O tempo passa, arrastando-nos com ele, nos seus percursos. Mas, não é durante o ano inteiro que ficamos a pensar se o dia de amanhã ainda nos cobrirá de sol.
Essa perscrutação invade-nos, precisamente, na devida data de sua comemoração: a do Ano Novo. E, embora a adjetivação leve-nos a querer tempos melhores, em todos os sentidos, o pensamento, cauteloso, segura-nos pelas raízes e obriga-nos a olhar para os meandros da nova era.
A reflexão que os domina perpassa, em primeiro plano, pela mãe natureza, fonte de vida e dos primores dos cantos dos pássaros que, ao lance do alpiste no terreiro, acorrem com agradecidos trinados, para junto do seu benfeitor.
Essa cena poética e original não enternece os ávidos de lucros. Nas sombras do comércio ilegal, atacam a orquestra afinada. Fazem-na emudecer a canção de acordes celestiais, cheia de encanto e beleza, de doce e afinados timbres. À noite, a mata cobre-se de luto e lamenta, em profundo silêncio, a depredação de suas riquezas naturais.
De amargura, contudo, ninguém deve alimentar-se. Mas, como? Se o passeio público, se as ruas pacatas, se os idílicos e estreitos becos tornaram-se cenários de violência atroz. Se as fantasias da juventude estão enclausuradas em telas cibernéticas, mecanicamente, sem garoa e sem luar.
O sonho tão lindo de ver estrelas, de contemplá-las ao frio do sereno, de haurir o saudável iodo espalhado ao longo do oceano pela força da procela até atingir o quebradouro sob a forma de tumultuosa vaga do mar, não deve morrer!
Sonhar é ventura; é, acima de tudo viver! Mas, como sonhar, se no banco da praça, de dia ou à noite, não se pode ficar? Se a insistência d nele sentar, pode custar, nos tempos modernos, a qualquer um, a desventura de ser atingido por inopinada agressão de perverso celerado?
Esse cenário catastrófico não deve, porém, ser considerado óbice às curas das dores do mundo. Curam-nas as ilusões fagueiras, as esperanças que renascem a cada fase de intempérie.
Na alma, sempre há uma luz que vem do céu. A réstea que dela escapa iluminará o novo caminho que os homens devem seguir no novo ano que hoje nasceu. E, embalados nos ares perfumosos que os ventos bafejam, resistirão ao perpassar do tempo, segurando na mão de Deus.
Onélia Queiroga
Escritora e Professora de Ciências Jurídicas da Faculdade de Direito da UFPB
Publicada no jornal Correio da Paraíba
Coluna: Aos Domingos
Publicada no jornal Correio da Paraíba
Coluna: Aos Domingos
Caderno: Cultura/Lazerr
Edição 30/12/2012.
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