quarta-feira, 27 de julho de 2011

Germano Romero - Lições De Viver


um conto - uma crônica

Dois dias antes de embarcar para Israel, aparece-lhe uma dorzinha nas pernas ao andar, o que me fez sugerir:"não quer adiar a viagem? "- "Não , é só quando acordo, depois passa", respondeu.

Assim, Carlos Romero topou mais uma aventura além mar. Sim, porque toda viagem é uma aventura. Novos ares, novos contatos, novos meios de transporte, tudo pode ser veículo de surpresa.

E grande foi a maratona do primeiro dia a subir e descer escadas nas vielas por onde passou Jesus, em Jerusalém. Uma bela cidade em que a parte antiga e a nova progridem juntas e modernizam-se sem perder a autenticidade.

Dia seguinte, os efeitos: a dor aumentara e já era difícil caminhar... E agora? - entreolhamo-nos. Telefonamos ao Brasil, para falar com o clínico "conselheiro" da família, Marcos Aurélio Barros, que, pelo relato dos sintomas, nos tranquilizou afastando uma medida emergencial. E resolvemos prosseguir. Vieram Tiberíades, Belém, Cafarnaum, Nazaré, Jericó, o Mar Morto, e ele atento a tudo, inobstante não contasse com a saúde das pernas, que tanto usa nas caminhadas pela enseada do Cabo Branco.

Em Tel-Aviv a coisa piorou, e eis-nos diante de um enorme centro médico onde se confirmou a estenose lombar. Analgésicos prescritos, rumamos para a Suíça. Impressionava a sua serena disposição turística. Depois de Lucerna, em Zurique, ele já não conseguia andar sozinho. Ainda assim, passeamos de carro, em restaurantes, curtimos a neve em Engelberg e muitas fotos.

Em Londres, última cidade, veio a idéia: alugar uma cadeira de rodas. Será que ele topa? O quê? Concordou na hora! Pouco mais entregavam uma cadeira novinha na recepção do hotel em Picadilly Circus, e logo batemos à porta do seu quarto - "vamos?"

Nem precisa dizer que foi uma adorável maratona. Vimos na Abadia os preparativos do casamento de Kate e William, voltamos pelo St. James, atravessamos a ponte do parlamento, fomos ao Royal Festival Hall, Covent Garden. No meio da rua ele chegou a brincar:"mas como é bom uma cadeira de rodas! Se eu soubesse já tinha me aproveitado antes!"No dia seguinte, livrarias na Charing Cross, passeios pela Oxford, Carnaby e Regent street, e, no jantar, após um Balé no ENO, celebrávamos sua incrível e bem humorada disposição.

Voltamos ao Brasil, e, em 2 meses, após 2 intervenções magistralmente regidas pelos cirurgiões Ronald Farias e George Guedes Pereira, muito bem acomodado no Memorial do Dr. Ítalo Kumamoto, vi ontem o que não quis acreditar. Na Av. Cabo Branco, lá ia ele ao lado de sua amada, caminhando "desembestado" no calçadão, fazendo o estimado cooper diário.

Calado e emocionado, pensei: Ele não existe. Isso é que é saber viver!...
Germano Romero
Arquiteto.

Publicado no jornal Correio da Paraíba
Edição de 22/07/2011.
Coluna Opinião.

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