terça-feira, 19 de julho de 2011

Onaldo Queiroga - Eutanásia Musical


Eu era criança, quando um som majestoso aportou aos meus ouvidos. Uma harmonia perfeita de uma sanfona com um violão. Era um disco de Sivuca comprado por meu pai. O disco trazia um repertório de um show do Projeto Seis e Meia, onde o mestre Sivuca era acompanhado de um violão encantador e feminino. Eram cordas dedilhadas por Rosinha de Valença. O som daquele violão permaneceu no meu ouvido, mas o tempo foi passando e não mais ouvi aqueles acordes de Valença.

Li jornais, naveguei na internet por diversas vezes à procura do paradeiro musical daquele violão. Todavia, nada descobria. Apenas soube que Rosinha era da cidade de Valença/RJ, nascida em 30 de julho de 1941. Descobri também que começou a tocar violão na infância e, quando passou a morar, em 1963, na cidade do Rio de Janeiro, fora, na época, descoberta por Baden Powell.

Muitos ainda afirmam que sua atuação com Baden Powell foi de fundamental importância para o rumo instrumental desenvolvido na bossa nova. Rosinha de Valença viajou com as cordas do seu violão pelo mundo, difundindo a música brasileira. Voltei a fazer novas buscas e nada encontrei. Mas, o que Rosinha de Valença e seu misterioso sumiço têm a ver com a eutanásia? Como sabemos, a eutanásia é a morte praticada, sem amparo legal, pela qual se busca abreviar, sem dor ou sofrimento, a vida de um doente reconhecidamente incurável.

Recentemente, acompanhamos nos EUA o caso "Terri" como ficou conhecido, o qual culminou numa grande polêmica sobre a eutanásia. Terri, uma mulher de quarenta e um anos, vivia há quinze anos vegetativamente.

Acontece, porém, que, por autorização judicial, atendendo pedido de seu marido, o tubo de alimentação foi desligado e, com isso, Terri veio a falecer.

Após a morte de Terri, o programa "Fantástico", da Rede Globo, exibiu uma longa matéria sobre o caso e, para a minha surpresa, as cordas do violão de Rosinha de Valença estavam ali presentes. A matéria informava que, em abril de 1992, uma parada cardíaca provocou lesão cerebral e deixou Rosinha em estado de coma.

Após passar doze anos em coma, Maria Rosa Canellas, a Rosinha de Valença, sessenta e dois anos, morreu de insuficiência respiratória, em sua cidade natal. Durante todo esse período de enfermidade, Rosinha de Valença teve dos seus familiares o carinho e a dedicação necessária até a sua morte.

Ressalte-se que ninguém buscou antecipar o seu falecimento. Uma irmã de Rosinha contou que sofria muito em vê-la imobilizada, movendo apenas os olhos. Mas, segundo esclareceu, mesmo que a Justiça permitisse, estaria descartada a morte de Rosinha por meio da eutanásia.

Contudo, impõe-se um registro. A mídia e todos aqueles que fazem a comunicação em nosso país, sem dúvida, praticaram a eutanásia musical. Foi preciso um caso internacional vir à tona, para os fãs e o povo brasileiro tomarem conhecimento do paradeiro de uma celebridade da nossa música. Tanto as emissoras de televisão como as de rádio precisam urgentemente repensar a programação musical. É preciso dar valor a quem tem qualidade.

Onaldo Queiroga
Escritor e Juiz de Direito.

Monólogos do Meu Tempo.
Páginas 64, 65, 66 e 67.

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