Eu era criança, quando um som majestoso aportou aos meus ouvidos. Uma harmonia perfeita de uma sanfona com um violão. Era um disco de Sivuca comprado por meu pai. O disco trazia um repertório de um show do Projeto Seis e Meia, onde o mestre Sivuca era acompanhado de um violão encantador e feminino. Eram cordas dedilhadas por Rosinha de Valença. O som daquele violão permaneceu no meu ouvido, mas o tempo foi passando e não mais ouvi aqueles acordes de Valença.
Li jornais, naveguei na internet por diversas vezes à procura do paradeiro musical daquele violão. Todavia, nada descobria. Apenas soube que Rosinha era da cidade de Valença/RJ, nascida em 30 de julho de 1941. Descobri também que começou a tocar violão na infância e, quando passou a morar, em 1963, na cidade do Rio de Janeiro, fora, na época, descoberta por Baden Powell.
Muitos ainda afirmam que sua atuação com Baden Powell foi de fundamental importância para o rumo instrumental desenvolvido na bossa nova. Rosinha de Valença viajou com as cordas do seu violão pelo mundo, difundindo a música brasileira. Voltei a fazer novas buscas e nada encontrei. Mas, o que Rosinha de Valença e seu misterioso sumiço têm a ver com a eutanásia? Como sabemos, a eutanásia é a morte praticada, sem amparo legal, pela qual se busca abreviar, sem dor ou sofrimento, a vida de um doente reconhecidamente incurável.
Recentemente, acompanhamos nos EUA o caso "Terri" como ficou conhecido, o qual culminou numa grande polêmica sobre a eutanásia. Terri, uma mulher de quarenta e um anos, vivia há quinze anos vegetativamente.
Acontece, porém, que, por autorização judicial, atendendo pedido de seu marido, o tubo de alimentação foi desligado e, com isso, Terri veio a falecer.
Após a morte de Terri, o programa "Fantástico", da Rede Globo, exibiu uma longa matéria sobre o caso e, para a minha surpresa, as cordas do violão de Rosinha de Valença estavam ali presentes. A matéria informava que, em abril de 1992, uma parada cardíaca provocou lesão cerebral e deixou Rosinha em estado de coma.
Após passar doze anos em coma, Maria Rosa Canellas, a Rosinha de Valença, sessenta e dois anos, morreu de insuficiência respiratória, em sua cidade natal. Durante todo esse período de enfermidade, Rosinha de Valença teve dos seus familiares o carinho e a dedicação necessária até a sua morte.
Ressalte-se que ninguém buscou antecipar o seu falecimento. Uma irmã de Rosinha contou que sofria muito em vê-la imobilizada, movendo apenas os olhos. Mas, segundo esclareceu, mesmo que a Justiça permitisse, estaria descartada a morte de Rosinha por meio da eutanásia.
Contudo, impõe-se um registro. A mídia e todos aqueles que fazem a comunicação em nosso país, sem dúvida, praticaram a eutanásia musical. Foi preciso um caso internacional vir à tona, para os fãs e o povo brasileiro tomarem conhecimento do paradeiro de uma celebridade da nossa música. Tanto as emissoras de televisão como as de rádio precisam urgentemente repensar a programação musical. É preciso dar valor a quem tem qualidade.
Onaldo Queiroga
Escritor e Juiz de Direito.
Monólogos do Meu Tempo.
Páginas 64, 65, 66 e 67.
terça-feira, 19 de julho de 2011
Onaldo Queiroga - Eutanásia Musical
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