Um conto - uma crônica
Um sábio chinês depositou sobre o túmulo de um amigo ausente um prato de arroz ainda quente.
A pessoa que estava em frente à lápide vizinha tinha acabado de deixar flores sobre a mesma e, intrigada com o gesto do velho chinês, disse:
- O senhor acha realmente que o seu morto vai mesmo comer esse prato de arroz?
-Claro que sim. No mesmo dia em que o seu vier cheirar as flores - respondeu docemente o sábio.
No mundo, cada qual tem seu própio modo de ver cada situação.
René Descartes, o filósofo francês, iniciou a primeira parte do seu "Discurso do Método" com uma afirmação emblemática: " A razão parece ser a coisa mais bem distribuida no mundo, pois cada um se acha tão bem provido dela, que mesmo os individuos mais difíceis de contentar, não costumam desejá-la mais do que a possuem."
Podemos afirmar que "intuitivamente" sabemos que nenhum ser humano detém a verdade absoluta. Em decorrência dessa "certeza íntima", identificamos a "verdade" que vislumbramos como uma interpretação válida dos fatos e das coisas, por mais tosca que ela possa ser.
De fato, se ninguém é o dono da verdade, a "verdade" que enxergamos, mesmo limitada, também possui um determinado grau de validade. Nenhum indivíduo está totalmente equivocado, pois, mesmo estando atolado até o pescoço na mais pantanosa ignorância, ele ainda se conserva num determinado nível de distanciamento da Verdade Maior. Em outras palavras: não existe estágio de degradação tão avançado que isole completamente o indivíduo de Deus.
E, se Deus, que é Perfeição Absoluta, tem esse nível de tolerância para com aqueles que descem tão fundo nos precipícios do erro, por que nós não o teríamos uns para com os outros?
No mundo em que vivemos coexistem diversos "mundos", cada um deles fruto de uma concepção diferente de sociedade, de justiça e até de felicidade. Uns querem um mundo mais "igualitário", outros desejam um mais "competitivo". Outros ainda, acreditam que não deveriam existir tantas idéias diferentes, e assim, além de quererem sobrepujar a vontade dos outros, desejam também sobrepujar a de Deus, que permite que cada um se conduza segundo aquilo em que acredita.
"Todos vivemos sob o mesmo céu, mas nem todos vêem o mesmo horizonte", estas são palavras atribuídas a Konrad Adenauer. Da combinação desses diferentes horizontes, surge o mundo em que estamos. Deus permite que sigamos as nossas próprias opiniões, porém este fato não nos autoriza a engendrarmos uma realidade desordenada e confusa. Por isso, somos cúmplices do mal na medida em que contribuimos para a desarmonia planetária.
Sabendo respeitar o pensamento dos semelhantes, por mais que ele nos pareça insipiente, estamos contribuindo para o equilíbrio e a harmonia do mundo. Devemos ter em vista que, se alguns nos parecem tolos, nossa tolice também fica evidente se nos compararmos aos que não possuem os nossos defeitos.
Os outros não estão necessariamente errados por não concordarem conosco, nem são inferiores a nós porque não possuem as nossas crenças, desejos ou propósitos.
Admitir a pluralidade de pensamento é concordar com algo que já está instituido no próprio universo.
Quem quer impor a sua maneira de pensar, sem respeitar a liberdade dos outros, está produzindo para si aborrecimentos e aposições. Argumentações violentas suscitam respostas de igual teor. A intolerância gera mais intolerância. Os insultos provocam novas injúrias e ultrajes. Dessa forma, cria-se um círculo vicioso, que só pode ser quebrado pela compreensão, pela tolerância e pelo respeito.
Cada um é o seu próprio intérprete da verdade, por isso não podemos obrigar os outros a pensarem como nós.
É certo que existe uma Verdade Absoluta, que serve de paradigma para as "verdades" individuais. porém, nós somente nos aproximamos dessa Verdade Plena quando procuramos nos conduzir com bondade, usando de cortesia para com os outros, mesmo para com aqueles que discordam de nós.
A verdade está em nosso próprio coração e é análoga à cosmovisão que possuímos em cada momento da nossa existência. Isso quer dizer que ela não violenta a nossa compreensão, isto é, se só a podemos ver em parte, é assim que ela se mostra. Quando, porém, a pudermos enxergar face a face, ela se mostrará por inteiro. Assim, precisamos entender que devemos à verdade dos outros o mesmo respeito que temos pela nossa própria, pois ambas são apenas diferentes "visões" de uma mesma paisagem...
Emerson Barros de Aguiar
Jornalista e filósofo.
Publicada no Jornal O Norte.
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
Emerson Barros de Aguiar - Respeitar as verdades dos outros
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