
Um conto - uma crônica
Falar de estardecer é nos encaminhar para um período do dia em que o sol se despede, recolhe sua luz e abre espaço para a escuridão da noite, permitindo que uma sensação de nostalgia tome conta do nosso íntimo.
É tempo do sol poente. É tempo divino. O astro rei, cumprindo um ritual diário, depois de mais um dia de luz, parte levando consigo sua energia e seu calor, entregando seus súditos aos braços da enignática noite , que ora tem o brilho prateado da lua, o encantamento das estrelas, um violão plangente e um casal de enamorados, ora tem a crescente insegurança dos que dormem ao relento, sob a frieza do vento que corre pala madrugada e da cortante navalha daqueles conduzidos por espíritos sombrios.
É tempo do crepúsculo, onde lá no fim do horizonte o céu se avermelha, substituindo o azul celestial, formando um cenário inimaginavelmente belo, misterioso e divisor.
Sim, o entardecer é um dos maiores divisores de mundos criados por Deus e nos permite conhecer inúmeros ensinamentos divinos. Ele encerra um tempo de claridade e nos encaminha para momentos de pouca luz, do reino do sono, dos sonhos, mas também de instantes de medo, de insegurança e de frestas sombrias.
Durante o dia temos a clara´visão das coisas, mas muitas vezes, mesmo diante disso, apesar de termos o dom da visão, insistimos em assumir uma posição de cegueira, pois a despeito do amplo olhar para exergamos os pedintes, os que sofrem nos leitos dos hospitais e os miseráveis que sobrevivem sob a batuta do abandono, somos imperdoavelmente incapazes de nos conduzir para efetivamente auxiliarmos esses desfavorecidos. É aquela história, apesar da luz do sol, escurecemos o nosso espírito em relação à solidariedade.
Já quando a noite chega e as nuvens encobrem a lua e as estrelas transformando o céu num verdadeiro breu, emerge aí uma outra lição, ou seja, apesar de termos a visão normal, somos remetidos a uma outra cegueira, aquela que nos permite sentir na pele, mesmo que momentaneamente, as dificuldades daqueles irmãos cegos por natureza. Momentos como esses, permitem reflexões sobre como são ínfimos os nossos problemas, que tanto insistimos em colocá-los como sendo os maiores do mundo.
O entardecer é momento mágico, em que temos a oportunidade de visualizar um dos quadros mais belos da Santa Natura. Quem se fizer presente à praia do Jacaré no cair da noite, por exemplo, sem dúvida que, ao som do bolero de Ravel, terá a divina chance de contemplar uma das mais lindas paisagens deste planeta terra.
Ao nos enviar para a noite, o entardecer nos confere o direito de, nos braços do sono, descansarmos o corpo e relaxarmos o espírito, com a certeza de que indelevelmente o sol voltará, fazendo amanhecer um novo dia, raiando a esperança no canto da passarada e no balé de um beija-flor.
Onaldo Queiroga.
Escritor e Juiz de Direito.Publicada no Jornal Correio da Paraíba.
Coluna: Opinião
Edição de sábado.
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