vivemos coexistem diversos "mundos", cada um deles fruto de uma concepção diferente de sociedade, de justiça e até de felicidade. Uns querem um mundo mais "igualitário", outros desejam um mais "competitivo". Outros ainda, acreditam que não deveriam existir tantas idéias diferentes, e assim, além de quererem sobrepujar a vontade dos outros, desejam também sobrepujar a de Deus, que permite que cada um se conduza segundo aquilo em que acredita.

"Todos vivemos sob o mesmo céu, mas nem todos vêem o mesmo horizonte", estas são palavras atribuídas a Konrad Adenauer. Da combinação desses diferentes horizontes, surge o mundo em que estamos. Deus permite que sigamos as nossas próprias opiniões, porém este fato não nos autoriza a engendrarmos uma realidade desordenada e confusa. Por isso, somos cúmplices do mal na medida em que contribuimos para a desarmonia planetária.

Sabendo respeitar o pensamento dos semelhantes, por mais que ele nos pareça insipiente, estamos contribuindo para o equilíbrio e a harmonia do mundo. Devemos ter em vista que, se alguns nos parecem tolos, nossa tolice também fica evidente se nos compararmos aos que não possuem os nossos defeitos.

Os outros não estão necessariamente errados por não concordarem conosco, nem são inferiores a nós porque não possuem as nossas crenças, desejos ou propósitos.

Admitir a pluralidade de pensamento é concordar com algo que já está instituido no próprio universo.

Quem quer impor a sua maneira de pensar, sem respeitar a liberdade dos outros, está produzindo para si aborrecimentos e aposições. Argumentações violentas suscitam respostas de igual teor. A intolerância gera mais intolerância. Os insultos provocam novas injúrias e ultrajes. Dessa forma, cria-se um círculo vicioso, que só pode ser quebrado pela compreensão, pela tolerância e pelo respeito.

Cada um é o seu próprio intérprete da verdade, por isso não podemos obrigar os outros a pensarem como nós.

É certo que existe uma Verdade Absoluta, que serve de paradigma para as "verdades" individuais. porém, nós somente nos aproximamos dessa Verdade Plena quando procuramos nos conduzir com bondade, usando de cortesia para com os outros, mesmo para com aqueles que discordam de nós.

A verdade está em nosso próprio coração e é análoga à cosmovisão que possuímos em cada momento da nossa existência. Isso quer dizer que ela não violenta a nossa compreensão, isto é, se só a podemos ver em parte, é assim que ela se mostra. Quando, porém, a pudermos enxergar face a face, ela se mostrará por inteiro. Assim, precisamos entender que devemos à verdade dos outros o mesmo respeito que temos pela nossa própria, pois ambas são apenas diferentes "visões" de uma mesma paisagem...

Emerson Barros de Aguiar
Jornalista e filósofo.

Publicada no Jornal O Norte.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Emerson Barros de Aguiar - Pingos de Chuva



um conto - uma crônica

No dia 10 de julho de 2009, o comerciante Rafael Laurindo Guerra, de apenas 26 anos, foi morto com dois tiros no peito na cidade de Indaiatuba, no Estado de São Paulo.

Ele fechava o seu estabelecimento, quando foi surpreendido pelo assaltante . Rafael seria mais um número nas estatísticas da violência, se não fosse o desfecho da história.

O que aconteceu depois do assassinato do comerciante não costuma dar manchete na imprensa de qualquer coloração, seja ela marrom ou não.

A mãe de Rafael, Sra. Daísy Laurindo, perdoou o assassino do filho. Ela não o fez com palavras, mas com um ato de amor. Procurou compreender o que levou o assaltante a cometer aquele ato tão vil. Descobriu que ele vivia na miséria com a mulher e três filhos, sendo um deles um bêbê de sete meses. Estava sem o dinheiro do aluguel.A família iria morar na rua. Com o crime, tudo piorou ainda mais.

Num gesto surpreendente, Dona Daísy decidiu ajudar. Procurou agir de modo que não soubessem que era ela que estava auxiliando. Conseguiu um emprego para a mulher e vagas em uma creche pública para as três crianças, além de enviar mantimentos à familia.

Perguntada sobre o porquê de agir assim, ela explicou que desejava um destino diferente para os filhos daquele homem. "Ele tirou a vida do meu filho, que me faz muita falta. Mas a vida tirou dele o direito de ser pai de três crianças."

Dona Daísy não fundou uma ONG, não começou um movimento, não pediu doações. Ela agiu individualmente, numa ação pedagógica. Primeiro para si mesma. Ela aprendeu a perdoar, perdoando. Ela acreditou na ação pessoal. A mesma força que fez Gandhi botar para correr o maior império do mundo.

A pequena gota que cada um de nós é, quando tocada pelos raios do amor, passa a espalhar as cores da miseridórdia, da paz, da sinceridade, da santidade. O exemplo individual é o prisma que propaga o bem.

Muitos deixam o perdão para Deus, guardando o rancor para si mesmos. Mas Deus espera de nós a superação das ofensas, pois sempre nos dá a melhor parte. Esquecer não é suficiente, é preciso mudar a disposição de prejudicar, substituindo-a pela bondade.

O milagre do arco-íris só ocorre quando os pingos de chuva se disponhem a refletir a luz.


Emerson Barros de Aguiar.
Jornalista e filósofo.

Publicada no Jornal Correio da Paraíba.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Emerson Barros de Aguiar - Perceber os sinais...



Um conto - uma crônica

Heródoto, o célebre historiador grego, fala, em seus escritos, sobre alguns oráculos que os antigos helenos costumavam consultar. Dois destes oráculos eram o de Dodona e o de Delfos.

Neles, os consulentes vinham buscar respostas para os mais diversos assuntos. Porém, o mais interessante era a maneira pela qual esses oráculos falavam. Conta-se que em Delfos havia uma pitonisa que, adormecida por vapores, punha-se a atender as perguntas. Mas na maior parte das vezes, tanto em Dodona quanto em Delfos, as respostas vinham através de sinais muito simples. Estes podiam ser as brisas nas folhas do carvalho sagrado, o som do vento num vaso de bronze, o murmúrio da fonte,
a brisa no loureiro ou o som do tripé de bronze quando o vento soprava.

A vida prefere nos responder com sinais muito simples. Para percebê-los, no entanto, é preciso que estejamos tranquilos. Precisamos nos comportar durante a pergunta como se já tivéssemos a resposta. Pois, na verdade, todas as respostas estão em nós, o que não é motivo para nos envaidecermos, pois, se assim fizermos, nunca as descobriremos. Isso porque a humildade e o reconhecimento da nossa própria ignorância é a chave para toda as questões que nos inquietam.

Mutas pessoas elegem um só canal para a verdade, algumas destas pessoas escolhem o intelecto, e através dele esperam descobrir tudo o que desejam. Passam a vida toda tentando perceber a existência somente pela razão e ignorando todas as outras manifestações da verdade.

A vida muitas vezes deseja falar conosco através dos sinais mais corriqueiros, mas não percebemos porque estamos gastando nossa energia em raciocínios complicados para atingirmos o objetivo desejado. Só que não é assim que funciona. Se não dermos oportunidade para que a mensagem da vida chegue até nós do modo que ela desejar, então simplesmente não a escutaremos.

Para que estes sinais nos alcancem é necessário cultivarmos uma nova maneira de encarar a vida. Muitas pessoas gostam de nós, mas demonstram isso de uma maneira muito sutil, e se não estivermos atentos para estas sutilezas, nunca saberemos da consideração que alguns indivíduos nos dedicam.

Todos sabemos como é difícil, quando amamos muito alguém, dizermos isso, ou até mesmo mostrarmos isso através de gestos ou até de presentes. O que fazemos então é diluir este amor no cotidiano, demonstrando, através de pequenas atitudes e de palavras gentis e carinhosas, todo amor que sentirmos. Para sermos compreendidos, entretanto, é preciso que o outro esteja atento, ou, do contrário, não perceberá que cada respiração que damos ao seu lado é o sinal de uma grande afeição que sentimos por ele.

Deus, que nos ama infinitamente, quer fazer com que saibamos o quanto somos importantes para ele e também o quanto somos amados por ele. Porém, ele é muito sutil e paciente no seu amor, e espera que compreendamos o quanto ele nos deseja agradar, o quanto ele quer que sejamos felizes. Para isso, ele nos fala, nos atende e nos responde, procurando fazer com que ouçamos as suas mensagens.

O canto de um passarinho, que ecoa pela janela do nosso quarto, pode ser a voz de Deus incentivando para que sigamos adiante, perdoando as nossas faltas, dizendo que não estamos sós, falando aos nossos corações...

Além de escutarmos, precisamos sentir,além de enxergarmos, precisamos contemplar, e, além de buscarmos a resposta, precisamos aprender a receber a resposta, assim, cada murmúrio do vento, cada fresta de luz atravessando a sala, e cada trinado de ave será uma palavra de Deus...

Emerson Barros de Aguiar.
Jornalista e filósofo.

Publicada no Jornal O Norte.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Emerson Barros de Aguiar - A leveza da vida.




Um conto - uma crônica

Era uma linda manhã do verão europeu.

Eu caminhava tranquilo, observava as flores coloridas e árvores. Estava despreocupado de tudo. Mente vazia, coração pleno. Um leve sorriso no meu rosto.

Uma brisa leve me acariciava.

Meu tênis tocava suavemente o chão. Em vez de dar socos na terra, os meus pés pareciam afagá-la a cada passo. Eu podia sentir o planeta respirar abaixo no asfalto e do concreto.
Olhava o céu e apreciava os rasgos de horizonte que apareciam entre os prédios e as casas, sabendo que a sua linha continuava para muito além de qualquer limitação arquitetônica.

Sentia-me tranquilo e feliz.

Quando passei em frente a um "locutório", um centro telefônico, um garoto de uns 6 anos me disse, sorrindo:" olá!". Eu percebi que ele dizia aquilo como se fosse para alguém de sua própria idade. Não sentia barreiras entre mim e ele. Eu lhe respondi também com um sorriso: "olá!".

De fato me dei conta de que quando nos permitimos, podemos nos tornar puros como uma criança. É um sentimento maravilhoso!

A pergunta que me fiz imediatamente foi: "Por que nos privamos tanto tempo disso?"

Na escola não aprendemos nada sobre felicidade.Crescemos totalmente incompetentes para a felicidade e passamos a experimentar um pouco de tudo, em toda parte, buscando alguma alegria e satisfação. "A felicidade não se ensina!". É mesmo? Certamente quem é infeliz não pode dar o que não tem.

Certamente a vida nos oferece inúmeras razões para vivermos, a maior parte do tempo, muitos felizes. Estou convencido de que 98%, ou mais, das situações de infelicidade são geradas diretamente por nós mesmos. Os outros 2% , indiretamente.

Sem fé na vida e sem a convicção de que tudo concorre para algo melhor, ainda que não sejamos capazes de ver, de fato a felicidade não é possível. Sem fé tudo é muito mais complicado. A vida não anda, e tudo falha.

A vida é uma sucessão contínua de bênçãos e de oportunidades! O sentido das "adversidades" não é gerar infelicidade, mas sim convidar à reflexão e à paciência. Tampouco o modo como os outros nos tratam é uma causa real de infelicidade. Os outros são como são. Cabe-nos, portanto, respeitá-los e amá-los como eles são, sem tentar modificá-los.

Não há porque agredir ninguém. Expor com tranquilidade as próprias idéias e ser capaz de ouvir, torna a vida mais agradável e amena. Olhar com otimismo todas as circunstâncias da vida, ajuda a ter uma atitude receptiva a tudo o que é bom. O melhor investimento para sermos felizes, com juros e correção, é servir os outros e ser útil à paz do mundo. Esta, inclusive, é uma oportunidade que devemos agradecer sempre que a encontramos.

Há pessoas tão infelizes que pensam que a felicidade é uma enfermidade! Muitos sintomas de felicidade estão dicionarizados como patologias.

Imagine alguém caminhando descalço pela rua, sobre a grama, ou indo a uma reunião descalço. "É doido!"

Imagine alguém deixando um emprego cretino, cheio de colegas robotizados e chefes sádicos, para receber menos dinheiro e muito mais satisfação?" É um irresponsável!"

Imagine alguém fugindo de um hospital, para viver com dignidade os momentos que ainda possui, com alegria e prazer, na companhia daqueles a quem ama? "Detenham-no!"

Imagine uma escola rasgando o véu da hipocrisia e não atribuindo nenhuma nota a alunos e dizendo que se eles não quiserem assistir aulas, tudo bem. "Onde é isso? Vamos fechar! Cadê a fiscalização?"

Imagine dizermos para todos aqueles a quem amamos que os amamos e, para todos aqueles que não conhecemos, que desejamos que sejam felizes de verdade? "O que pretende com isso?"

Não há cruz nenhuma a levar, quando descobrimos que ajudar os outros é um privilégio que nos foi dado!

Não há castigo algum, quando enxergamos os desafios como oportunidades.

Não há decepção nenhuma, quando percebemos que a visita da verdade é uma libertação de antigas e inúteis ilusões.

Não há sofrimento, quando percebemos que dor acaba sempre por nos melhorar.

Não há solidão, quando a vida nos convida para o trabalho abundante e útil em toda parte, todos os dias. E, também, se aproveitamos o silêncio para refletir e melhorar.

Não há incompreensão, quando percebemos que aquilo que nos cabe não é o esforço para nos fazer entender, mas sim o simples gesto de compreender os outros.

Não há fracasso, quando a diretiva maior do universo é colhida e compreendida por nós: recomeçar sempre!

Não há ofensa, quando temos um estoque abundante de perdão.

Não há obstáculos, se estamos sempre dispostos a trabalhar e a nunca desistir.

Não há conflitos insuperáveis, se estamos dispostos a tolerar e a compreender.

Não há menosprezo nem abandono, se estamos dispostos a amar desinteressadamente a todos, acima de qualquer egoísmo.

Não há peso, porque a vida é leve!...

Emerson Barros de Aguiar.
Jornalista e filósofo.

Publicada no Jornal O Norte.

domingo, 30 de maio de 2010

Emerson Barros de Aguiar - Limpar o coração



Um conto - uma crônica

O bom senso nos esclarece que é totalmente inútil maldizer a ignorância daqueles que procuram nos prejudicar.

Em primeiro lugar porque a pedagogia da reprovação é um recurso equivocado e inócuo.


O mundo não se modifica por causa de nossas reclamações.

Ninguém se sente estimulado a mudar por ter sido castigado por palavras rudes ou por agressões físicas.

Ao contrário, os vícios e fraquezas podem ser fixados no caráter por repreensões violentas.

Usar de cortesia e gentileza para com todos, a despeito do modo como somos tratados, é colocar brasas na mente do algoz.

Não é preciso afagar aqueles que nos desejam mal, é necessário apenas que os tratemos bem, seguindo o adágio persa que diz:

"com os amigos sê carinhoso, com os inimigos sê cortês."

Alguém que não sabe que o mal que pratica lhe trará enormes prejuízos futuros não está necessitado de condenações, mas de amparo...

É certo que, algumas vezes não podemos ajudar os semelhantes mais empedernidos no mal através da argumentação, por mais lúcida que seja, pois o auxilio verbal não lhes abrirá o coração.

Contudo, mesmo diante da impossibilidade do diálogo amigo, ainda podemos perdoar e amar.

Diante da aspereza e da resistência do irmão equivocado, a compreensão da sua condição e a exemplificação do bem através de atitudes práticas é o melhor caminho...

Já dizia o pobrezinho de Assis:

"As palavras convencem, os exemplos arrastam..."

O raio de luz não se queixa do mau cheiro do pântano, mas vai até ele, o ilumina e parte em silenciosa indulgência...

Um inocente só sofre agressões e padecimentos em decorrência do sacrifício voluntário em benefício do progresso moral dos seus semelhantes, tão somente nessa circunstancias.

Não é esse, porém, o caso de todos os que reclamam justiça diante de um desfavor sofrido.

A perseverança no bem e a prática da caridade são os fatores preponderantes para a construção de um futuro livre de consequências dolorosas.

A bondade e o amor são também os pressupostos básicos para a superação das atribuições que enfrentamos no agora com vistas à perfeição e à felicidade...

Por que condenar o semelhante, se um dia fomos capazes das mesmas grosserias que hoje censuramos?

Não se trata de aprovar o homem iludido em seu erro, mas sim de compreendê-lo, de perdoá-lo e de contribuir para a sua recuperação, seja através da interseção direta, ou seja, mao menos, por meio da oração, rogando pelo seu esclarecimento espiritual...

O perdão incondicional é ainda a panacéia espiritual que nos descerra a senda do crescimento moral...

Caminhar o dobro ou o triplo do que pediu o nosso algoz,
dar a outra face e tolerar as imperfeições alheias,
mantendo sempre a nossa dignidade e dando o testemunho da justiça,
é o modo mais correto de arrebatar novos colaboradores para a seara do bem e
de combater o mal no mundo.

Quando limpamos o nosso coração do rancor, do ódio e da mágoa,
impedimos que esses sentimentos negativos intoxiquem a nossa interioridade e poluam o mundo.

Como disse Dom Hélder Câmara, " Há pessoas que são como a cana-de-açúcar:
mesmo postas na moenda e reduzidas a bagaço, só sabem oferecer doçura."

O resseentimento é uma terrível mácula provocada pela incapaciadade de perdoar e de esquecer.

Se permitirmos que ele se aloje em nossa alma, estaremos nos condenando a doenças psíquicas e físicas a curto, médio ou longo prazo,
o que se constituirá, por fim, numa forma sofisticada de suicídio inconsciente.

Por isso, a divina poesia de Saadi sugere uma atitude análoga à da encantadora legenda de
Dom Hélder:"Sê como o sândalo, que perfuma o machado que o fere",

que é confirmada tanto pela sábia definição de perdão de Mark Twain:

"Perdão é o perfume que a violeta deixou no sapato que a pisou",

quanto pela doce reflexão de Tagore:

"O chão recebe insultos e os devolve flores..."


Emerson Barros de Aguiar.
Jornalista e filósofo.

Publicada no Jornal O Norte.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Emerson Barros de Aguiar - Estar consciente...



Um conto - uma crônica

Estas são algumas sugestões para transformar a sua realidade pessoal e mudar a sociedade em que você vive:

O que você pensa, fala e faz pode ajudar a construir ou a destruir o mundo.

Por isso fique atento aos ses pensamentos, palavras e ações.

Todo conhecimento evolui.
Por isso, é necessário aprender a se desapegar de velhas opiniões
para que o saber novo possa surgir.
É na vida que se aprende e não através de conceitos.

É necessário criar um ambiente de harmonia ao seu redor,
escolhendo companhias equilibradas e ocupações construtivas.
Para isso, você deve observar o seu comportamento e o dos que estão ao seu redor,
para descobrir no que você e os outros estão contribuindo
para a causa da paz.

Somente através do amor, da paciência, da tolerância ed o diálogo,
você pode ajudar os que estão na ignorância do vício ou do fanatismo,
nunca através da violência intelectual ou física.

É preciso combater o mal.
Permaneça vigilante e não conceda que sua boca dissemine a maldade.
Não permita que a injustiça se propague, mas evite e corrija erros, tanto seus como dos outros.

São pequenas coisas que afirmam a sua fé.
Aos olhos de Deus, a humildade do seu trabalho honesto brilha mais do que qualquer tesouro.
Lembre-se que mesmo a construção da grande Muralha da China dependeu do simples gesto de pôr um bloco de pedra sobre o outro.

Ajude tanto quanto puder aqueles que precisam de sua atenção e do seu auxilio, seja ele espiritual ou material. Mas não fale de Deus para um homem faminto sem lhe dar o que comer.

Pois como disse Gandhi: " Até mesmo Deus só pode falar com quem passa fome em termos de pão."

Existem muitas armadilhas para a sua vaidade.
Você não deve se sentir diferente porque faz o bem.
Sinta-se um servo, um instrumento que deve ser útil enquanto houver trabalho a realizar.

A sinceridade é fundamental.
Não engane ninguém. Respeite os sentimentos dos outros, mas nunca finja que gosta de alguém. Procure compreender a todos, mesmo aos maus, mas jamais dissimule amor.

O ódio nada constroe. A paz é um fruto do amor. O rancor e a mágoa cegam o espírito.
Procure não experimentar esses sentimentos. Preencha o seu coração de compaixão e não deixe espaço para ressentimentos.

A humildade é sinal de maturidade. Seja prudente e escute aqueles que estão mais adiantados na caminhada espiritual. Saiba que eles têm muito a ensinar e que o seu aprendizado nunca termina.

Apesar das guerras, da conrrupão, da fome e da mortalidade de nossas crianças,
o mundo é um lugar maravilhoso. O sol que nasceu hoje no horizonte é lindo e o capim em que pisamos é um milagre que nenhum laboratório humano pode produzir.

Veja o bem que o cerca.
Aprenda a olhar o lado bom da vida e descubra que existem pessoas nobres no mundo.
Existe um caminho a ser seguido e, para seguí-lo, você precisa de disciplina.
Somente quem é perfeito pode abrir mão da disciplina.

Cultive a oração, a meditação eo silêncio.
Respeite a verdade dos outros como uma parte da Verdade Maior.
Todos têm direito à felicidade, inclusive você.
Na alegria do seu coração você pode encontrar a paz, a verdade, o amor e a perfeição.

Há um sentido para a sua vida.
Você não está aqui por acaso, pois todos têm uma missão a cumprir.
Conscientize-se de que junto comos rios, pássaros e montanhas
você faz parte do plano de Deus.

Não desperdice o seu tempo, e faça de cada minuto uma oportunidade de semear o amor.
Cabe a você ser o que você é. Você não é a roupa que veste, nem o nome que tem. Você é um ser cósmico que tem atributos como a imortalidade e a perfeição. Mas é você mesmo que deve se conscientizar disso e escolher o ritmo do seu progresso.

Há sempre uma porta aberta, uma saída e uma esperança. Sempre existe um caminho. Por pior que sejam os seus pecados, a melhor maneira da corrigi-los não é se espojando na lama.

A vida recomeça agora, e você é capaz de fazer diferente!

Emerson Barros de Aguiar.
Jornalista e filósofo.

Publicada no Jornal O Norte.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Emerson Barros de Aguiar - Ter Sofrido



Um conto - uma crônica

Este poema de Mário de Andrade encerra uma significação profunda:

"Escuta as árvores fazendo a tempestade berrar.
Valoriza contigo estes instantes
Em que a dor, o sofrimento,
feito vento, são consequências perfeitas
Das nossas razões verdes,
Da exatidão misteriosíssima do ser."


Não se pode dominar a dor escondendo-a, ou se escondendo dela. Ela faz parte da vida.
Se olharmos a nossa volta, podemos perceber que ela está presente de várias formas.
Mesmo que desejemos que o sofrimento não se apresente, ainda com mais força ele se apresenta.

Isso porque não podemos ir contra a natureza das coisas.

É uma tolice imaginar a perfeição como a faculdade de não exergar o sofrimento. A perfeição não tem nada a ver com isso.Ver perfeitamente é compreender as coisas como elas são.

Muitas vezes tendemos a ver à felicidade como uma conjugação de circuntâncias favoráveis, na qual haja a menor parcela de sofrimento possível.
Baseamos-nos nisso, então olhamos para nós mesmos, e para os outros e julgamos se temos ou não motivos para nos acreditarmos felizes.

Porém, considerando-se que somos resposáveis, em maior ou menor grau, por todo o sofrimento que nos ocorre, podemos constatar que essa crença, se não é totalmente falsa, omite boa parte da verdade.

A dor tem uma razão de ser:
O alcance de uma compreensão maior sobre as implicações de se estar vivo.
Enquanto esta consciência não floresce, a dor persiste.

Contudo, existem dois tipos de sofrimento:

aquele causado pela nossa própria ignorância e
aquele por causa da ignorância dos outros.

Esse segundo tipo é mais um lamento por aqueles que "não sabem o que fazem", ou seja, que desconhecem que o mal que praticam provoca sofrimento futuro para si mesmos.

Esta é a dor das almas puras e dos santos.

O sofrimento não existe simplesmente para que nós desejemos que ele não exista. Isso não terá sentido.

A tradição budista sintetiza bem isso através das "Quatro Nobres Verdades".

A primeira delas fala sobre a existência do sofrimento,
a segunda, afirma que todo sofrimento nasce do desejo inclusive do de não sofrer;
a terceira, diz que o sofrimento se extingue do desejo;
e a quarta, aponta o caminho de oito passos para a cessação do desejo.

Quem desperdiça o seu tempo tentando se esconder do próprio sofrimento e fugindo da dor dos outros, sem meditar sobre as razões das suas dores e sem procurar minimizar os sofrimentos alheios, naquilo que for ossível, não está sabendo aproveitar o sofrimento.

Porque, quando ajudamos as pessoas que estão sofrendo, a nossa própria dor diminui.

Gilbran, falando da dor, disse que ela é "a amarga porção com a qual o médico que está em vós cura o vosso Eu doente.

Confiai, portanto, no médico, e bebei seu remédio em silêncio e com tranquilidade.

Porque sua mão, embora pesada e dura, é guiada pela suave mão Invisível.

Se, por um lado, a dor martiriza e lascina, por outro ela humaniza e santifica.

No sofrimento, o homem se solidariza com o seu próximo, compadecendo-se das chagas e trazendo-o para mais perto de si.

Não vai aqui nenhuma apologia ao sofrimento, mas apenas a lembrança de que se ele corretamente assimilado, irá se constituir numa lição que não precisa ser repetida.

Nas palavras sensatas do Mestre Eckhart:

"Nada é mais amargo do que o sofrer, e
nada é mais doce do que o ter sofrido.
Aos olhos dos homens, o que mais desfigura o corpo é o sofrer;
Aos olhos de Deus, o que mais embeleza a alma é o ter sofrido."

Emerson Barros de Aguiar.
Jornalista e filósofo.

Publicada no Jornal O Norte.