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sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Carlos Romero - Viva O Trabalho


Cozinheiro,Garçon,Médico, Enfermeira, Coletor de lixo

Há muitas profissões que admiro, mas algumas estão sempre me chamando atenção.Chego até a me imaginar exercendo algumas delas.

Começo citando a profissão de cozinheiro. O inesquecível Einstein disse que a pessoa mais importante de sua vida era a cozinheira de sua casa, responsável por sua comida. E comer é o ato mais exercido no mundo. Há pesquisadores que estudam seriamente a gastronomia a exemplo do nosso imortal Wills Leal, meu conterrâneo de Alagoa Nova, que escreveu substancioso estudo sobre o turismo gastronômico.

Ah, o turismo... Visitar museus, salas de concertos, monumentos, paisagens e, depois disso, o estômago começa a pedir comida. Para matar a nossa fome, eis os restaurantes.

Por falar em restaurante, está aí outra profissão que admiro: garçon. Eles são verdadeiros artistas, para não dizer equilibristas. E muitos demonstram uma certa cultura. Sem os senhores garçons, o que seria do turismo gastronômico?

Ah, o turismo... Visitar museus, salas de concerto, monumentos, paisagens e, depois disso o estômago começa a pedir comida. Para matar a nossa fome, eis os restaurante.

Por falar em restaurantes, está aí outra profissão que admiro garçon. Eles são verdadeiros artistas para não dizer equilibristas. E muitos demonstram uma certa cultura. Sem os senhores garçõns, o que seria do turismo gastronômico?.

Vejamos outra profissão que admiro, a de médico. Como precisei e ainda preciso deles! Todos foram ótimos, a ponto de eu ficar até com saudade do hospital. E olhem que já fui hóspede dos três: Samaritano, Memorial São Francisco e Nossa Senhora das Neves, onde fui muito bem tratado.

Fiz referência aos médicos e me esqueci das enfermeiras, abnegadas profissionais, cujo sono, à noite, é constantemente perturbado por uma chamada dos enfermos. E com que desvelo, com que dedicação, elas os atendem.Como são maternais...Usam sempre o diminutivo: "dê-me o bracinho para a injeção"; "chegou a sopinha". O paciente se torna uma mimada criança.

Para encerrar, uma homenagem aos homens que coletam nosso lixo.Sempre escuto, já tarde da noite, com todo mundo dormindo, o barulho de seu trabalho na rua. São eles colocando no caminhão o nosso lixo.

São as raízes, que ninguém vê. Coloco-me no lugar deles e basta isso para admirá-los ainda mais.

E viva e trabalho!  

Carlos Romero, Professor e membro da APL

Publicada no jornal Correio da Paraíba
Edição de 04 de dezembro de 2018.
Opinião.

terça-feira, 27 de novembro de 2018

Carlos Romero - Lembranças Da Rua Nova


Rua Nova

Valia a pena ficar contemplando a extensão da avenida, com suas casas, grandes janelas e seu silêncio místico. Gente na janela era o que não faltava, principalmente os idosos, Havia quintais, quintais com suas galinhas, fruteiras e, vez por outra, o cantar de um galo. Raramente passava um carro. Mas não faltava um pregão. Pregão do homem que vendia fígado, que vendia pitomba e ainda acrescentava: "chora, menino, para comprar pitomba".
Loja Maçônica

A Rua Nova, hoje General Osório, era plana e arborizada. Era lá que estava a sede da Loja Maçônica, num bonito prédio, guarnecido por duas esfinges de pedra.Diziam que lá tinha um bode preto.Mentira. Meu pai era maçon e desejou me batizar lá. O batismo não era com água, como na Igreja Católica, mas com mel. Que gostosura.

Muitas pessoas ilustres eu vi nas  janelas contemplando a rua. Vi o ex-presidente Camilo de Holanda, com sua bela postura. Parecia que estava assistindo a um desfile de soldados,já que ele era general.Vi o historiador, fundador da nossa Academia de Letras, Coriolano de Medeiros. A cabeça bem alva. Vi o  escritor De Castro e Silva, o primeiro a escrever sobre o poeta Augusto doso Anjos. Como vêem, as janelas, numa época em que não havia TV, constituíam um meio de sair de casa sem sair.

Não esquecer a bela casa,que ficava junto de uma ladeira e que pertencia ao professor de piano, Gazzi de Sá, cuja escola gozava de um grande conceito em nossa terra.

Também lembro de um belo sobrado onde, ao que dizem, morou o escritor Virginius da Gama e Melo. Infelizmente o sobrado foi demolido.

Mosteiro de São Bento
Foto: Gilberto Firmino

A Rua Nova foi meu paraíso urano. Foi no batente do Mosteiro de São Bento que li toda a coleção do grande Monteiro Lobato. E tanto me empolguei com sua leitura, que esquecia até a hora das refeições.O silêncio da rua propiciava a leitura. Silêncio, vez por outra, interrompido pelo sino da Catedral,..

Carlos Romero,Professor e membro da APL

Publicada no jornal Correio da Paraíba
Edição de 30 de outubro de 2018.
Opinião

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Carlos Romero - O Maravilhoso Sermão


O Maravilhosos Sermão

Se me perguntassem qual o episódio na vida de Jesus, que eu gostaria de ter testemunhado, ficaria relutante. São tantos. Dois, porém, aguçam o meu desejo : o daquela cena no Monte Tabor, em que o Mestre se transfigurou e conversou com dois espíritos: Moisés e Elias, e o primeiro sermão com que inaugurou a caminhada da evangelização.

Depois daquela festa de casamento, em que ele transformou a água em vinho - realizando, assim, o seu primeiro milagre para espanto dos presentes - Jesus proferiria o maravilhoso Sermão da Montanha.

Minha imaginação, portanto, leva-me àquele momento sublime, em que o Mestre sintetizou toda sua Doutrina. E eu tenho muita pena daquele que nunca leu essa peça oratória. Tão grande é o Sermão da Montanha que Gandhi, que não era cristão, disse :"se todos os livros religiosos fossem queimados, e apenas se salvasse o sermão da inaugural da evangelização, nada teria sido perdido". Veja a grandeza daquela mensagem proferida ao ar livre, no templo sem telhado da Natureza, sem ar condicionado, pois a brisa abrandava o calor, sem microfone, sem celulares tocando, sem cadeiras, sem nenhum conforto, porquanto o orador vivia em contato com o campo . O templo de pedra não atraía a sua atenção. Tanto é assim que nunca edificou uma igreja. Tão diferente das grandes catedrais que ergueram em seu nome.

Fico a imaginar Jesus, com a voz suave, o semblante sério e sereno, pregando a sua Doutrina. Consoladora que teve como introito as chamadas bem-aventuranças. E quem eram os bem-aventurados, ou telizes, segundo o Mestre? Os ricos, os poderosos, os religiosos hipócritas, os orgulhosos e vaidosos? Não, ele se referia aos humildes, aos pacificadores, aos puros de coração, aos mansos. Jamais aos raivosos e pregadores do ódio, tão em moda, hoje em dia, na nossa política.

Carlos Romero
Professor e membro da APL

Publicada no jornal Correio da Paraíba
Edição de 24/07/2018
Opinião

sábado, 14 de julho de 2018

Carlos Romero - Casinhas De Porta E Janela



um conto - uma crônica

Vi no jornal uma foto que muito me comoveu. Ela focava dez a quinze casinhas populares, juntinhas uma das outras, como num rosário. Casinhas de porta e Janela, com dois cômodos apenas, a sala de visita e a sala de jantar. Ignoro se elas estiveram no projeto de algum arquiteto.Acho que não.

Ocorre que todas essas casinhas, destinadas às comunidades de baixa renda, são iguais. O que uma tem, todas têm. E como diferem dos modernos condomínios chamados verticais, que a gente só em olhar, sente tontura. Cada qual com centenas de apartamentos e dezenas de andares. Apartamentos juntos, a exemplo das casinhas populares. Mas, com a inconveniência de seus moradores terem de descer e subir num elevador. Nelas, prepondera a horizontalidade. Diz-se-ia que todas estão de mãos dadas. Melhor ainda, todos se conhecem. Todos se sentem irmãos. Ninguém ai dizer: minha casa é melhor do que a sua.O que uma tem, todas têm.

Nos edifícios de apartamento dos bairros 'chiques', nem todos se conhecem. E nos prédios, muitos nem chegam a se falar quando se encontram no elevador. A solidariedade humana é mais comum entre as pessoas carentes. Estou certo que nas casinhas populares, a maioria se sente como irmãos. Seja na alegria, seja na tristeza, seja na doença, seja na saúde, seja na fofoca. E nada de eclusas, cercas elétricas ou guaritas com vigilantes.

Mas, o bom mesmo é não precisar de elevador para subir e descer. Nem de estacionamentos, pois todos não possuem carros, a não ser uma moto ou uma bicicleta.

O que estão faltando às casinhas são piscina, salão de jogos, quadras esportivas, etc. Mas nelas vale a pena sentir o vento, a brisa. Vento natural, muito diferente do vento produzido pelos condicionadores de ar dos luxuosos apartamento.

E para concluir, é bom lembrar que aquelas casinhas de mãos dadas não violentaram a ecologia.

Carlos Romero, Professor.

Publicada no jornal Correio da Paraíba
Edição de 12 de junho de 2018
Opinião 

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Carlos Romero - Dezesseis Anos Sem Chico

Chico Xavier

um conto-uma crônica


No último dia 30 de junho de 2018, completaram-se dezesseis anos do desenlace do maior médium de todos os tempos - Chico Xavier. E me lembrei de um ligeiro bate-papo imaginado por mim, com ele, no qual as respostas constam de sua bela obra. Ei-lo:



- Chico, qual a  questão mais aflitiva para o espírito?

"É a da consciência do tempo perdido".



 - E quem mais sofre nesse mundo?

"Quem mais sofre neste mundo é quem tem menos tempo para si mesmo"


- Devemos sempre dizer a verdade, doa em quem doer?
"Bem, é melhor uma mentira que consola do que uma verdade que magoa"

- Você já ofendeu alguém?
"Graças a Deus, não me lembro de ter revidado a menor ofensa às inúmeras que sofri, certamente objetivando, todas elas, o meu aprendizado e não me recordo que tenha, conscientemente, magoado a quem quer que fosse. Fico triste quando alguém me ofende, mas, com certeza, ficaria mais triste se fosse eu o agressor".

- Defina o que é mediunidade.
"Mediunidade é apenas o contato com os espíritos".

- Qual a sua opinião sobre o Brasil?
"O Brasil é um país jovem. Muito temos que aprender.O essencial é que aprendamos a evitar as experiências negativas dos outros países." 

Você se sente um homem feliz?
"Eu vivo muito alegre, muito feliz. Trabalho, Tenho sempre muita gente em volta de mim. Há muita gente na minha vida e é disso que eu gosto"

E sobre o casamento?
"Sem espírito de tolerância casamento algum vai adiante".

O que pensa da homo-afetividade?
"Não consigo entender o preconceito com certo número de pessoas  pelo fato de haverem trazido do berço características psicológicas e fisiológicas diferentes da maioria. Acreditamos que o tempo e a compreensão humana traçarão normas sociais susceptíveis de tranquilizar quantos se vinculam a semelhante segmento da comunidade, assegurando-se-lhes o respeito devido a todos os filhos de Deus".

Carlo Romero.
Professor

Publicado no jornal Correio da Paraíba
Edição de 03 de julho de 2018 

sábado, 3 de março de 2018

Carlos Romero - É Feliz Aquele Que Canta



Um dia  desse entrou pela janela e chegou aos meus ouvidos uma voz limpa, de quem estava satisfeito com a vida.Soube que era de um trabalhador da construção, decerto, ganhando um salário mínimo e com muitos problemas. Mas talvez ele cantasse para se distrair um pouco, pois a vida anda muito difícil.

Ora vejam só..., um humilde pedreiro, com um trabalho nada suave, cantando alegremente o seu canto, que é uma espécie de terapia, pois há um ditado que diz:"quem canta seus males espanta". Imaginei-me fazendo o seu serviço e cheguei a suar.

O pedreiro faz um trabalho duro que me comove. Não pelo suor que pinga de seu rosto queimado pelo sol, mas pela sua utilidade. Sem o trabalho destes homens que seriam daquelas enormes construções do Altíssimo?Mas aqui o importante é o homem.

E fiquei refletindo: são poucos que durante o trabalho sorriem. Duvido que você encontre um desembargador cantando durante uma reunião plenária, vestido daquela toga preta. Duvido que os médicos cantem no consultório ou no hospital enquanto consultam o doente. Se bem que o meu médico e amigo Marco Aurélio Barros é tão bem humorado que é capaz de cantar entre uma consulta e outra. Não duvido.

Mas quem imaginaria os militares cantando enquanto trabalham? Nem o coveiro durante um sepultamento. Duvido que os engenheiros e arquitetos nos seus escritórios suavizem o trabalho com o canto. Duvido que os senhores executivos, os senhores parlamentares, entoem um canto de alegria, de encantamento diante da vida, enquanto estão em serviço.

O canto é um desabafo. O canto encanta. O canto ameniza as asperezas da vida. E quem canta é porque se sente feliz, de paz com a vida. Quem canta não está pensando, nem sentido coisas ruins. Ninguém canta com ressentimentos, com ódio, com rancor. Ah, como é bom cantar. Que o digam os bem-te-vis.

Carlos Romero. Da Academia Paraibana de Letras

Publicada no jornal Correio da Paraíba
Edição de 20 de fevereiro de 2018
Opinião 

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Carlos Romero - A Conversa Chegou na cozinha


Outrora, por conta de um preconceito, a sala de visitas era muito distante da cozinha, que fazia lembrar a Casa Grande, que tinha senzala, onde mourejavam os escravos. A cozinha, donde vinha a nossa refeição, era assim discriminada. As pessoas da casa, dela queriam distâncias. Cozinheira era um personagem desprezível, enquanto Einstein dizia que a pessoa mais importante  de sua vida era a cozinheira, que fazia a sua comida.

Chegou-se ao cúmulo de dizer "a conversa não chegou na cozinha"... Quase ninguém, a não ser a dona da casa, passava por aquele espaço, onde se preparava o nosso alimento. E as pessoas da cozinha falavam baixo. A sala de visita, como o nome indicava, era frequentada pelas pessoas de bem. De bem e de bens. 

Graças ao progresso, às redes digitais, está havendo uma revolução de costumes. O mundo foi se estreitando, graças à tecnologia, as pessoas se encontrando mais, o outro cada vez mais perto da gente. E o preconceito, esta praça social, vai pouco a pouco desaparecendo.

O resultado está aí: a sala de visitas acabou-se obsoleta e a cozinha ocupa a melhor parte da casa. As conversas deixaram de ser privilégio da sala de visita, de gente bem, para se constituir no local mias alegre, onde os que trabalham nela falam abertamente, opinando sobre a candidatura de Lula, sobre as novelas e a situação política do mundo.

A conversa agora está na cozinha.Tudo ali se comenta, se critica. E não falta quem diga, reforçando seus argumentos: "vi isto na Internet".

E toda essa mudança, graças à modernidade, não admite discriminação. No bolso do mais modesto, na escala social, pode faltar tudo, menos um celular.

Hoje, os espaços domésticos são outros: espaços para jogos, para piscina, par ginásticas... Só não há espaço para a meditação, Ora, ora, cronista, quem diabo quer mais mediar, nem saber de se encontrar consigo mesmo?...

Calos Romero. Da Academia Paraibana de Letras

Publicado no jornal Correio da Paraíba
Edição de 23 de janeiro de 2018
Opinião.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Carlos Romero - A Caminhada Do Tempo


Seria ótimo se não houvesse despedida em nossa vida, como a do ano que passou...Acontece que estamos sempre dizendo "até logo", "tchau", "até amanhã". Estamos sempre nos ausentando, sempre de braços dados com a saudade, que nada mais é do que fome de presença.

E estamos sempre em busca de um reencontro. E haja telefonemas. Antes eram as cartas, hoje são os e-mails, os torpedos, as mensagens pelas redes sociais. E celular nos ouvidos é só o que se vê. Nos ouvidos e nos dedos. Com o celular ficou fácil a comunicação. Com a tecnologia digital, tornou-se possível até ver o rosto da pessoa com quem falamos pelo telefone. Mesmo se estivermos no Japão, podemos entabular uma conversa ao vivo e a cores pelo tal do smartphone.

Mas, quantos já saíram de nossa vida sem um "até logo", um "até já". Foram-se em silêncio. Ausentaram-se por algum tempo. Será que para sempre?... Eis a grande dúvida de muita gente. A comunicação seria apenas para os  chamados vivos. Se assim é, que sentido tem a vida? Viver é comunicar-se. Que as despedidas não sejam para sempre. Que voltem os acenos de retorno e que possamos dizer: "que bom que nos encontramos novamente..."

E eu fico monologando: "Puxa, como o tempo passou rápido..." Mal comemoramos o nascimento de 2018, e ele já está com 10 dias. O gosto de champanhe ainda está na nossa boca e os fogos nos nossos ouvidos.

Mas, ninguém está se lembrando de fazer esta reflexão sobre o ano que se iniciou, sobre o tempo que passa. E que lição a extrair dessa advertência das horas, dos minutos e dos segundos?A advertência de que a coisa mais importante de nossa vida é o tempo. Que não devemos deixá-lo passar em vão, inutilmente. Que tempo é como o solo. Se nada semearmos nele, o que é que vamos colher?

Não, não deixemos que o tempo passe inutilmente em nossa caminhada invisível e silenciosa.

Carlos Romero - Da Academia Paraibana de Letras 

Publicada no jornal Correio da Paraíba
Edição de 09 de janeiro de 2018
Opinião

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Carlos Romero - Será Que Melhorou?

Ano velho passou, ano novo chegou, será que o mundo melhorou? Claro, pois na vida não existe marcha à ré. 'Tudo evolui. Esta minha reflexão adveio de um desejo enorme de olhar para trás...

E tudo começou com aquele homem magro, quase nu, todo ensanguentado, pregado numa cruz, entre dois malfeitores. Um homem cujo crime foi amar a todos sem distinção. Pediu água e lhe deram vinagre. Pediu amor e lhe deram ódio, diante de uma multidão enlouquecida pelo fanatismo religioso, provou que nem sempre a voz do povo é a voz de Deus.

Mas não foi só com Jesus que isso aconteceu. Muitos outros crimes foram registrados pela História, provando até que ponto chega a maldade humana. Vejam, ali, Sócrates, o maior filósofo de todos os tempos, sendo forçado a beber veneno pelo crime de renegar os falsos deuses. Então ali astrônomos famosos condenados pela Inquisição pelo simples fato de provar que não é o Sol que gira em torno da Terra, mas o contrário. E que dizer da médium Joanna d'Arc sendo atirada à fogueira,tachada de feiticeira pelo fato de ouvir vozes? E que dizer do pacifista Gandhi assassinado com um tiro em plena via pública, cuja arma era o cajado que apoiava a sua velhice?

Daí me vem à imaginação esta perturbadora pergunta: será que a humanidade melhorou? Será que aqueles crimes, aqui narrados, seriam repetidos? Temos hoje a moderna e surpreendente tecnologia que está juntando as pessoas, derrubando fronteiras, criando o fenômeno da ubiquidade. Mas, afinal, estamos unidos ou reunidos? O "outro" continua sendo o inferno, como sentenciou Sartre? Uma ponte ou um abismo?

Disse Augusto dos Anjos, que "o homem que vive entre feras, sente um desejo inelutável de também ser fera"...

Todavia, "o homem magro da cruz" ensinou que amássemos até os inimigos... Difícil lição. Difícil, mas não impossível, pois muitos já deram  exemplo desse amor.

Carlos Romero
Da Academia Brasileira de Letras

Publicada no jornal Correio da Paraíba
Edição de 02 de janeiro de 2018
Opinião

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Carlos Romero - Ano Novo, Homem Novo

Chico Xavier

Nesta última semana do ano, eis aqui para os leitores e amigos, que tanto enriquecem a minha vida, alguns pensamentos do grande médium Chico Xavier. São pensamentos lúcidos que nos ajudam a caminhar na vida, sobretudo, no Ano Novo que se inicia.

A gente precisa entrar no Ano Novo com um único propósito: tentar não cometer os mesmos erros. Mas para isso é necessário humildade, a humildade de reconhecer nossos próprios erros. Eis aí uma coisa difícil. E vem a pergunta: será que vamos continuar sendo o que sempre fomos?

Vamos orar, meditar, refletir, fazer afinal, o que os nossos irmãos animais não fazem ainda. O homem é o seu pensamento. "Penso, logo existo", disse Descartes. E vamos às reflexões:

"Quem fita o céu, de relance, sem contemplá-lo, não enxerga as estrelas; e quem ouve uma sintonia sem abrir-lhes a acústica da alma, não lhe percebe as notas divinas".

"Agradeçamos a tempestade que renova, a luta que aperfeiçoa, o sofrimento que ilumina".

"O criminoso acusado por toda gente amanhã pode ser o enfermeiro que te estendo o copo d'água".

"Busquemos o lado melhor das situações, dos acontecimentos e das pessoas".

"Consagra-te ao bem, não só pelo bem de ti mesmo, mas acima de tudo por amar ao próprio bem".

"Jamais suponhas que a tua dor seja maior do que a do vizinho". 

"Realmente grande é aquele que reconhece a própria pequenez".

"O próximo é nossa ponte de ligação a Deus".

"Desapega-te de bens transitórios que te foram emprestados pelo poder divino, de acordo com a Lei de Uso, e lembra-te de que serás agora ou depois, reconduzido à Vida Maior, onde encontramos a própria consciência. Reflete, pois, sobre o que fazes, cada dia".

Mas, o importante nessa dança dos calendários, que nos traz mais um Ano Novo é o homem novo. E homem novo é o que reconhece seus defeitos, suas negatividades e procura superá-las.

Carlos Romero
Da Academia Paraibana de Letras.

Publicada no jornal Correio da Paraíba
Edição de 26 de dezembro de 2017
Opinião.

sábado, 2 de setembro de 2017

Carlos Romero - As suavidades Da Vida



Estive pensando nas suavidades da vida. São tantas. Basta elevarmos os olhos para observar o suave  distante bailado das nuvens. Como isso nos dá tranquilidade.

Outra suavidade: uma flor caindo no chão... Jesus nos convidou a olhar os lírios do campo. Que bela terapêutica do olhar. Uma folha caindo no chão é de uma suavidade que encanta.

Uma lágrima escorrendo num rosto. Haverá coisa mais suave? E uma nuvem deslizando sob um céu azul, haverá coisa mais bela no mundo?

A contemplação das suavidades da vida nos eleva e nos enleva. Daí recebemos boas vibrações e nos mantemos no caminho do bem, livre das tentações. Jesus nos ensinou a não cair em tentação. Tentações é teste. E são tantas as tentações. Tentação da vaidade, tentação do sexo, do orgulho, do desânimo. Cuidado com as tentações!

Observar é bom. Viver é bom, conviver ainda é melhor. A vida na solidão não tem o menor sentido. Os existencialistas gritaram: os outros são o inferno. Estupidez, ninguém vive sozinho. Viver é conviver.

Mais do que isto: viver é transcender. Precisamos do ouro, como precisamos do ar que respiramos. Não podemos viver sem o outro. Jesus aconselhou-nos a amar o próximo como a nós mesmos. Esta é a mais difícil de todas as lições do Mestre. Amar ao próximo como a nós mesmo...

Mas, o que eu mais observo, na maioria das pessoas, é uma espécie de indiferença. Uma total indiferença às belezas, às suavidades da vida. Alguns chegam até a fechar a cara num acentuado mau humor. A presença do outro parece incomodá-los... Talvez até concordem com o pessimista e estressado Sartre, para quem "O inferno são os outros".

Ora, ora, o homem é o seu olhar. Dize-me com o olhar e eu te direi quem és. Olhar uma flor num jardim, uma nuvem deslizando no céu azul, uma lágrima escorrendo num rosto. Olhar nas suavidades da vida. 

Carlos Romero
Da Academia Paraibana de Letras

Publicado no jornal Correio da Paraíba
Edição de 29 de agosto de 2017
Opinião

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Carlos Romero - O Inimigo Da Rotina

Agosto está partindo. Dizem que é mês de muito vento. Gosto muito do vento. O vento que acaricia a minha careca. E ele, às vezes, é tão forte que chega a querer jogar fora o meu chapéu.

Sem o vento a vida seria uma tediosa calmaria. Sem ele, como é que Cabral descobriria o nosso país? O vento alegra, limpa, acaricia, enxuga, colabora na germinação das plantas, agita o fogo. Outrora, ele era muito indiscreto e inconveniente, quando levantava as saias matando de susto as mulheres. Acontece que hoje, com as calças jeans, não há vento, mesmo em forma de brisa, que se torne inconveniente.

Mas o vento é também uma metáfora. Simboliza entusiasmo. Com ele as árvores acenam alegres, o mar se enche de ondas, as nuvens são forçadas a descobrir o céu azul, as folhas velhas vão caindo numa triste despedida.

Ah, que tristeza quando o vento tarda ou falta! O homem, então, é forçado a construir cata-ventos, que não resolvem o problema. Outrora, graças ao artesanal abano, fazia-se vento para esquentar a nossa comida.

Ontem, o vento estava brabo. Se não me engano, ele queria anunciar alguma coisa. Ah, já sei. Ele queria dizer que setembro estava próximo a chegar. E eu adoro este mês, pois foi nele que se realizou meu primeiro casamento e que viu minha segunda esposa, Alaurinha abrir os olhos para o mundo. Setembro é para mim o mais simpático dos meses. E é em setembro que também se comemora a nossa independência.

E vamos às metáforas. O vento é a alma da natureza. Sem ele, tudo se imobiliza. Ele é que dá vida à vida. E tem muito de humano. Ora é suave como uma brisa, ora é violento como um furacão. Ora apaga o fogo, orar o agita. É inimigo da rotina, adora tirar as coisas do lugar. E como é belo contemplar a dança das árvores, das flores e das nuvens, graças a ele, que, como o tempo, está sempre renovando e transformando as coisas.

Carlos Romero
Da Academia Paraibana de Letras.

Publicado no jornal Correio da Paraíba
Edição de 22 de agosto de 2017.
Opinião.

terça-feira, 2 de maio de 2017

Carlos Romero - Ninguém Abraça De Braços Abertos


Ainda em clima de Páscoa, quando se falou muito na Paraíba, na Ressurreição, não poderíamos deixar de lembrar do amor ao próximo, tão enfatizado no Evangelho.

E não dá para falar em amor ao próximo sem lembrar de caridade. Foi dito que a caridade é o sentimento máximo de amor. Daí o slogan espírita: "Fora da caridade não há salvação".

Mas como podemos definir caridade? Se eu der um pão a um cachorro, estaria praticando caridade? Acho que não. Teríamos aí um sentimento de misericórdia.

Caridade é amor, amor ao próximo, ao semelhante. É colocar-se no lugar do outro. Lembram-se da parábola do samaritano, contada por Jesus? Em que um homem descia para Jericó e no caminho foi assaltado por bandidos? Mais adiante, passava por ali um samaritano e condoeu-se da situação. Não pensou duas vezes e tratou dos ferimentos da vítima, chegando a levá-lo para uma hospedaria.Acontece que, antes, passaram pelo mesmo lugar dois religiosos e nem sequer demoraram a vista na vítima.

Fez bem a Doutrina Espírita erigindo como máxima, "Fora da caridade não há salvação". Paulo de Tarso, o iluminado de Damasco, gritou que a caridade é o sentimento máximo.

A Doutrina fez bem em estabelecer como máxima, "Fora da Caridade não há salvação",

Mas a lição mais difícil ensinada pelo Evangelho é "amar ao próximo como a si mesmo". Será que amamos ao próximo como a nós mesmos?

Outrora, o slogan "Fora da caridade não há salvação", era lido em vários locais da antiga Federação. Que o atual presidente Marco Lima restaure a bela frase. Como a Doutrina espírita é ecumênica...

Concluo lembrando o significativo slogan espírita. "Fora da Caridade não há salvação". Caridade, que é amor ao próximo, nada mais é do que o nosso grande teste de amor.

Gostaria de ter perguntado a Jesus, por que morreste de braços abertos? Ele, sem dúvida, responderia: "Ninguém abraça de braços fechados".

Carlos Romero . De Academia Paraibana de Letras

Publicada no jornal Correio da Paraíba
Edição de 18 de abril de 2017
Opinião


segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Carlos Romero - E Por Falar Em Fé


um conto-uma crônica

Meu filho, Germano me telefona lá da casa da praia, dizendo que encontrou, em coisas trazidas de viagem, uma seleção de grãos de mostarda. E exaltou a sua admiração pelo fato de como uma semente tão pequena se transforma numa árvore tão grande e bonita.

Ao ponto de inspirar o Mestre Jesus, quando disse que se tivermos fé do tamanho de um grão de mostarda, diríamos a uma montanha "saia daí", e ela sairá. Já vi muitas montanhas, nas nossas viagens, mas nunca desejei fazer esta experiência da fé.

Sou de opinião que todo mundo tem fé, seja esta pequena ou grande. E a maior fé é a fé na vida. Um suicida não tem fé.

A gente leva a vida praticando atos de fé. Desde quando acordamos até a hora de dormir. A fé é um excelente combustível. E foi graças à fé que Jesus fez os milagres, como transformar água em vinho, quando levantou paralíticos,, quando deu luz aos cegos, quando passeou sobre a água e assim por diante.

Eu nunca vi um grão de mostarda, mas, agora, com a descoberta do meu caçula, fiquei muito curioso...

Tenhamos, portanto, fé e jamais desânimo. O desânimo é uma doença. Quando você acorda, manhã cedo, e pula da cama, você está praticando um ato de fé. O ato de fé na vida. E, como disse Jesus, a fé não precisa ser grande.

Eu estou ansioso para ver a semente de mostarda encontrada por Germano, que é um homem de muita fé.

Daí o seu sucesso em tudo. A Natureza dá lições de fé a todo instante. Perseverança é fé. A água mole em pedra dura tanto bate que fura - diz o ditado.

Em suma, "a fé é a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos", ensina a sabedoria bíblica.

Carlos Romero é membro da Academia Paraibana de Letras

Publicada no jornal Correio da Paraíba
Edição de 07 de agosto de 2016
Opinião

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Carlos Romero - O Maior Presente


um conto-uma crônica

Tenho pena de quem pensa que as plantas não riem, de quem não lhes ouve o verde e salutar sorriso. Vi-as pelo vidro da janela, abraçadas, numa ciranda de alegria pela chuva que caía.

Cai chuva!...molha essa terra seca com sede de vida! Enche os açudes, os riachos. Enche as poças, que os sapos e lagartixas querem te beber. Quem não te quer é porque não te merece.E quando chegar o São João, apaga suas criminosas fogueiras, que esfumaçam o céu, escondem as estrelas e queimam a madeira que nos dá o oxigênio.

Vai... lava tudo, limpa a poeira, corre e escorre pelos regos desse mundo que sem ti não vive!... Enche e transborda córregos, rios e riachos. Lava a alma desse planeta que, por vezes, se suja até de sangue. Aproveita, e lava também a nossa alma. Para que nos sintamos revigorados, reformados e atentos a mensagem divina que a Mãe Natureza nos transmite todos os dias, da alvorada ao crepúsculo.

Pensando bem, essas chuvas são um presente especial de Deus. O Grande Pai, o maior de todos, aquele que alguns pensam que tem barbas de nuvens brancas, mas que na verdade não se parece com forma alguma. Não se parece porque se confunde com o Universo, com a Criação, pois, pra falar a verdade só se começa a entender Deus quando se consegue vê-lo como Criador e Criatura, começo e fim, preto e branco, Ying e Yang, triste e alegre.

Mas, são tantos os presentes que Deus nos deu... De nada podemos reclamar. Tudo nos foi provido. Temos flores que nos sorriem na terra, e ondas que nos sorriem no mar. Temos o vento que acaricia e o sol que nos devolve as cores, que dormem nas noites de paz. Ah, paz... É só o que nos falta. Que maravilha seria que o Grande Pai nos surpreendesse com o maior presente que o mundo poderia ganhar - A paz!

Carlos Romero
Membro da Academia Paraibana de Letras,.

Publicado no jornal Correio da Paraíba
Edição de 05 de junho de 2016
Opinião

segunda-feira, 21 de março de 2016

Carlos Romero - Chuva E Sol, Choro E Sorriso

 
um conto - uma crônica

Quando vai mudando a estação, a Natureza chora, vem a chuva. Mas, depois do choro, chega o sol, e sol é sorriso, porque sorriso é luz no rosto. Sorrir faz bem à saúde, ilumina o ambiente. Depois das dores da maternidade, a mãe esquece todo o sofrimento quando vê o filhinho sorrindo. E o sorriso também está presente na Natureza, quando as flores abrem as suas pétalas para alegrar a vida.

Mas, a vida anda muito apressada, prosaica, maquinal e você passa por um jardim e nem olha para ele. Você está cego para as belezas gratuitas da Natureza. Olhar para um jardim dá saúde. Olhar criança brincando é a mesma coisa. 

Jesus deu um grande exemplo de amor às crianças e às flores. Convidou-nos a olhar os lírios. E desse olhar veio a lição para não viver se preocupando com negócios, com política, com o futuro, porque tudo depende de viver bem o aqui-e-agora.

Estamos em época de sol e chuva, choro e sorriso, trovões e relâmpagos, alvoradas e crepúsculos, e tudo isso faz parte do viver. O pessimismo não leva a nada. Se o sol, os pássaros, as flores, as estrelas, as crianças e o mar fossem pessimistas...ah, isso seria horrível!

E quando chove e faz sol ao mesmo tempo? Aí são as lágrimas que se misturam aos sorrisos. É como quando uma pessoa diz: "fiquei tão feliz, que chorei". Pois, nem sempre as lágrimas são de dores.

Choveu agora pela manhã. Mas o sol foi chegando de mansinho, com o seu sorriso de luz, como a me dizer: "Vai, cronista, deixa este computador e vem ver as borboletas salteando em torno das flores de seu jardim. Não seja como o homem prosaico que prossegue olhando sem ver, pensando sem refletir, comendo sem mastigar, correndo sem chegar, pois sua vida é um suplício de Sísifo (trabalho interminável).

Carlos Romero. Membro da Academia Paraibana de Letras.

Publicada no jornal Correio da Paraíba
Edição de 20 de março de 2016


quinta-feira, 17 de março de 2016

Carlos Romero - Água E Pedra


um conto - uma crônica

Tem a música. A música é um milagre. Tem aquele sorriso da criança, ainda no berço. Tem aquela borboleta saltitando sobre as flores de um jardim.
Tem o vento, seja em forma de brisa, seja na violência de um vendaval, dando vida a tudo.O vento é que dá alegria à paisagem, faz a Natureza dançar.

Tem aquela lágrima escorrendo pelo rosto sofrido. A lágrima é a água da dor, da saudade, do sofrimento. Tem a água do suor, a água do trabalho. Preguiçoso não sua. E o que dizer da água chamada sangue, que é vermelha para chamar a atenção da gente. E a água que está presente em 70% de nosso corpo?

Tem a água do mar, que é salgada. Se fosse doce, no instante apodreceria. Deus sabe o que faz. Mesmo assim, ainda tentam poluir o mar.

A água está em tudo. Na cachoeira, como que brincando de se escorregar. E que paz ela nos dá...Vi muitas na Nova Zelândia. E vi uma lá na Islândia, muito pequena, que dava para ficar embaixo dela.

Não há maior sofrimento do que uma longa sede. E Jesus pedia água aos seus acusadores e eles lhe deram vinagre.

Escute o óbvio: a água é tudo, nesta vida. O danado é que chegam a embebedar a bichinha, misturando-a com álcool.

Existe a pedra. A pedra é forte.Jesus chamou Pedro de pedra e o poeta Drumond disse que "havia uma pedra no caminho"...

E para terminar, reflitamos: Quem é mais forte, a água ou a pedra? Depende. A resposta talvez esteja no ditado: "Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura". E fura mesmo.

E Jesus queixou-se, um dia, dizendo que os pássaros têm seus ninhos, as raposas seus covis, mas ele não tinha uma pedra para repousar a cabeça.

Carlos Romero. Membro da Academia Paraibana de Letras

Publicada no jornal Correio da Paraíba
Edição de 13 de março de 2016
Opinião

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Carlos Romero - De Quem Tenho Pena




um conto - uma crônica

Ah, de muita coisa. Tenho pena das pessoas frias, incapazes de um cumprimento cordial. Tenho pena das pessoas frias, inabordáveis, que parecem trazer atrás das nádegas o seguinte aviso "Mantenha a distância".

Tenho pena dos vaidosos, que se consideram melhores do que os outros. Que vivem com os olhos nos carros alheios, para ver se são do ano ou de melhor marca.

Tenho pena das pessoas sem paciência, que vivem reclamando tudo da vida. Reclamam do trânsito, da chuva, do sol, da falta de dinheiro, da falta de saúde, da falta de tudo, enfim.

Posso ter, e tenho, muitos defeitos,menos o da impaciência.  Aqui para nós, eu sei esperar. A paciência é tudo. E há casos em que você é obrigada a esperar mesmo. Quando está interno num hospital, no caso da mulher grávida... E como ela sabe esperar o grito que vai sair de seu ventre. E não tenha paciência para ver.

Olhe bem, fale bem, e sua vida será outra coisa. E cuidado, muito cuidado mesmo, com uma moléstia chamada maledicência. A mania de falar mal dos outros.

A vida é bela. Nós é que a tornamos feia. Vou recomendar uma coisa que venho fazendo há muito tempo. Procure olhar bem. olhe bem e tudo se iluminará. Muita gente não gosta do barulho das crianças, daquele corre-corre, dos gritos, daquela inquietação. pois bem, olhando-as, Jesus disse: "Vinde a mim as criancinhas, porque delas é o Reino dos Céus".

Tudo é uma questão de saber olhar a vida. Vamos, minha gente, vamos saber olhar. Lembrem do ditado: "O pior cego é o que não quer ver". E da grande e poética frase que Jesus nos deixou quando nos convidou a "olhar os lírios do campo". É o mesmo que dizer: olhai o amanhecer, a floração das árvores, o sorriso de um recém-nascido. Repito: Viver bem é olhar bem!


Carlos Romero
Membro da Academia de Letras

Publicada no jornal Correio da Paraíba
Edição de 14 de setembro de 2015

Carlos Romero - Quem Canta, Encanta


um conto - uma crônica

A voz descia de um edifício de apartamentos, aqui perto. Uma voz suave. Voz de quem está de bem com a vida. E quem está de bem com a vida, canta.Ninguém canta com raiva. Não era a dona do apartamento. Acho que não. Talvez até tenha acordado mal humorada. E estou receando que ela mande a sua funcionária se calar.

Mas há um ditado que diz: "quem canta, seus males espanta". A moça cantava, os automóveis passavam, o Sol brilhava lá no alto, as árvores sorriam com as cócegas que o vento lhe provocava, os pássaros cantavam, era mais um dia para a gente viver.

A moça cantava. Mas nem todo mundo pode cantar no trabalho. O coveiro, por exemplo, não deve cantar, enquanto está levando o caixão para a cova. Mas, tenho certeza, de que os bem-te-vis jamais se calarão diante de um dia amanhecendo. Pelo menos é o que ouço, todos os dias, com a chegada da madrugada.

Acontece que a voz da moça era de uma suavidade encantadora. E ouvindo-a, disse com os meus botões, eis aí uma pessoa feliz. Vá ver que a moça tem muitos problemas, mas, quem não os tem? Vá ver que o salário é pequeno, que algum filho, ou o marido, são motivos para o horo e não para o sorriso. Muita coisa há para a gente chorar.

A verdade é que nem todo mundo pode trabalhar cantando, seja o desembargador Marcos Cavalcanti, seja o governador Ricardo Coutinho. Cantar é um privilégio. Conheci um general que não cantava, mas assobiava.

Voltemos à moça. Que brandura de voz, tão suave que motivou esta crônica. Abelardo Jurema Filho canta que é uma beleza. Nisso não puxou ao pai, que preferia o bom discurso, ao canto.

É saudável cantar, é saudável sorrir, é saudável dar um cumprimento amistoso. Canta Abelardo, mesmo que não seja eleito para a Academia!.

Carlos Romero
Membro da Academia de Letras

Publicada no jornal Correio da Paraíba
Edição de 21 de setembro de 2015

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Carlos Romero - Feliz É Quem Faz O Bem


um conto-uma crônica

Desculpem-me o truísmo, mas é conversando que a gente se entende. E aqui para nós, fazer o mal é uma desgraça.Fazer o mal é criar o inferno dentro de nós. Não pense que o inferno é um lugar pegando fogo. O fogo do inferno é o do remorso, do arrependimento. O remorso leva muita gente ao suicídio. Eis aí uma dor que não se cura nem com anestesia.

Continuando, lembremos que só uma coisa diminui ou extingue o remorso: o arrependimento. Acompanhado do pedido de perdão.

E o que é arrependimento? Arrependimento é voltar atrás. É refletir, fazer um exame de consciência. É uma espécie de marcha a ré. Felizmente, sempre que faço uma retrospectiva na minha vida, sinto que ela está limpa de remorsos, de arrependimentos. Não existe maior céu, nem um travesseiro mais macio do que a paz de consciência.

Agora estou me lembrando de um homem que estava cheio de sofrimento. Ele tinha câncer nos ossos, em fase terminal. Tudo nele doía, da cabeça aos pés. Sua filha, muito consternada, certa vez, perguntou-lhe: "Papai, está doendo muito?" E ele respondeu: "Milha filha, quase tudo dói em mim, da cabeça aos pés, menos uma coisa". "Que coisa?" - ela indagou. Ele, sereno, disse: "A minha consciência".

Não tenham dúvida de que, se você está em paz consigo mesmo, você é um homem feliz.

E não esqueçam o título da crônica. feliz é quem faz o bem. Que frase terapêutica!Se você faz o bem, duvido que haja melhor terapia. Se você perdoa, compreende o seu próximo, estará sempre com a consciência leve, terá o Reino dos Céus dentro de você, aquele estado de espírito a que o Mestre de Nazaré se referiu aos seus discípulos. Ele, sim, que soube ensinar a perdoar com o próprio exemplo.

Mas, há quem diga: "Eu perdoo mas não esqueço". Não adianta. O perdão deve ser total, livre, incondicional.

Mas, sublime mesmo, em matéria de fazer o bem, foi Jesus: Com o suor e o sangue derramando pela face, crucificado entre dois ladrões, ainda teve ânimo para dizer, olhando para o alto: "Pai, perdoa-lhes porque eles não sabem o que fazem"...

Carlos Romero é membro da Academia Paraibana de Letras.

Publicado no jornal Correio da Paraíba
Edição d 03 de agosto de 2015
Opinião