Nós nos outros
Tenho 73 anos e não me sinto velha.
Havendo uma razoável saúde, a idade é um número e é aquilo que nós queremos ter.
Enquanto a pessoa tiver a cabeça sã, a vida vai-nos dando sempre mais bagagem.
Há coisas que há vinte anos eu achava condenáveis e que hoje vejo de outra maneira.
Se me arrependo de alguma coisa, será mais do que não fiz, o que talvez seja pior do que nos arrependermos daquilo que fizemos. Pelo menos tentámos.
Fui feliz dentro de uma certa normalidade.
Nunca fui rica, mas nunca me faltou nada. Tive bons pais, tenho um irmão de quem gosto muito. Até profissionalmente fui feliz: era bancária, com gosto. Talvez uma boa realização minha foi nunca depender financeiramente de ninguém.
Casei aos 19 anos e fui mãe muito cedo. Tive dois filhos - com 10 anos de diferença - e hoje tenho oito netos, entre os 25 e os 8 anos. Estou cá para eles e ajudo regularmente, embora não queira viver exclusivamente em função de os levar e recolher da escola.
Faço-o, mas não como objetivo de vida.
Fiquei viúva há 12 anos. O meu marido morreu de repente, com um derrame cerebral. Ele era um doente de risco, não se privava de viver, mas não deixou de ser um golpe duro para todos.
Tive de me adaptar a uma nova realidade. Ele fazia parte da minha vida, mas ele não era a minha vida toda. Sempre houve independência na nossa relação. Eu gostava muito de viajar, ele não, portanto eu viajava sem ele. Ele, por seu turno, preferia ficar com os amigos em Alcochete a divertir-se, era um bonacheirão de quem toda a gente gostava. Eu também gostava desse seu lado, mas sentia necessidade de conhecer outras terras. Como trabalhava, precisava de sair daqui para existir e respirar.
Depois de ele morrer não tive outro homem. Não foi por uma questão moral, não foi uma decisão impedir alguém de entrar na minha vida. Foi, simplesmente, porque sou exigente e nunca apareceu ninguém que me agradasse. Também não digo nunca, porque essa palavra não se ajusta a mim.
Gostava de viajar mais e… gostava de ser bisavó.
De resto, estou muito bem com a vida. Não sofro por aquilo que não tenho, ou que não aconteceu.
Felizmente, tenho chão para pisar e, graças a Deus, a vida é boa!
MHB
2 d ·
Compartilhado com: Público
4 d ·
Nossa geração está se despedindo… Foi uma geração muito boa, de bons tempos, amizades verdadeiras e lembranças que nunca vão morrer.
…
…Ver mais
Nenhum comentário:
Postar um comentário