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sexta-feira, 22 de agosto de 2025

Casa Arrumada


Pérolas de Sabedoria

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

Casa arrumada é assim: Um lugar organizado, limpo, com espaço livre pra circulação e uma boa entrada de luz.

Mas casa, pra mim, tem que ser casa e não um centro cirúrgico, um cenário de novela.

Tem gente que gasta muito tempo limpando, esterilizando, ajeitando os móveis, afofando as almofadas...

Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo: Aqui tem vida...

Casa com vida, pra mim, é aquela em que os livros saem das prateleiras e os enfeites brincam de trocar de lugar.

Casa com vida tem fogão gasto pelo uso, pelo abuso das refeições fartas, que chamam todo mundo pra mesa da cozinha.

- Sofá sem mancha?

- Tapete sem fio puxado?

- Mesa sem marca de copo?

- Tá na cara que é casa sem festa.

- E se o piso não tem arranhão, é porque ali ninguém dança.

Casa com vida, pra mim, tem banheiro com vapor perfumado no meio da tarde.

Tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda barbante,

passaporte e vela de aniversário, tudo junto...

Casa com vida é aquela em que a gente entra e se sente bem-vinda.

A que está sempre pronta pros amigos, filhos, netos, pros vizinhos...

E nos quartos, se possível, 

tem lençóis revirados por gente que brinca ou namora a qualquer hora do dia.

Casa com vida é aquela que a gente arruma pra ficar com a cara da gente.

Arrume a sua casa todos os dias...

Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo pra viver nela...

E reconhecer nela o seu lugar.

quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

A Casa do tempo Perdido




Isabel CortezProsa e Poesias em Língua Portuguesa

"Bati no portão do tempo perdido, ninguém atendeu.

Bati segunda vez e mais outra e mais outra. Resposta nenhuma.

A casa do tempo perdido está coberta de hera pela metade; a outra metade são cinzas.

Casa onde não mora ninguém, e eu batendo e chamando pela dor de chamar e não ser escutado.

Simplesmente bater.

O eco devolve minha ânsia de entreabrir esses passos gelados.

A noite e o dia se confundem no esperar, no bater e bater.

O tempo perdido certamente não existe.

É o casarão vazio e condenado."

Carlos Drummond de Andrade