um conto-uma crônica
No começo era a alegria. Um país alegre, chamado Brasil, feliz por si e por seu povo. Um país de contrastes que se completavam numa festa só, que se chamava Carnaval.
Depois, veio a política e fez dos homens gladiadores de uma arena só.
E o povo nunca mais conseguiu ser feliz.
Aos poucos, cada vez mais triste e infeliz, a terra foi secando, secando e os verdadeiros homens foram morrendo, a vegetação murchando, os rios estancando nas fontes e o peito da pátria rachando, como costumam rachar as telas das mulheres desamadas, cobertas de varizes, povoadas de filhos e despovoadas de seus machos.
Era um país sonhador.
Sonhava que podia ser maior nas aquarelas, nos sambas e nas manchetes do que nos textos escolares, nas estatísticas e nas contas bancárias a pagar a Deus e ao mundo.
Sonhava, porque era um país sonhador.
Era.
Depois, veio a dívida e, junto com ela, os credores, finalmente os números, a moeda falsa, a ruína.
E nunca mais ousaram sonhar neste país das alegorias em desfile nacional e das ilusões estendidas no varal.
Os mitos insepultos ainda vagaram pelas pistas a 300 quilômetros por hora. Mas também derrapavam com facilidade e acabaram morrendo nas curvas traiçoeiras.
Vez por outra, as recordações mais gratas viravam letras de canção.
"Vou te contar
Os olhos já não podem ver
Coisas que só o coração
Pode entender
Fundamental é mesmo o amor
É impossível ser feliz sozinho
Agora eu já sei
Da onda que se ergueu no mar
E das estrelas
Que esquecemos de contar
O amor se deixa surpreender
Enquanto a noite vem nos
envolver."
Surpreso, o amor deixou-se envolver pela noite, pelo silêncio das coisas irremediáveis, pelo vazio das ausências mais inconsoláveis.
E nunca mais foi possível abrir o mesmo sorriso, nem murmurar as mesmas palavras, nem recitar os mesmos versos.
Foram-se os homens dos regaços de suas mulheres.
Foram-se os poetas dos rastros das estrelas que sobravam da madrugada e se infiltravam pelas frestas dos barracos.
Foram-se os mitos dos cadernos encantados da infância.
Foram-se todos.
Ficamos nós, os órfãos das mulheres desamadas.
Restou esse talho da dor exposta em carne viva.
Foi tudo quanto restou.
Ah, se todos fossem iguais a você.
Luiz Augusto Crispim.
Escritor, jornalista e advogado.
A Dama da Tarde.
Página 86 e 87.
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