um conto - uma crônica
A minha quinta vida tem muito a ver com o futebol - torcedor ardoroso que fui, sou e sempre serei do Botafogo. O daqui e o do Rio, especialmente deste último que já me deu tantas alegrias e outras tantas tristezas.
Já torci muito, também, pela seleção brasileira e meu primeiro (e grande) porre foi em 1958 quando a seleção brasileira ganhou a Copa do Mundo pela primeira vez. Ficou acertado que, naquele mês de junho, iríamos ouvir os jogos do Brasil no casarão dos Lyra, numa das mais antigas avenidas de João Pessoa. E assim foi feito durante a Copa, cujos jogos eram acompanhados pelo rádio pois, à época, por aqui ainda não havia televisão.
Em todos os jogos o ritual era o mesmo. Primeiro, uma passada no Ponto de Cem Réis, o principal ponto de encontro da cidade, onde alguns alto-falantes colocados na torre do relógio, distribuíam o som da rádio Bandeirantes de S.Paulo que transmitia diretamente da Suécia, na voz inconfundível do grande locutor Edson Leite,aquele que ficou famoso com o bordão "Placar na Suécia". A multidão, ouvidos exigentes, se comprimia no democrático quadrilátero, livre para todas as manifestações - religiosa, política, esportiva. Uma espécie de Hyde Park paraibano onde todos podiam falar mal de todos...
A transmissão chegava com muitos defeitos. Era uma sucessão de ruídos, de engasgos e de interrupções, para os quais a torcida não estava nem aí.Ninguém arredava pé, copos de cerveja na mão, muitas bandeiras brasileiras tremulando e bonés em verde amarelo criavam um cenário festivo, juntando uma maré de gente que só se via igual nos comícios dos candidatos a Governador.
Somente o nosso grupo dos oito saía antes de começar a partida, porque o projeto montado para a Copa não podia ser interrompido. Tínhamos a obrigação de ouvir o jogo final na mesma casa, mantendo os mesmos ingredientes (comidinhas, bebidas e se possível a mesma roupa) dos jogos anteriores. E assim foi: fomos para a General Osório, onde a dona da casa nos esperava na porta, ansiosa, temendo que quebrássemos a corrente, construída a partir do primeiro jogo, quando a seleção brasileira ganhou bem da Áustria, por 3x0, um dos gols marcados pelo inigualável Nilton Santos.
Bem recebidos, nos abancamos na sala, diante do rádio Phillips holandês, bem sintonizado na rádio Bandeirantes. E, para minha surpresa, houve uma proposta que foi aceita por todos: a cada gol do Brasil, os homens teriam de tomar um copo cheio de bate-bate de maracujá, cabendo às mulheres um copinho daqueles de servir licor. Diga-se, de passagem, que o bate-bate fora preparado com bastante carinho: dois baldes de cachaça de cabeça, mel de abelha e suco de maracujá, a fruta apanhada no quintal de casa.
O pacto foi firmado e, como os mais velhos recordam, o Brasil ganhou de 5x2 e, assim, foram pelo menos cinco copos cheios de bate-bate goela abaixo. O que representou um passo decisivo para uma semi-embriaguez que me acompanhou depois do jogo e durante aquela tarde em que me incorporei a um bloco de sujos formado no caminho de casa. De rua em rua, de parada em parada e de mais outros goles, cheguei em casa (não sei como) e acordei, depois das dez da noite, embaixo de um chuveiro de água gelada, a minha mãe gritando para me chamar de volta à vida e, aos brados, dizer que aquilo acabava com a minha saúde.
Aprendi a lição e nunca mais cometi excessos o que, graças a Deus, me mantém razoavelmente saudável.
Carlos Pereira
Jornalista, escritor, engenheiro e
professor universitário
Publicada no jornal A União.
Edição 11/12/2010
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