Saúde
Sintomas, prevenção e tratamentos para uma vida melhor
'Síndrome sensorial': entenda diagnóstico do filho de Giovanna Ewbank

Giovanna Ewbank e Bruno Gagliasso posam com o filho Bless, 7
Imagem: Manuela Scarpa/Brazil News
Camila Mazzotto
Do VivaBem, em São Paulo
25/01/2023 14h52
A atriz e apresentadora Giovanna Ewbank, 36, revelou que seu filho do meio foi diagnosticado com uma síndrome sensorial. Segundo ela, Bless, de 8 anos, "ouve mais do que nós todos e sente mais cheiros".
O relato foi feito durante a edição mais recente do Quem Pode, Pod, podcast que a atriz comanda ao lado de Fernanda Paes Leme no YouTube. "Durante a pandemia, o Bless começou a ficar muito aéreo, [fazendo] algumas coisas que eu achava um pouco estranhas", afirmou Ewbank.
A atriz disse que, no início dos sintomas, cogitou a possibilidade de o filho ser autista. "Até que uma médica em São Paulo o diagnosticou com uma síndrome sensorial", disse ela.
Diversas vezes ele passava, por exemplo, pela cozinha, e falava: 'ai, que cheiro forte!'. E eu falava: 'Bless, para com isso. É frescura, filho! É o cheiro da cebola'. Quando ele pisava na grama e falava: 'me tira daqui!'. E eu falava: 'filho, para de frescura, é só grama'. Queria muito colo, não gostava de ir para o meio do mato - onde a gente vai muito - porque o barulho das moscas incomodava ele. Giovanna Ewbank, sobre filho que recebeu diagnóstico de síndrome sensorial.
O que é síndrome sensorial
O neuropediatra Anderson Nitsche, do Hospital Pequeno Príncipe (PR), referência nacional em atendimento pediátrico, explica que a atriz provavelmente se refere ao chamado Transtorno de Processamento Sensorial (TPS, na sigla em português).
Segundo o médico, o transtorno ainda não consta nos manuais de medicina, mas já é reconhecido na prática como um componente de vários outros transtornos.O problema é mais frequentemente encontrado em pessoas com TEA (Transtorno do Espectro Autista), TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade) ou dispraxia (transtorno neurológico de coordenação motora).
Mas, em alguns casos, também pode aparecer isoladamente.
Trata-se de uma inabilidade de o cérebro processar e integrar os sentidos que capta do ambiente.
Nitsche dá um exemplo:
quando passamos perfume, imediatamente sentimos o cheiro do produto e notamos suas características —se ele é mais doce ou se tem cheiro de canela ou madeira.
Minutos depois, porém, o cérebro "deixa de pensar" naquele cheiro.
"É como se o cérebro dissesse 'olha, se você ficar sentindo esse cheiro o tempo todo, você pode ficar um pouco maluco' e a gente vai parando de perceber aquele cheiro, porque o próprio cérebro organiza essa informação".
Nas pessoas com TPS, contudo, isso não acontece. Os receptores funcionam —no nariz, na boca, no ouvido—, mas o processamento e integração dos sentidos no cérebro é falho.
O transtorno de processamento sensorial é uma dificuldade de integrar e dar real significado para cada uma das informações sensoriais que o cérebro recebe. Então, a pessoa pode ficar percebendo um cheiro por muito tempo, e um cheiro que poderia ser prazeroso fica desagradável. Ou um ruído que normalmente as pessoas toleram, como o som do aspirador de pó, se torna extremamente irritante. Anderson Nitsche, neuropediatra do Hospital Pequeno Príncipe (PR).

Imagem: iStock
Quais são os sintomas?
A criança pode perceber os estímulos com mais intensidade (hipersensibilidade) ou menos intensidade (hiposensibilidade).
Nos casos de hipersensibilidade, os sintomas mais comuns são:Ter a percepção de que as luzes e as cores são brilhantes demais e incomodam, ou que os sons ficam bem intensos;
Odores naturais também se tornam muito fortes e aversivos e as sensações táteis são interpretadas de modo extremamente profundo pela criança, causando incômodo para escovar os dentes ou cortar unhas, por exemplo.
E nos casos de hiposensibilidade:
A criança precisa de esforço maior ou de maior intensidade para perceber e aproveitar o estímulo.
Por isso, é comum que ela seja bastante agitada, leve objetos à boca, goste de muito barulho/sons altos e cheire tudo o que encontra pela frente.
Como é feito o diagnóstico e como diferenciar do autismo
Não existem exames laboratoriais ou de imagem para diagnosticar a síndrome sensorial. O diagnóstico é clínico, a partir de relatos dos pais, professores ou cuidadores da criança.
Instrumentos específicos de avaliação, como escalas, também são aplicados por terapeutas ocupacionais para avaliar como a criança processa informações sensoriais.
Além do terapeuta ocupacional, o diagnóstico também pode incluir neuropediatra, psiquiatra infantil, neuropsicólogo e fonoaudiólogo.
O médico Anderson Nitsche diz que é importante que os sintomas sejam analisados considerando o contexto geral da criança, pois, na maioria das vezes, existem outros transtornos associados.
A síndrome é muito comum em autistas, por exemplo. Os sintomas do TPS são, inclusive, um dos critérios de diagnóstico do autismo.
"Mas, no autismo, além do TPS, existem dificuldades na interação social e na comunicação, além de um padrão de interesses específicos, comportamentos repetitivos e dificuldade com mudanças de rotina", diferencia Julieta Sobreira Góes, neurologista infantil e professora da UNEB (Universidade Estadual da Bahia).
O que causa o problema?
Segundo os especialistas consultados por VivaBem, a síndrome é multifatorial, ou seja, é causada por diversos fatores, entre eles:
genética
Complicações pré-natais, no nascimento e nos primeiros anos de vida;
Fatores ambientais.
Crianças que são expostas a sensorialidades diversas com bastante precocidade e vários estímulos, especialmente nos dois primeiros anos, numa relação mais concreta com o ambiente, tocando, sentindo, cheirando, amassando, colocando na boca ou ouvindo estímulos diferentes, têm menos probabilidade de desenvolver esse transtorno do que crianças que ficam o dia inteiro no tablet ou num ambiente de pouca estimulação dentro de casa. Anderson Nitsche, do Hospital Pequeno Príncipe (PR).
Há relação com a pandemia?
A atriz Giovanna Ewbank contou que os sintomas do transtorno em seu filho tiveram início durante a pandemia, período no qual foi observado mundialmente um aumento nos casos de transtornos de desenvolvimento.
Algumas pessoas podem ficar se perguntando se existe alguma relação entre o cenário da covid-19 e o transtorno.
Segundo os especialistas ouvidos por VivaBem, como o problema é mutilfatorial, não pode ser atribuído diretamente à pandemia.
"No entanto, a pandemia alterou o modo de vida e o processo pelo qual as crianças são expostas e lidam com os diversos estímulos ambientais", avalia Julieta Sobreira Góes.
O isolamento social pode ter levado a um cenário de menos estímulos sensoriais e maior contato com as telas, por exemplo. Ao mesmo tempo, diz a neuropediatra, os pais podem ter ficado mais atentos ao dia a dia dos seus filhos, facilitando o diagnóstico.
Como funciona o tratamento
A síndrome pode causar prejuízos à qualidade de vida da criança, como o aumento dos níveis de ansiedade.
Ela pode ficar com medo de frequentar um lugar onde sabe que vai receber muito estímulo visual, como um supermercado.
Por isso, o tratamento visa estimular o cérebro a desenvolver a capacidade de processar, organizar e interpretar as sensações, respondendo de maneira apropriada ao ambiente.
Uma das técnicas mais utilizadas nesses casos é o protocolo de integração sensorial de Ayres, que foi desenvolvida pela neurologista e terapeuta ocupacional pioneira Anna Jean Ayres em 1989.
Ao longo do tratamento, a criança vai, aos poucos, recebendo estímulos sensoriais diversos.
Pode ser uma piscina de bolinhas, onde ela irá mergulhar e sentir as bolinhas encostando em seu corpo.
Ou uma sala com uma ponte pênsil, que vibra, para ajudá-la a aprender a andar sobre ela.
"Também há momentos durante a terapia em que ela recebe, de uma forma carinhosa e respeitosa, alguns ruídos de que ela não gosta e acaba entendendo que está tudo bem e não é tão problemático. A gente vai ensinando aquele cérebro a sentir as coisas sem sofrer tanto", resume Nitsche.
Como prevenir
Fatores genéticos não podem ser alterados. Mas alguns fatores ambientais diminuem as chances de uma criança ter o transtorno.
Veja:
Levar a criança ao parque.
Pisar na grama, areia.
Brincar com brinquedos de texturas diferentes.
Ter relações com outras crianças.
Diminuir tempo de tela.
Ao contrário do que afirmava a primeira versão desta matéria, o termo correto é terapeuta ocupacional, e não terapeuta educacional. A informação já foi corrigida.
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